sexta-feira, 28 de maio de 2010

Para uma Galeria de Fla-Flus Imortais (2)

Tricolores,

Em uma de suas frases lapidares, Nélson Rodrigues definiu de modo sintético e definitivo: "Tudo é Fla-Flu, o resto é paisagem". Em apoio a esta verdade incontestável, cito a euforia dos meus amigos após nossa recente vitória e o consequente entusiasmo para ampliarmos a Galeria de Fla-Flus Imortais. O Antonio Carlos se antecipou aos demais e exigiu: "Precisamos falar da Sacopenapã, relembrar das bolas na Sacopenapã!". Esclareço que era esse o nome da Lagoa Rodrigo de Freitas quando o Antonio Carlos nadava por lá, antes que o progresso nos proporcionasse a poluição e a mortandade de peixes. Penso que os tricolores conhecem bem o episódio mas, para atender ao amigo, rememoro aquele que ficou conhecido como o Fla-Flu da Lagoa.

Na partida final do Campeonato de 1941, o empate bastava para o Fluminense se sagrar campeão. Começamos melhor e fizemos dois gols mas, antes de terminar o primeiro tempo, os rubro-negros diminuíram e, aos 39 minutos do segundo, empataram a partida. Eis a verdade: o Fla-Flu decisivo do Campeonato de 41 teve 84 minutos absolutamente supérfluos e irrelevantes. Caso a Federação Carioca dispusesse de dotes paranormais, poderia ter orientado previamente a arbitragem para dar apenas os 6 minutos finais do jogo. Nesse escasso período, se desenvolveu o enredo dramático que conduziu esse Fla-Flu a um lugar de honra na Mitologia Tricolor.

Extenuados e sob a intensa pressão de decidir o campeonato na casa do adversário, nossos jogadores passaram a chutar a bola sobre os muros do estádio, nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando todas as bolas disponíveis já boiavam no famoso espelho d'água, os dirigentes adversários mobilizaram seus atletas originais - os remadores - para desempenhar a nobre função de gandulas aquáticos, e garantir sua devolução com maior rapidez.

Neutralizado o expediente lacustre, providenciamos a cera técnica: nosso ponta-esquerda, Carreiro, infernizou os adversários e foi de tal forma caçado em campo, que acabou com a camisa rasgada dentro da grande área, clamando por pênalti. O juiz não apenas ignorou a penalidade, como o expulsou, não sem antes ouvir uma série de reclamações e apelos que consumiram mais alguns segundos.

Aos 40 minutos, com 10 homens em campo, nosso goleiro Batatais teve a clavícula deslocada, mas permaneceu heroicamente à frente de baliza tricolor. Como o jogo não acabava, o habilidoso Romeu Pelliciari resolveu fazê-lo a seu modo, mantendo a posse da bola. Romeu caminhava, corria, driblava, voltava e não se desfazia da pelota. Em determinado momento, chegou até a linha de fundo adversária e retornou ao nosso campo. Quando perceberam que o tempo passava, começaram a lhe fazer faltas. Inútil: após a cobrança, a ciranda recomeçava.

Todo esse enredo se desenrolou a partir dos 39 minutos da etapa final! Quanto tempo terão durado esses 6 minutos? Em nosso singelo cotidiano, teriam transcorrido 360 segundos mas, na dimensão metafísica de um Fla-Flu decisivo, as possibilidades são mais amplas: para os rubro-negros, um breve instante; para nós, uma eternidade. Na fria lógica do cronometrista (sim, havia essa figura no futebol de 41) foram exatos 12 minutos. Decorrido esse tempo, o juiz encerrou a partida, as garças e os frangos-d’água retomaram sua pacífica rotina na Lagoa Rodrigo de Freitas e o Fluminense era o Campeão Carioca de 1941.

Ao final dessas lembranças, Antonio Carlos afastou-se com um aceno solene do costumeiro chapéu, tomado por um transe de paixão tricolor. Se não me engano, levitava ligeiramente. Já ao longe, nos gritou uma variação da sentença rodrigueana: "O Fla-Flu da Lagoa é tudo... e mais a paisagem".

Este post é baseado em um texto publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Hércules, um herói tricolor

Tricolores,

Em todas as mitologias, o heroísmo é o caminho pelo qual os seres humanos podem alcançar a vida eterna, mas é pela narração de suas glórias que se concretiza essa imortalidade. De forma exemplar, a Mitologia Tricolor preenche os dois requisitos: tivemos jogadores que maravilharam os gramados com feitos extraordinários; tivemos Paulo Coelho Netto, o maior historiador de um clube de futebol em todos os tempos e tivemos Nelson Rodrigues - o nosso Homero -, um gênio com a sensibilidade para tecer seus enredos fantásticos. Muito modestamente, meus amigos e eu passamos a eternidade a rememorar os primorosos capítulos da nossa Mitologia, com o singelo objetivo de imortalizar seus heróis nos corações e mentes da nossa torcida.

Mesmo quem tenha pouco interesse por questões mitológicas, já terá percebido o destaque especial atribuído a um herói em particular: Hércules, filho de Zeus. Um campeão, um grande guerreiro, Hércules venceu diversos monstros e alcançou em definitivo sua condição heróica ao realizar 12 trabalhos tidos como impossíveis. Após sua morte, foi conduzido ao Olimpo e, ao longo do tempo, teve seu nome perpetuado em inumeráveis pinturas, estátuas, poemas e filmes. A conversa que, hoje, pretendo reproduzir trata deste assunto. Aliás, não exatamente. A intenção é recordar que também temos nosso Hércules, não menos forte, não menos corajoso, e para quem igualmente reivindicamos a condição de herói. Hércules de Miranda, por muitos considerado o melhor ponta esquerda de toda a História Tricolor, nasceu em Guaxupé (MG), em 1912, começou a carreira na várzea paulista e, em sequência, jogou no Juventus, no São Paulo da Floresta e no Independente. A torcida carioca o viu pela primeira vez em 1934, quando marcou o gol da vitória paulista, na decisão do título brasileiro contra a seleção carioca.

No Fluminense, Hércules estreou no dia 12 de junho de 1935, na vitória sobre a Portuguesa de Desportos, por 3 X 1. Em 1936, juntou-se a ele o centroavante Romeu – que tinha o hábito de passar meses sem errar um passe - e ganhamos o título carioca em uma melhor de três contra os rubronegros. Em 1937, recebemos mais um grande reforço, o meia esquerda da Portuguesa Santista, Elba de Pádua Lima, o Tim, com quem Hércules formou uma das mais famosas alas esquerdas do futebol brasileiro. Passamos a ter um ataque devastador e fizemos uma campanha irrepreensível: 17 vitórias, 4 empates, uma única derrota e o saldo de 43 gols. Em 1938, fomos tri-campeões. Em 39, nosso clube se envolveu em diversas atividades de apoio à entrada do Brasil na II Guerra Mundial e perdeu o foco da competição, mas nos dois anos seguintes voltamos a vencer o Campeonato Carioca.

Entre 1935 e 1942, o nosso Hércules fez 164 gols em 176 jogos (com a impressionante média de quase um gol por partida) e, até hoje, é o quarto maior artilheiro da História do Fluminense. No tricampeonato de 36–37-38, foi o artilheiro absoluto, com o total de 56 gols. Em 1940, foi de novo o artilheiro do time, com 12 gols. Pela Seleção Brasileira, fez seis partidas e três gols, tendo atuado duas vezes na Copa do Mundo de 1938, na França. Segundo o cronista esportivo Geraldo Romualdo da Silva, Hércules tinha “um canhão no pé esquerdo e um míssil no direito”, o que justificava seu apelido de “Dinamitador”.

Todo herói é um ser singular, com virtudes e habilidades que o diferenciam dos demais mortais. No entanto, ainda maior é a glória dos que combateram as forças das trevas e do caos. O Hércules grego exterminou monstros que ameaçavam seus contemporâneos e executou 12 trabalhos impossíveis. O Hércules tricolor, entre diversas façanhas, executou 15 gols contra o clube de regatas da Gávea. Ainda hoje, em quase cem anos de confrontos, considerados todos os jogadores de ambos os clubes, ele se mantém como o maior artilheiro deste clássico. Eis um herói a quem devemos render homenagens especiais: Hércules, o “Dinamitador” de Fla-Flus.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Na ponta-esquerda, Rui Barbosa (final)

Tricolores,

Como talvez tenham lido, iniciamos a semana com um indecifrável mistério ou simples confusão mental do meu amigo Stanislaw. Conversávamos sobre os ponteiros esquerdos que já haviam sido honrados com o privilégio de vestir a camisa tricolor, quando o Stan lançou um nome inesperado: Rui Barbosa! Prontamente, o Antonio Carlos nos proporcionou uma síntese biográfica e citou alguns depoimentos de brasileiros ilustres sobre o intelectual baiano. Tudo muito instrutivo, mas nossa curiosidade era só uma: teria a “Águia de Haia” superado seu preconceito contra o futebol e sobrevoado a ponta esquerda de Álvaro Chaves? Stanislaw se deliciou com a nossa perplexidade e, a cada hipótese despropositada, aumentava o prazer de suas gargalhadas. Acusou-nos de amnésia, ingratidão e, finalmente, de tomarmos tudo ao pé da letra. “É claro que eu não me referia ao ilustre baiano”, começou a nos explicar, “eu falava do ‘Rui Barbosa do futebol’, o nosso genial ponta esquerda”. E contou o seguinte.

João Batista Siqueira Lima, mais conhecido como Carreiro, jogou no São Cristóvão entre 1935 e 39 e chegou às Laranjeiras no ano seguinte. Fez 127 jogos, 66 gols e foi bicampeão em 1940/41. Era um ponta esquerda arisco, debochado, que irritava os adversários com seus dribles desconcertantes. O curioso é que Carreiro era pequeno, tinha o pescoço fino, ombros estreitos e sua cabeça grande parecia ainda maior, tendo em vista a fragilidade do corpo. Além do tipo físico peculiar, ele tinha uma característica que, vez por outra, acomete os jogadores de futebol: a inteligência. A velha máxima atribuída a Didi teve em Carreiro seu verdadeiro autor e mais fervoroso praticante: a bola corria; seu corpo, não. Ou por outra, seus braços e pernas eram avidamente poupados, pois seu grande desgaste se dava no nível mental. Carreiro carregava consigo o recorte de um jornal inglês para mostrar a quem se insurgisse contra sua tese. Segundo lhe traduziram, lá estava escrito o seguinte: “quem corre é a bola”.

Em um jogo importante, um de seus passes geniais deixou nosso centroavante na cara do gol. Depois de concluir para as redes com facilidade, o artilheiro correu para abraçar o autor intelectual da jogada. Carreiro o deteve e, apontando para a própria testa, orientou: “Abraço não, velho. Se quiser agradecer o passe, beija aqui”. Aquele mulato franzino e cabeçudo, a esbanjar malícia e a inventar coisas nunca vistas em um gramado (como uma “poderosa máquina cerebral”), recebeu da torcida um título honorífico que lhe caiu com perfeição: “o Rui Babosa do futebol!”. E nosso Rui Barbosa não fazia por menos: “Futebol não se joga com os pés”, dizia ele, “futebol é com a cabeça. Os maus jogadores cansam as pernas; eu, depois de uma partida, só sinto cansaço na cabeça”.

Em um Fla-Flu, na Gávea, Carreiro tentava alcançar um passe longo, próximo à área rubronegra, quando o truculento Yustrich – uma de suas vítimas prediletas - veio ao seu encontro. Já bem próximo do nosso ponta, ao se perceber fora da área - e, portanto, sem poder usar as mãos para fazer a defesa -, o goleiro desferiu um pontapé com tal força e elevando tão exageradamente a perna, que se temeu o pior. As senhoras presentes desviaram o olhar, alguns já definiam quem daria a notícia à família, mas nada ocorreu: o Davi tricolor passou com bola e tudo por entre as pernas do Golias rubronegro e fez o gol. Em um jogo contra o São Cristóvão, ao se aproximar da entrada da área, nosso Rui Barbosa recebeu o combate de um brutamontes que, pelo simples deslocamento de ar, já poderia jogá-lo no chão. Não se intimidou: valentemente, de boca fechada, por entre os dentes, ele assoviou como se fora o apito do juiz marcando o impedimento dele mesmo. Ao ouvir a suposta marcação, o adversário parou, mas Carreiro invadiu a área e fez o gol. O beque inconformado tanto reclamou que acabou expulso. Após episódios como este, para coroar sua obra,ele não se vangloriava. Exibia uma fisionomia inocente, de eterna vítima da violência: o rosto parado, pálido, os olhos fundos. A imagem da modéstia e do gênio, como o verdadeiro Rui Barbosa após um discurso triunfal.

Stanislaw contou ainda que, em 1943, Carreiro se transferiu para o Palmeiras e, no ano seguinte, para o Peñarol, onde se sagrou campeão. Meu amigo João Paulo, que ouvia todo o relato maravilhado, pela primeira vez demonstrou contrariedade, por deixarmos ir embora um craque tão especial. Mas Stan justificou: “O Carreiro ficou insatisfeito por não ser mais o titular absoluto da ponta esquerda. Mas não tinha jeito, contratamos para a posição um herói grego. Aliás, um ex-herói grego porque, em pouco tempo, se tornou mais um dos grandes heróis da Mitologia Tricolor”.

Por Zeus! O Stanislaw já nos aprontara outra armadilha. Mas a identidade e os feitos extraordinários deste novo herói ficam para terça-feira. Aliás, um dia muito adequado, por ser véspera de Fla-Flu.


terça-feira, 18 de maio de 2010

Na ponta esquerda, Rui Barbosa

Tricolores,

Para os que ainda não estão familiarizados com o meu grupo, devo advertí-los da nossa inesgotável capacidade de discutir temas imprevisíveis, utilizar informações e argumentos pouco convencionais e, por fim, identificar sempre uma maneira de relacioná-los ao Fluminense. Ainda outro dia, falávamos da tensão em torno do programa nuclear do Irã, mas a conversa se deteve sobre a beleza de sua bandeira tricolor! Paciência, somos assim. Ontem, o Antonio Carlos se queixava de que nosso time tem jogado meio torto, de que só é ofensivo pela direita, o que nos trouxe à lembrança os ponteiros esquerdos que já vestiram nossa camisa. Falamos de Tato, Paulinho Carioca, Zezé, Paulo Cesar Caju, Mario Sérgio, Zé Roberto, Lula, Gilson Nunes, Escurinho e tantos outros. Os nomes começavam a escassear, quando o Stanislaw lembrou entusiasmado: "Rui Barbosa!". Perplexidade geral.

Reconhecidamente, o baiano Rui foi uma das maiores inteligências da história do nosso país. Nascido em 1849, consta que aos cinco anos de idade já tinha seu talento admirado pelos professores. Aos onze anos, o mestre ginasiano mandou chamar seu pai para informar que nada mais lhe tinha a ensinar. Concluído o curso, ainda sem idade para entrar na faculdade, passou o ano estudando alemão. Antonio Carlos nos contou que no auge da campanha abolicionista, José do Patrocínio escreveu: "Deus acendeu um vulcão na cabeça de Rui Barbosa” e, proclamada a República, D. Pedro II teria constatado: "Nas trevas que caíram sobre o Brasil, a única luz que alumia é o talento de Rui Barbosa”. Rui foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, e recebeu de Joaquim Nabuco a seguinte definição: "Rui Barbosa, a mais poderosa máquina cerebral do nosso país". Em 1907, ao representar o Brasil na Conferência de Haia, na Holanda, recebeu a consagração mundial e se tornou a "Águia de Haia".

Apesar destas e de inúmeras outras qualificações, não consta que o baiano jogasse ou sequer apreciasse futebol. Em 1916, quando a seleção brasileira foi disputar o primeiro campeonato sulamericano, em Buenos Aires, havia escassez de navios devido à I Guerra Mundial. A única embarcação disponível era o "Júpiter", fretado para conduzir a delegação brasileira que participaria do Congresso do Centenário de Independência da Argentina. Por se destinar a tão restrito número de passageiros, o “Júpiter” tinha apenas um terço dos seus camarotes ocupados, o que sugeriu ao Ministro do Exterior propiciar uma oportuna carona aos jogadores brasileiros. Rui Barbosa, chefe da comitiva diplomática, vetou a idéia de modo categórico: "Eu, minha família e meus auxiliares não viajamos com essa corja de malandros". Que diferença, hein? Com o tempo, a “corja de malandros" se transformaria na "pátria de chuteiras". Mas o fato é que a recusa de Rui obrigou nossa seleção a viajar de trem e a chegar em Buenos Aires apenas cinco dias antes da abertura do campeonato, vencido pelo Uruguai.

Feita a síntese da imensa capacidade intelectual de Rui Barbosa - e o registro do preconceito então predominante com relação ao futebol e a seus praticantes -, restava entre nós a questão fundamental, a pergunta intrigante: "Mas e a ponta-esquerda? Rui Barbosa vestiu mesmo a camisa 11 tricolor?". O Stanislaw nos explicou tudo mas, para não cansá-los, contarei na próxima sexta-feira.

sábado, 15 de maio de 2010

Para uma Galeria de Fla-Flus Imortais

Tricolores,

Para os amantes do futebol, uma precária linha-de-passe ou uma pelada improvisada - mesmo repleta de furiosas caneladas - têm o seu encanto e o seu interesse. Partidas oficiais, nem se fala, ainda mais quando está em campo o Fluminense. Para muitos de nós, entre todos os confrontos possíveis, as derrotas mais sofridas e as vitórias mais comemoradas ocorrem nos Fla-Flus. Proponho então elaborarmos uma galeria de Fla-Flus imortais, reunindo os jogos mais memoráveis, dramáticos ou gloriosos de todos os tempos.

Os critérios para a escolha são rigorosamente informais. Pode se tratar de uma decisão de campeonato ou de um aspecto sentimental, pessoal ou familiar. Não importa a razão, o fundamental é que na nossa biografia de tricolor esse Fla-Flu ocupe um lugar de honra, uma posição de destaque especial.

Aqui no meu grupo, já existem opiniões variadas. Os mais jovens, ou com menos disposição para um esforço de memória, citam a barriga de Renato, em 95. Os mais cerebrais, lembram da cabeça de Assis, em 84; os cínicos, preferem a mão de Wilton, em 68. Há os que defendam o primeiro confronto de 1912, a primeira vez em que enfrentamos os nove amotinados que se abrigaram no clube de regatas. Esse foi o pai de todos os Fla-Flus, marcado pelo primeiro frango de um goleiro rubro-negro e também pela primeira vitória tricolor: 3 a 2.

Para dar início à série, registro meu voto: o Fla-Flu de 1919! Naquela época, Mario Filho ainda não havia inventado o Fla-Flu, mas já se tratava de um clássico eletrizante. Em 21 de dezembro, o Fluminense jogava sua penúltima partida no returno e estava dois pontos à frente do adversário. Em uma época em que era essa a pontuação por vitória, o empate já nos daria o campeonato. Estavam presentes o Presidente da República, sua esposa, diversas autoridades, mas tudo isso é irrelevante. Vencemos a partida por 4 a 0, fomos tricampeões mas, nem aí, reside a importância maior deste jogo.

Explico. Aos oito minutos, o juiz apita pênalti contra nós. A torcida não acredita, há um momento de pânico mas, de repente, tudo parece se apequenar ou desaparecer, enquanto um homem se agiganta: Marcos Carneiro de Mendonça. O jogador rubro-negro cobra a penalidade e Marcos espalma; o rebote retorna caprichosamente aos pés do mesmo jogador que, diante do goleiro caído, desfere o tiro inapelável. Marcos ressurge, de forma surpreendente, e faz nova defesa parcial. Houve esse rebote e mais outro, um total de quatro chutes à queima-roupa e Marcos a todos defendeu. A multidão, que assistia em suspense, quase sem respirar, em assombrado silêncio, finalmente põe-se de pé e explode em delírio. Alí estava mais que um ídolo. Para a história e para a lenda, nascia o mito fundador da tradição de grandes goleiros tricolores.

Este post é baseado em um texto publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", Editora Corifeu.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Seleção: escolha o seu monstro



sexta-feira, 7 de maio de 2010

Meu tipo inesquecível

Tricolores,

Aqueles que nos dão a honra de desperdiçar seu precioso tempo com a leitura das lembranças e obsessões deste bando de tricolores desencarnados já terão ciência de que, há pouco tempo, nosso amigo Adionson se investiu da condição de repórter. Que até o momento ainda não lhe tenham processado, só a nossa condição sobrenatural pode explicar. Esta semana, surgiu nova polêmica sobre o assunto, quando o Stanislaw se pôs a criticar um personagem a quem denomina "Alberto Roberto Prado". Atribuía-lhe qualidades pouco lisonjeiras, quando o João Paulo, em sua santa inocência, ponderou que várias de suas revelações acabavam por se confirmar. "É claro", retrucou Stan, "escrevendo e falando em veículos tão poderosos, ele tem a capacidade de induzir a ocorrência de alguns fatos. Se der certo, é um furo; se der errado, ele não toca mais no assunto e ninguém se atreve a lhe cobrar uma explicação". Os ânimos andavam meio exaltados quando o Adionson pediu a palavra para nos revelar o alvo maior de sua admiração, o seu tipo inesquecível na crônica esportiva carioca: Isaac Amar. O nome nos pareceu estranho, mas meu amigo defendeu-o com entusiasmo e resolveu nos apresentar melhor o seu ídolo. Vou tentar resumir.

Médico obstetra e professor da Escola de Medicina e Cirurgia, Isaac José Amar - por amor ao futebol e, particularmente, ao Fluminense -, associava a estas atividades uma participação regular no jornal "O Radical". Quando o panorama esportivo lhe parecia monótono ou pelo simples prazer de gozar nossos adversários, Isaac não hesitava: inventava uma bomba. Por exemplo, pelos idos de 1936, dois jogadores de muito prestígio no futebol carioca eram o goleiro Batatais e o ponta-esquerda Hércules, grandes ídolos da torcida tricolor. No dia 31 de março, no fechamento da edição do dia seguinte, não havia na redação uma única nota interessante. Isaac Amar resolveu o problema com a seguinte manchete: "Batatais e Hércules raptados!". Naquele ano havia uma cisão no futebol carioca e a nota de Isaac insinuava que os autores do sensacional rapto teriam sido agentes do Vasco da Gama. A cidade pegou fogo e durante algumas horas o ambiente esportivo se tranformou em caos absoluto. Na edição seguinte, veio o esclarecimento: 1º. de abril!

Em 1937, Isaac aprontou outra peça com consequências ainda mais profundas e duradouras. Em certa noite chuvosa, o Andaraí aguardava pelo Vasco, no campo do Fluminense, mas o time de São Januário se atrasou exageradamente. O juiz considerava a hipótese da vitória por W.O., mas o Andaraí julgou tratar-se de uma indelicadeza e permaneceu à espera do adversário. Resultado: o Vasco chegou e venceu por 12 x 0. Isaac considerou o placar de extremo mau gosto e vingou os derrotados alardeando a informação de que o ponta-esquerda Arubinha enterrara um sapo no gramado de São Januário. A falsa notícia talvez não tivesse maior consequência se a equipe vascaína, então líder e favorita do campeonato, não iniciasse uma série de derrotas coroadas com a perda do título.

Satisfeito com o inesperado sucesso de sua ficção, Issac Amar providenciou os requintes de crueldade. Para começar, descreveu a cena: após a goleada humilhante, Arubinha se ajoelhara no gramado encharcado de Álvaro Chaves, juntara as mãos e, olhos pregados na escuridão, apelara ao Todo Poderoso: "Se há um Deus no céu, o Vasco vai passar 12 anos sem ser campeão". Dias depois do dramático apelo aos céus, entrara incógnito em São Januário e enterrara o sinistro despacho. Os novos detalhes alarmaram ainda mais a torcida cruzmaltina e Isaac acrescentava elementos de suspense: a praga contaria a partir de 1934 - último título oficial do Vasco -, de 1936 – quando o time fora campeão fora da Liga Carioca - ou de 1937, quando o episódio ocorrera? Pânico total: a diretoria mandou escavar vários pontos do gramado, a colônia portuguesa ofereceu dinheiro para que Arubinha desenterrase o sapo, mas o assustado ponta-esquerda alegava não poder desfazer o que não havia feito. Aliás, considerava a si mesmo a principal vítima da confusão, já que em represália o português da venda lhe cortara o fiado. Em resumo, Isaac Amar fez esta história render até 1945, quando finalmente o Vasco voltou a ser campeão.

Adionson terminou seu relato entusiasmado: "Que criatividade, que gozador!". Às gargalhadas, tivemos que admitir os méritos do Isaac e a ingenuidade daqueles tempos. As mentiras de hoje são bem maiores e tão bem orquestradas que, mesmo desafiando qualquer tipo de lógica, acabam por adquirir status de verdade.

Meu tipo inesquecível

Tricolores,

Aqueles que nos dão a honra de desperdiçar seu precioso tempo com a leitura das lembranças e obsessões deste bando de tricolores desencarnados já terão ciência de que, há pouco tempo, nosso amigo Adionson se investiu da condição de repórter. Que até o momento ainda não lhe tenham processado, só a nossa condição sobrenatural pode explicar. Esta semana, surgiu nova polêmica sobre o assunto, quando o Stanislaw se pôs a criticar um personagem a quem denomina “Alberto Roberto Prado”. Atribuía-lhe qualidades pouco lisonjeiras, quando o João Paulo, em sua santa inocência, ponderou que várias de suas revelações acabavam por se confirmar. “É claro”, retrucou Stan, “escrevendo e falando em veículos tão poderosos, ele tem a capacidade de induzir a ocorrência de alguns fatos. Se der certo, é um furo; se der errado, ele não toca mais no assunto e ninguém se atreve a lhe cobrar uma explicação”. Os ânimos andavam meio exaltados quando o Adionson pediu a palavra para nos revelar o alvo maior de sua admiração, o seu tipo inesquecível na crônica esportiva carioca: Isaac Amar. O nome nos pareceu estranho, mas meu amigo defendeu-o com entusiasmo e resolveu nos apresentar melhor o seu ídolo. Vou tentar resumir.

Médico obstetra e professor da Escola de Medicina e Cirurgia, Isaac José Amar - por amor ao futebol e, particularmente, ao Fluminense -, associava a estas atividades uma participação regular no jornal “O Radical”. Quando o panorama esportivo lhe parecia monótono ou pelo simples prazer de gozar nossos adversários, Isaac não hesitava: inventava uma bomba. Por exemplo, pelos idos de 1936, dois jogadores de muito prestígio no futebol carioca eram o goleiro Batatais e o ponta-esquerda Hércules, grandes ídolos da torcida tricolor. No dia 31 de março, no fechamento da edição do dia seguinte, não havia na redação uma única nota interessante. Isaac Amar resolveu o problema com a seguinte manchete: “Batatais e Hércules raptados!”. Naquele ano havia uma cisão no futebol carioca e a nota de Isaac insinuava que os autores do sensacional rapto teriam sido agentes do Vasco da Gama. A cidade pegou fogo e durante algumas horas o ambiente esportivo se tranformou em caos absoluto. Na edição seguinte, veio o esclarecimento: 1º. de abril!

Em 1937, Isaac aprontou outra peça com consequências ainda mais profundas e duradouras. Em certa noite chuvosa, o Andaraí aguardava pelo Vasco, no campo do Fluminense, mas o time de São Januário se atrasou exageradamente. O juiz considerava a hipótese da vitória por W.O., mas o Andaraí julgou tratar-se de uma indelicadeza e permaneceu à espera do adversário. Resultado: o Vasco chegou e venceu por 12 x 0. Isaac considerou o placar de extremo mau gosto e vingou os derrotados alardeando a informação de que o ponta-esquerda Arubinha enterrara um sapo no gramado de São Januário. A falsa notícia talvez não tivesse maior consequência se a equipe vascaína, então líder e favorita do campeonato, não iniciasse uma série de derrotas coroadas com a perda do título.
Satisfeito com o inesperado sucesso de sua ficção, Issac Amar providenciou os requintes de crueldade. Para começar, descreveu a cena: após a goleada humilhante, Arubinha se ajoelhara no gramado encharcado de Álvaro Chaves, juntara as mãos e, olhos pregados na escuridão, apelara ao Todo Poderoso: “Se há um Deus no céu, o Vasco vai passar 12 anos sem ser campeão”. Dias depois do dramático apelo aos céus, entrara incógnito em São Januário e enterrara o sinistro despacho. Os novos detalhes alarmaram ainda mais a torcida cruzmaltina e Isaac acrescentava elementos de suspense: a praga contaria a partir de 1934 - último título oficial do Vasco -, de 1936 – quando o time fora campeão fora da Liga Carioca - ou de 1937, quando o episódio ocorrera? Pânico total: a diretoria mandou escavar vários pontos do gramado, a colônia portuguesa ofereceu dinheiro para que Arubinha desenterrase o sapo, mas o assustado ponta-esquerda alegava não poder desfazer o que não havia feito. Aliás, considerava a si mesmo a principal vítima da confusão, já que em represália o português da venda lhe cortara o fiado. Em resumo, Isaac Amar fez esta história render até 1945, quando finalmente o Vasco voltou a ser campeão.

Adionson terminou seu relato entusiasmado: “Que criatividade, que gozador!”. Às gargalhadas, tivemos que admitir os méritos do Isaac e a ingenuidade daqueles tempos. As mentiras de hoje são bem maiores e tão bem orquestradas que, mesmo desafiando qualquer tipo de lógica, acabam por adquirir status de verdade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Meu Grupo


sábado, 1 de maio de 2010

A Tradição Tricolor

Tricolores,

Muito se fala e se especula sobre a Tradição Tricolor. Será que todos que a ela se referem têm exata consciência do que se trata? Será que todos se referem ao mesmo conjunto de princípios e valores? Meus amigos Stanislaw e Angenor se propuseram a esclarecê-los sobre a visão do nosso grupo sobre alguns fatos, circunstâncias e personagens que contribuíram para esta construção histórica. Trata-se não apenas de destacar sua relevância para o atual momento do clube, mas de reconhecer sua capacidade de expressar várias características do que foi e sempre deveria ser o Fluminense Football Club. Dito isso, passo-lhes a palavra.

"No final de 1901, Oscar Cox tentou fundar o Rio Football Club, mas não conseguiu reunir entusiastas em número suficiente. Em 1902, quando finalmente obteve êxito na criação de um clube de futebol um outro grupo - apenas nove dias antes! - já havia lhe tomado o nome. Nossos fundadores, firmes na vontade de representar não apenas uma localidade, mas toda a cidade do Rio de Janeiro, se recordaram de que, quando iam disputar partidas amistosas em São Paulo, eram anunciados como "uns jovens fluminenses". E assim tomaram a decisão. Cabe esclarecer quem eram esses "jovens fluminenses": príncipes, condes, barões, herdeiros da elite do Império? Em desacordo com outras agremiações, o Fluminense não era formado pela aristocracia agrária, por ex-proprietários de escravos nem, tampouco, era um clube exclusivo de imigrantes. Os primeiros tricolores integravam um moderno segmento da sociedade, formado por entusiastas do abolicionismo, da industrialização e dos ideais democráticos e republicanos. Compunham um novo conceito de elite, baseado no empreendedorismo e na valorização da cultura.

Por isso, enquanto a elite presa ao passado e ao capital financeiro agrário habitava as extensas chácaras de São Cristóvão, do Andaraí e da Tijuca, esse novo contingente populacional buscou situar-se em uma ampla região denominada Vale do Rio Carioca, que se estendia do Largo do Machado ao Cosme Velho. Nesta região, não casualmente, Oscar Cox e seus companheiros escolheram um local denominado Baixo Laranjeiras para praticar um esporte mal visto pela elite conservadora. Desde o Império, um pouco mais acima da nossa sede, se situavam grandes quilombos, que deram contribuição decisiva para o samba e foram o berço de uma série de iniciativas carnavalescas, como o Rancho Arrepiados, cujas cores se assemelhavam às do Fluminense. Somando-se a esse contexto, a instalação da Fábrica Aliança ajudou a traçar o perfil do bairro, estimulando a abertura de armazéns e botequins para a classe operária.

Em contraste, vizinhos ao campo alugado, estavam a antiga residência da Princesa Isabel e do Conde D'Eu - atual Palácio Guanabara - , e o majestoso Palácio das Laranjeiras, construído pela família Guinle, de importância central para a nossa história. Desse diversificado amálgama social emergiu uma igualmente variada vida cultural. No Club Laranjeiras, encontravam-se poetas e músicos eruditos, enquanto no Restaurante Lamas (onde foi comemorada nossa fundação) juntavam-se literatos, jornalistas e boêmios em geral.

Ao mesmo tempo em que nosso clube era fundado, o Rio de Janeiro passava a ser administrado pelo prefeito Pereira Passos que, em quatro anos, transformou a aparência da cidade: os cortiços e as ruas estreitas e escurasm foram substituídos por largas avenidas. Em 1904, o maranhense Coelho Netto se mudou com a família para a Rua do Roso que, após a sua morte, passaria a ter o seu nome. Era um dos maiores literatos brasileiros, um membro fundador da Academia Brasileira de Letras, e um apaixonado pelo futebol, pelo Fluminense e, já se pode considerar uma redundância, pelo Rio de Janeiro. Em 1908, nas páginas do jornal A Notícia, Coelho Netto cunhou a expressão com a qual o Rio se tornaria mundialmente conhecido: Cidade Maravilhosa. Mais tarde, também se mudaram para a região novos personagens da vanguarda intelectual, como o próprio Pereira Passos, Machado de Assis, as famílias do jurista Sobral Pinto e do arquiteto Oscar Niemeyer que, ainda menino, jogou bola no gramado tricolor.

Ao longo de muitos anos, as histórias do bairro, da cidade e do Fluminense, se confundiram, se entrelaçaram, e não se pode considerar obra do acaso que o clube chamado Fluminense - e que se chamaria Rio - , tivesse sua primeira e única sede na esquina das Ruas Guanabara e Retiro da Guanabara, em pleno Vale do Rio Carioca. No início do século XX, Laranjeiras era a perfeita expressão de uma cidade em profunda transformação política, urbanística e sociocultural, e o Vale do Rio Carioca, berço da cultura tricolor, estava muito à frente do seu tempo, permitindo de forma pioneira a integração de diferentes classes sociais da cidade.

Tais elementos históricos nos pareceram fundamentais para a compreensão do que se pode - verdadeiramente, já que datam de nossa origem - considerar a tradição tricolor: pioneirismo, organização, empreendedorismo, ousadia para correr risco e superar obstáculos. Características iniciais de seus fundadores, progressivamente, esses valores e ideais avançaram sobre as convencionais fronteiras geográficas e se instalaram nos corações e mentes de um imenso contingente de brasileiros, que vibram e sofrem de paixão pelas três cores que traduzem tradição!"
Stanislaw e Angenor
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Este post é baseado em um texto escrito em maio de 2009, publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", Editora Corifeu.

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