sexta-feira, 25 de junho de 2010
Um Intelectual Tricolor
Tricolores,
Durante os encontros mais recentes do meu grupo, volta e meia alguém se refere ao Antonio, o italianinho da Sardenha que, pelo falatório e por nossas cores, nos confundiu com patrícios seus. O Adionson, por exemplo, tem especial predileção pela tese de que "todo homem é um intelectual" e, modestamente, costuma citar o seu próprio caso. Até o momento, não angariou adesões. Impressionou a todos a rápida compreensão do Antonio de que a causa tricolor se deva expressar em um vasto projeto cultural, com visibilidade e capacidade de influência nos espaços estratégicos da sociedade, sobretudo valorizando o nosso incomparável patrimônio histórico.
A esse respeito, Antonio Carlos comentou que, com um ano de atraso, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro acaba de inaugurar uma grande reforma comemorativa do seu centenário. "Pois ninguém, nem o nosso clube, se lembrou de homenagear o ilustre tricolor que escreveu a primeira peça encenada naquele teatro". Diante da curiosidade sobre esse grande nome, ele nos informou, exaltado: "Coelho Neto!". Acreditem, a reação coletiva foi de aplauso. A simples menção desse nome, por sua biografia e sua obra, esclarece o que é o Fluminense e o significado de ser tricolor.
Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 1864, no interior do Maranhão, e veio para o Rio de Janeiro com a família aos seis anos de idade. Seu espírito irrequieto e a curiosidade intelectual o conduziram ao jornalismo e à vida literária. Em 1890, casou-se com D. Gabi, com quem teve sete filhos. Para manter a família, escrevia cerca de dez horas por dia, em uma rotina que acabou por lhe prejudicar a saúde. Em 1900, doente, viu-se obrigado a vender em leilão os seus móveis, livros, cristais etc. Em 1905, a família alugou uma casa na Rua do Roso, no. 79, esquina com Pinheiro Machado, bem em frente ao Fluminense F.C., tornando-se um apaixonado tricolor. Após sua morte, essa rua passou a se chamar Coelho Neto.
Destemido capoeirista, Coelho Neto encaminhou os filhos para a prática esportiva em nosso clube: Georges e Paulo atuaram no atletismo, Violeta na natação, Emmanuel (o Mano, prematuramente falecido) foi craque no futebol e João, o Preguinho, o maior atleta de toda a História do Fluminense, se destacando na prática de nove modalidades esportivas. A esse respeito, com humildade e bom humor, Coelho Neto dizia: "Já publiquei mais de cem livros, mas sou reconhecido na rua como o pai do Preguinho". Como escritor, seu estilo era criativo e precioso, com o uso frequente de termos raros. Foi convidado por Machado de Assis para ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, da qual viria a ser o nono presidente e pela qual foi indicado ao Premio Nobel de Literatura.
Coelho Neto era cortejado pelos principais jornais do país e, em duas ocasiões, o voto popular o elegeu o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros". Em 1899, no Maranhão, recebeu uma homenagem inédita: os estudantes desatrelaram os cavalos de sua charrete e o puxaram até seu destino. No entanto, em torno do início da década de 1920, o autor e sua obra passaram a enfrentar ataques injustos e raivosos. Em princípio, de Lima Barreto, o "homem do povo" e, mais tarde, após o sucesso do movimento modernista de São Paulo, a necessidade de combater nossas melhores tradições o tornou o homem mais atacado do Brasil.
Meu amigo Antonio Carlos fica indignado com as críticas a Coelho Neto: "Maranhense do interior, filho de um português e uma índia, trabalhador dedicado, frequentemente às voltas com dificuldades financeiras, defensor apaixonado da libertação dos escravos, da República, do voto feminino e da preservação da natureza, criador da expressão 'Cidade Maravilhosa', capoeirista, primeiro escritor brasileiro a admitir o futebol em seus textos como atividade saudável e educativa, ele era acusado de ser elitista, arrogante e alienado quando, na verdade, era apenas brilhante".
Coelho Neto não se conformou com a arte pela arte. Soube se valer da palavra escrita ou falada para denunciar e combater, mas também para educar, elogiar e construir. Em 28 de novembro de 1934, esse intelectual tricolor, comprometido com as causas populares e com o progresso, partiu para o outro lado do mistério da vida, onde nos encontramos meus amigos e eu.
J.T de Carvalho escreve todas as sextas
Durante os encontros mais recentes do meu grupo, volta e meia alguém se refere ao Antonio, o italianinho da Sardenha que, pelo falatório e por nossas cores, nos confundiu com patrícios seus. O Adionson, por exemplo, tem especial predileção pela tese de que "todo homem é um intelectual" e, modestamente, costuma citar o seu próprio caso. Até o momento, não angariou adesões. Impressionou a todos a rápida compreensão do Antonio de que a causa tricolor se deva expressar em um vasto projeto cultural, com visibilidade e capacidade de influência nos espaços estratégicos da sociedade, sobretudo valorizando o nosso incomparável patrimônio histórico.
A esse respeito, Antonio Carlos comentou que, com um ano de atraso, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro acaba de inaugurar uma grande reforma comemorativa do seu centenário. "Pois ninguém, nem o nosso clube, se lembrou de homenagear o ilustre tricolor que escreveu a primeira peça encenada naquele teatro". Diante da curiosidade sobre esse grande nome, ele nos informou, exaltado: "Coelho Neto!". Acreditem, a reação coletiva foi de aplauso. A simples menção desse nome, por sua biografia e sua obra, esclarece o que é o Fluminense e o significado de ser tricolor.
Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em 1864, no interior do Maranhão, e veio para o Rio de Janeiro com a família aos seis anos de idade. Seu espírito irrequieto e a curiosidade intelectual o conduziram ao jornalismo e à vida literária. Em 1890, casou-se com D. Gabi, com quem teve sete filhos. Para manter a família, escrevia cerca de dez horas por dia, em uma rotina que acabou por lhe prejudicar a saúde. Em 1900, doente, viu-se obrigado a vender em leilão os seus móveis, livros, cristais etc. Em 1905, a família alugou uma casa na Rua do Roso, no. 79, esquina com Pinheiro Machado, bem em frente ao Fluminense F.C., tornando-se um apaixonado tricolor. Após sua morte, essa rua passou a se chamar Coelho Neto.
Destemido capoeirista, Coelho Neto encaminhou os filhos para a prática esportiva em nosso clube: Georges e Paulo atuaram no atletismo, Violeta na natação, Emmanuel (o Mano, prematuramente falecido) foi craque no futebol e João, o Preguinho, o maior atleta de toda a História do Fluminense, se destacando na prática de nove modalidades esportivas. A esse respeito, com humildade e bom humor, Coelho Neto dizia: "Já publiquei mais de cem livros, mas sou reconhecido na rua como o pai do Preguinho". Como escritor, seu estilo era criativo e precioso, com o uso frequente de termos raros. Foi convidado por Machado de Assis para ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, da qual viria a ser o nono presidente e pela qual foi indicado ao Premio Nobel de Literatura.
Coelho Neto era cortejado pelos principais jornais do país e, em duas ocasiões, o voto popular o elegeu o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros". Em 1899, no Maranhão, recebeu uma homenagem inédita: os estudantes desatrelaram os cavalos de sua charrete e o puxaram até seu destino. No entanto, em torno do início da década de 1920, o autor e sua obra passaram a enfrentar ataques injustos e raivosos. Em princípio, de Lima Barreto, o "homem do povo" e, mais tarde, após o sucesso do movimento modernista de São Paulo, a necessidade de combater nossas melhores tradições o tornou o homem mais atacado do Brasil.
Meu amigo Antonio Carlos fica indignado com as críticas a Coelho Neto: "Maranhense do interior, filho de um português e uma índia, trabalhador dedicado, frequentemente às voltas com dificuldades financeiras, defensor apaixonado da libertação dos escravos, da República, do voto feminino e da preservação da natureza, criador da expressão 'Cidade Maravilhosa', capoeirista, primeiro escritor brasileiro a admitir o futebol em seus textos como atividade saudável e educativa, ele era acusado de ser elitista, arrogante e alienado quando, na verdade, era apenas brilhante".
Coelho Neto não se conformou com a arte pela arte. Soube se valer da palavra escrita ou falada para denunciar e combater, mas também para educar, elogiar e construir. Em 28 de novembro de 1934, esse intelectual tricolor, comprometido com as causas populares e com o progresso, partiu para o outro lado do mistério da vida, onde nos encontramos meus amigos e eu.
J.T de Carvalho escreve todas as sextas
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Por uma galeria de Fla-Flus imortais (3)
Tricolores,
Minha turma é totalmente avessa à tecnologia. A consequência é que desejam participar da composição da Galeria de Fla-Flus Imortais, mas alegam não saber "bater à máquina" (que é como denominam a digitação). Faço a justificativa porque o Angenor, notável compositor aqui do grupo, pediu que fizesse o registro de um episódio, para mim, até então desconhecido.
Mesmo os mais jovens já terão ouvido falar de Ary Barroso, mineiro da cidade de Ubá, notório radialista, compositor popular (como o Angenor), mas com uma mancha indelével em sua biografia futebolística. O Ary Barroso era (ou se dizia) tricolor, vivia em Álvaro Chaves, era homenageado, convidado a tocar piano em todas as festas etc. Certo dia, por motivo fútil ou de caso pensado, abandonou o nosso clube e se declarou rubro-negro. A súbita e espantosa conversão contrariou a todos. Outro compositor da época, Haroldo Barbosa, tricolor verdadeiro, nunca aceitou a deserção e não perdia oportunidade para provocar o Ary e aprontar-lhe alguma gozação.
Em um domingo de setembro de 1955, haveria um Fla-Flu que, antecipadamente, Ary Barroso anunciava como ganho pelo rubro-negro. Haroldo, confiante na vitória tricolor, propôs-lhe a aposta, logo aceita: "O seu bigode contra o meu. Quem perder raspa!". Ora, o bigode do Ary era sua marca registrada, havia quem especulasse já haver nascido com ele. Era mais crível vê-lo nu, no Centro da cidade, do que de cara limpa. Resultado do jogo: Fluminense 2x1. Segundo o trato, o encontro seria no Bar Casa Villarino, tradicional templo da boemia intelectual, onde cerca de 30 pessoas aguardavam o cumprimento da aposta. Mas, o Ary não apareceu.
Iniciaram-se as buscas, até que ele foi descoberto na casa da Linda Batista. Um batalhão de tricolores invadiu o apartamento da cantora disposto a fazê-lo cumprir o trato. De início, Ary alegou compromissos profissionais: precisava conservar o bigode, pelo menos até o sábado seguinte, em função de suas atividades na boate do Hotel Plaza. Diante da resistência geral, apelou para o argumento matrimonial: "A patroa não vai gostar. Isso ainda acaba em separação". Solícitos - e sem especular sobre a relevância conjugal do famoso bigode - os tricolores telefonaram para D. Ivone que deu a sentença inapelável: "Perdeu a aposta? Então, raspa!". Munido de um providencial aparelho de barbear, Haroldo Barbosa pôs abaixo o bigode do rubro-negro. Derrotado, Ary ainda arriscou um final épico: "Espero que o meu clube se inspire no meu sacrifício".
Era esse o Fla-Flu escolhido pelo Angenor. Para comprovar o que dizia, me entregou uma foto amarelada - com o Ary sem bigode -, publicada na revista O Cruzeiro, de 1963.Perguntei-lhe se tinha perdido a oportunidade de também gozar o famoso desertor. Ao seu jeito discreto, ele confessou lhe ter apenas cochichado: "Ary, disfarça e chora".
Este post e baseado em um texto do livro “Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Minha turma é totalmente avessa à tecnologia. A consequência é que desejam participar da composição da Galeria de Fla-Flus Imortais, mas alegam não saber "bater à máquina" (que é como denominam a digitação). Faço a justificativa porque o Angenor, notável compositor aqui do grupo, pediu que fizesse o registro de um episódio, para mim, até então desconhecido.
Mesmo os mais jovens já terão ouvido falar de Ary Barroso, mineiro da cidade de Ubá, notório radialista, compositor popular (como o Angenor), mas com uma mancha indelével em sua biografia futebolística. O Ary Barroso era (ou se dizia) tricolor, vivia em Álvaro Chaves, era homenageado, convidado a tocar piano em todas as festas etc. Certo dia, por motivo fútil ou de caso pensado, abandonou o nosso clube e se declarou rubro-negro. A súbita e espantosa conversão contrariou a todos. Outro compositor da época, Haroldo Barbosa, tricolor verdadeiro, nunca aceitou a deserção e não perdia oportunidade para provocar o Ary e aprontar-lhe alguma gozação.
Em um domingo de setembro de 1955, haveria um Fla-Flu que, antecipadamente, Ary Barroso anunciava como ganho pelo rubro-negro. Haroldo, confiante na vitória tricolor, propôs-lhe a aposta, logo aceita: "O seu bigode contra o meu. Quem perder raspa!". Ora, o bigode do Ary era sua marca registrada, havia quem especulasse já haver nascido com ele. Era mais crível vê-lo nu, no Centro da cidade, do que de cara limpa. Resultado do jogo: Fluminense 2x1. Segundo o trato, o encontro seria no Bar Casa Villarino, tradicional templo da boemia intelectual, onde cerca de 30 pessoas aguardavam o cumprimento da aposta. Mas, o Ary não apareceu.
Iniciaram-se as buscas, até que ele foi descoberto na casa da Linda Batista. Um batalhão de tricolores invadiu o apartamento da cantora disposto a fazê-lo cumprir o trato. De início, Ary alegou compromissos profissionais: precisava conservar o bigode, pelo menos até o sábado seguinte, em função de suas atividades na boate do Hotel Plaza. Diante da resistência geral, apelou para o argumento matrimonial: "A patroa não vai gostar. Isso ainda acaba em separação". Solícitos - e sem especular sobre a relevância conjugal do famoso bigode - os tricolores telefonaram para D. Ivone que deu a sentença inapelável: "Perdeu a aposta? Então, raspa!". Munido de um providencial aparelho de barbear, Haroldo Barbosa pôs abaixo o bigode do rubro-negro. Derrotado, Ary ainda arriscou um final épico: "Espero que o meu clube se inspire no meu sacrifício".
Era esse o Fla-Flu escolhido pelo Angenor. Para comprovar o que dizia, me entregou uma foto amarelada - com o Ary sem bigode -, publicada na revista O Cruzeiro, de 1963.Perguntei-lhe se tinha perdido a oportunidade de também gozar o famoso desertor. Ao seu jeito discreto, ele confessou lhe ter apenas cochichado: "Ary, disfarça e chora".
Este post e baseado em um texto do livro “Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
terça-feira, 15 de junho de 2010
Nelson Rodrigues, fundador do FFC
Tricolores,
Estou ciente de que o Fluminense Football Club foi fundado em 21 de julho de 1902, em reunião com vinte participantes, ocorrida na Rua Marquês de Abrantes, nº 51. A seguir, em 25 de julho, deu-se a eleição da Diretoria, que consagrou Oscar Cox, aos 22 anos de idade, como nosso primeiro Presidente.
Também estou informado de que Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Trata-se de evidente impossibilidade cronológica supor que Nelson Rodrigues estivesse reunido na Rua Marquês de Abrantes, com os vinte jovens que tiveram a ousadia e a clarividência histórica de fundar o Fluminense. Sem dúvida, seria essa a análise perfeita e irretocável de um idiota da objetividade. Em contraposição, defendo meu ponto essencial: para a alma tricolor, Nelson Rodrigues e Oscar Cox são parceiros e contemporâneos. Embora nascido a milhares de quilômetros de distância do Rio de Janeiro e dez anos após o ato de fundação, Nelson Rodrigues está legitimamente investido da condição de fundador, criador ou inventor do Fluminense.
Se Oscar Cox e os primeiros tricolores nos providenciaram indispensáveis elementos físicos - estatuto, sede, uniforme, bandeira etc.-, Nelson elaborou a metafísica que esclarece a essência e expressa a magia de ser tricolor. Para ele, mais do que fundamentos técnicos ou esquemas táticos, a sustentação do futebol está na epopéia que incendeia paixões, cria mitos, heróis, glórias e tragédias. Como esclareceu, "por tudo que o futebol tem de misterioso e de patético, a mais sórdida pelada de subúrbio é de uma complexidade shakespeareana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural." Sua conclusão é que, "no futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola". Permanente observador da alma humana, Nelson Rodrigues não subestimava a importância das fantasias na composição de nosso enigma existencial ou a importância dos mitos no complexo enredo das nações. Com essas convicções, se outorgou a missão de traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão popular brasileira do século XX: o futebol.
Em especial, dedicou-se à Seleção Brasileira – a pátria de chuteiras -, lutando para expurgar-lhe o complexo de vira-latas, que nos impunha derrotas prévias ao apito inicial. Ainda com maior paixão, dedicou-se ao Fluminense, do qual cada partida continha uma revelação mágica e cada craque ou perna-de-pau era um ser mitológico. Morto em dezembro de 1980, seu nome e sua obra têm a atualidade e a concretude de uma presença física. Mesmo para jovens tricolores que jamais o conheceram, Nelson Rodrigues existe, vive!
A crônica esportiva surgiu para Nelson já na maturidade. Na segunda metade da década de 1950, consagrado como dramaturgo e escritor, ele começou a redigir textos semanais para a revista Manchete Esportiva. A partir de 1960, iniciou uma participação na Grande Resenha Esportiva Facit, programa esportivo da TV Rio. Em 1966, se mudou para a TV Globo e, no programa Noite de Gala, apresentava o quadro A Cabra Vadia, no qual entrevistava personalidades do futebol. Nessa época, a TV Globo era a última colocada em audiência, o cenário de terreno baldio fazia juz ao nome, a voz lenta e a dicção de Nelson não atendiam às necessidades da televisão. Surpreendentemente, a repercussão foi imensa: nas esquinas e nos botecos, citava-se com familiaridade seus deliciosos personagens, bordões e frases de efeito. No final de 1967, ele voltou a escrever no jornal O Globo e passou a publicar as crônicas À Sombra das Chuteiras Imortais, que lhe ajudaram a consolidar a obra futebolística.
Seduzidos por Nelson, tenho a impressão de que muitos escolheram torcer pelo Fluminense. Mas estou seguro de que – mesmo sem ser possível aumentar em nada a nossa paixão -, todos nos tornamos mais tricolores, porque as palavras do Profeta ampliaram esse significado. Com Nelson, o Fluminense extrapolou as quatro linhas do gramado, saltou os muros das Laranjeiras, transpôs as fronteiras geográficas do Rio de Janeiro e do Brasil e os próprios limites de nossa frágil e transitória existência terrena. Nelson tornou possível ser tricolor para além da vida e da morte.
É só.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Estou ciente de que o Fluminense Football Club foi fundado em 21 de julho de 1902, em reunião com vinte participantes, ocorrida na Rua Marquês de Abrantes, nº 51. A seguir, em 25 de julho, deu-se a eleição da Diretoria, que consagrou Oscar Cox, aos 22 anos de idade, como nosso primeiro Presidente.
Também estou informado de que Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Trata-se de evidente impossibilidade cronológica supor que Nelson Rodrigues estivesse reunido na Rua Marquês de Abrantes, com os vinte jovens que tiveram a ousadia e a clarividência histórica de fundar o Fluminense. Sem dúvida, seria essa a análise perfeita e irretocável de um idiota da objetividade. Em contraposição, defendo meu ponto essencial: para a alma tricolor, Nelson Rodrigues e Oscar Cox são parceiros e contemporâneos. Embora nascido a milhares de quilômetros de distância do Rio de Janeiro e dez anos após o ato de fundação, Nelson Rodrigues está legitimamente investido da condição de fundador, criador ou inventor do Fluminense.
Se Oscar Cox e os primeiros tricolores nos providenciaram indispensáveis elementos físicos - estatuto, sede, uniforme, bandeira etc.-, Nelson elaborou a metafísica que esclarece a essência e expressa a magia de ser tricolor. Para ele, mais do que fundamentos técnicos ou esquemas táticos, a sustentação do futebol está na epopéia que incendeia paixões, cria mitos, heróis, glórias e tragédias. Como esclareceu, "por tudo que o futebol tem de misterioso e de patético, a mais sórdida pelada de subúrbio é de uma complexidade shakespeareana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural." Sua conclusão é que, "no futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola". Permanente observador da alma humana, Nelson Rodrigues não subestimava a importância das fantasias na composição de nosso enigma existencial ou a importância dos mitos no complexo enredo das nações. Com essas convicções, se outorgou a missão de traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão popular brasileira do século XX: o futebol.
Em especial, dedicou-se à Seleção Brasileira – a pátria de chuteiras -, lutando para expurgar-lhe o complexo de vira-latas, que nos impunha derrotas prévias ao apito inicial. Ainda com maior paixão, dedicou-se ao Fluminense, do qual cada partida continha uma revelação mágica e cada craque ou perna-de-pau era um ser mitológico. Morto em dezembro de 1980, seu nome e sua obra têm a atualidade e a concretude de uma presença física. Mesmo para jovens tricolores que jamais o conheceram, Nelson Rodrigues existe, vive!
A crônica esportiva surgiu para Nelson já na maturidade. Na segunda metade da década de 1950, consagrado como dramaturgo e escritor, ele começou a redigir textos semanais para a revista Manchete Esportiva. A partir de 1960, iniciou uma participação na Grande Resenha Esportiva Facit, programa esportivo da TV Rio. Em 1966, se mudou para a TV Globo e, no programa Noite de Gala, apresentava o quadro A Cabra Vadia, no qual entrevistava personalidades do futebol. Nessa época, a TV Globo era a última colocada em audiência, o cenário de terreno baldio fazia juz ao nome, a voz lenta e a dicção de Nelson não atendiam às necessidades da televisão. Surpreendentemente, a repercussão foi imensa: nas esquinas e nos botecos, citava-se com familiaridade seus deliciosos personagens, bordões e frases de efeito. No final de 1967, ele voltou a escrever no jornal O Globo e passou a publicar as crônicas À Sombra das Chuteiras Imortais, que lhe ajudaram a consolidar a obra futebolística.
Seduzidos por Nelson, tenho a impressão de que muitos escolheram torcer pelo Fluminense. Mas estou seguro de que – mesmo sem ser possível aumentar em nada a nossa paixão -, todos nos tornamos mais tricolores, porque as palavras do Profeta ampliaram esse significado. Com Nelson, o Fluminense extrapolou as quatro linhas do gramado, saltou os muros das Laranjeiras, transpôs as fronteiras geográficas do Rio de Janeiro e do Brasil e os próprios limites de nossa frágil e transitória existência terrena. Nelson tornou possível ser tricolor para além da vida e da morte.
É só.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
A Questão da Hegemonia
Tricolores,
Como sabem, em qualquer ambiente, um grupo de brasileiros discutindo futebol não consegue passar despercebido. Imaginem o que ocorre neste sítio paradisíaco em que meus amigos e eu nos encontramos para tratar dos memoráveis episódios da Mitologia Tricolor. Volta e meia, atraímos alguns curiosos, às vezes, por um simples mau entendido. Outro dia, comemorávamos o aniversário de oito anos da chegada do Mario Lago. Podem imaginar? Angenor ao violão, Antonio Carlos ao piano, o próprio Mario cantando seus grandes sucessos e, desfraldada por trás do grupo, a bandeira do Fluminense. Confundido por nossas três cores, um italianinho se aproximou para ver do que se tratava.
Antonio, era o seu nome. Baixinho, oclinhos redondo, nos disse ser natural da Sardenha e ter chegado aqui em 1937. Declarou-se torcedor do Cagliari e, apesar do tipo físico, alegou ter sido um ótimo extrema esquerda. Minto, meia esquerda. Segundo nos contou, sempre teve preocupação com os aspectos estratégicos do jogo e esclareceu alguns pontos do seu pensamento: “Nada de ataques frontais a defesas retrancadas. Tem que ‘comer o mingau quente pelas beiradas’, atacar pelas laterais e, progressivamente, infiltrar gente do seu quadro na área adversária”. Embora tenha ficado preso a uma instituição por dez anos, sua forma de atuar veio a ter grande influência na Europa.
Antonio ficou muito impressionado com tudo que lhe contamos sobre a trajetória do Fluminense, com os feitos de nossos heróis e, sobretudo, com o fato de os grandes momentos da nossa história sempre coincidirem com períodos de transformação e de progresso do Rio de Janeiro (ou do Distrito Federal) e da sociedade carioca. Como é natural, nos queixamos dos últimos 15 anos e de suas más consequências. O italianinho a tudo ouviu atentamente e, por fim, opinou: “Aparentemente, vocês têm vários problemas mas, a meu ver, todos eles se resumem a um só: mudança de mentalidade. O Fluminense”, disse, “me parece um vasto projeto cultural, no qual o futebol desempenha um papel fundamental. Então, a política do clube não pode ficar restrita a seus muros. Os tricolores precisam ocupar posições estratégicas e influir na formação das opiniões. Ganhar títulos em maior número é uma consequência, a verdadeira hegemonia se conquista fora de campo”.
E prosseguiu: “Uma boa gestão dos interesses do clube não se restringe às questões internas, é preciso atuar na sociedade, infuenciar o modo de ver as coisas. O poder se exerce pela força e pela capacidade de convencimento. Funciona assim: alguém pratica uma irregularidade ou inventa uma fantasia sem apoio nos fatos, a seguir, todos (aparentemente) concordam, elogiam. Quem denunciar estará errado, será tachado de “chorão”, mau perdedor etc.”.
Por longas horas conversamos com Antonio, o italiano. Ouvimos diversos pontos de vista interessantes e alguns surpreendentes. Em certo momento, ele afirmou que “todos os homens são intelectuais”, o que fez o Adionson sorrir, pigarrear e esboçar uma intervenção, mas o olhar severo do Stanislaw o deteve. Por fim, informamos ao inesperado parceiro que, no momento, as esperanças e sobressaltos eram ainda maiores, pois nosso clube se encontra em pleno ano eleitoral. Ele sorriu e finalizou a conversa: “Ah, já entendi. A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer."
Como sabem, em qualquer ambiente, um grupo de brasileiros discutindo futebol não consegue passar despercebido. Imaginem o que ocorre neste sítio paradisíaco em que meus amigos e eu nos encontramos para tratar dos memoráveis episódios da Mitologia Tricolor. Volta e meia, atraímos alguns curiosos, às vezes, por um simples mau entendido. Outro dia, comemorávamos o aniversário de oito anos da chegada do Mario Lago. Podem imaginar? Angenor ao violão, Antonio Carlos ao piano, o próprio Mario cantando seus grandes sucessos e, desfraldada por trás do grupo, a bandeira do Fluminense. Confundido por nossas três cores, um italianinho se aproximou para ver do que se tratava.
Antonio, era o seu nome. Baixinho, oclinhos redondo, nos disse ser natural da Sardenha e ter chegado aqui em 1937. Declarou-se torcedor do Cagliari e, apesar do tipo físico, alegou ter sido um ótimo extrema esquerda. Minto, meia esquerda. Segundo nos contou, sempre teve preocupação com os aspectos estratégicos do jogo e esclareceu alguns pontos do seu pensamento: “Nada de ataques frontais a defesas retrancadas. Tem que ‘comer o mingau quente pelas beiradas’, atacar pelas laterais e, progressivamente, infiltrar gente do seu quadro na área adversária”. Embora tenha ficado preso a uma instituição por dez anos, sua forma de atuar veio a ter grande influência na Europa.
Antonio ficou muito impressionado com tudo que lhe contamos sobre a trajetória do Fluminense, com os feitos de nossos heróis e, sobretudo, com o fato de os grandes momentos da nossa história sempre coincidirem com períodos de transformação e de progresso do Rio de Janeiro (ou do Distrito Federal) e da sociedade carioca. Como é natural, nos queixamos dos últimos 15 anos e de suas más consequências. O italianinho a tudo ouviu atentamente e, por fim, opinou: “Aparentemente, vocês têm vários problemas mas, a meu ver, todos eles se resumem a um só: mudança de mentalidade. O Fluminense”, disse, “me parece um vasto projeto cultural, no qual o futebol desempenha um papel fundamental. Então, a política do clube não pode ficar restrita a seus muros. Os tricolores precisam ocupar posições estratégicas e influir na formação das opiniões. Ganhar títulos em maior número é uma consequência, a verdadeira hegemonia se conquista fora de campo”.
E prosseguiu: “Uma boa gestão dos interesses do clube não se restringe às questões internas, é preciso atuar na sociedade, infuenciar o modo de ver as coisas. O poder se exerce pela força e pela capacidade de convencimento. Funciona assim: alguém pratica uma irregularidade ou inventa uma fantasia sem apoio nos fatos, a seguir, todos (aparentemente) concordam, elogiam. Quem denunciar estará errado, será tachado de “chorão”, mau perdedor etc.”.
Por longas horas conversamos com Antonio, o italiano. Ouvimos diversos pontos de vista interessantes e alguns surpreendentes. Em certo momento, ele afirmou que “todos os homens são intelectuais”, o que fez o Adionson sorrir, pigarrear e esboçar uma intervenção, mas o olhar severo do Stanislaw o deteve. Por fim, informamos ao inesperado parceiro que, no momento, as esperanças e sobressaltos eram ainda maiores, pois nosso clube se encontra em pleno ano eleitoral. Ele sorriu e finalizou a conversa: “Ah, já entendi. A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer."
terça-feira, 8 de junho de 2010
O Último Grande Goleiro Tricolor
Tricolores,
Uma das repercussões mais frequentes e constrangedoras da aterosclerose sobre a mente humana é a dificuldade em dispor da memória recente. O sujeito é capaz de lembrar da roupa com a qual foi batizado ou do paladar da primeira mamadeira, mas não há como estar seguro se tomou o café da manhã. Esse alarmante quadro clínico se refere a uma discussão do meu grupo sobre a safra mais recente de arqueiros tricolores e à convicção de que o último grande nome terá sido o goleiro do tricampeonato da década de 80, Paulo Victor. Em meio à conversa, surgiram as seguintes questões: “Como o Fluminense descobriu Paulo Victor?”; “Como foi sua trajetória inicial no clube?”. A realidade é que não sabíamos, ou não lembrávamos – o que dava no mesmo. Nossa perplexidade foi resolvida pelo Adionson, o componente mais novo da turma, que orgulhosamente se prontificou a nos minimizar o vexame.
No final de 1980, após conquistarmos o título estadual, houve um jogo amistoso entre as seleções de juniores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na preliminar do clássico local Desportiva Ferroviária e Rio Branco. Na ponta-esquerda da nossa seleção estava o Paulinho (Carioca), que viria a fazer o gol de falta do título de 1985. Na delegação, seu tio e funcionário do Fluminense, Roberto Alvarenga, cuja presença tinha um caráter mais relevante do que simplesmente acompanhar o sobrinho: avaliar um promissor meia-esquerda do Desportiva Ferroviária, Geovani. Como se sabe, o objetivo inicial não foi bem sucedido, pois o jogador acabou se transferindo para o Vasco da Gama, mas o experiente Roberto Alvarenga voltou encantado com a atuação do goleiro da preliminar.
Dessa forma, em 1981, Paulo Victor cruzava os portões de Álvaro Chaves. Seu carisma pessoal e o imenso potencial técnico, amadurecido sob a orientação do Prof. João Carlos Travassos, viriam a transformá-lo em digno herdeiro da camisa número 1 e ídolo da torcida tricolor. No entanto, seu início no clube foi bastante difícil, pois passou quase um ano na reserva de Paulo Goulart. Não bastasse a longa espera, sua estréia - no Campeonato Brasileiro de 1982, contra a Portuguesa de Desportos –, envolveu-o em um episódio que poderia lhe marcar a carreira de forma negativa.
As intensas chuvas daquele dia deixaram o gramado do Estádio do Canindé cheio de poças, e uma delas deteve uma bola que, normalmente, sairia pela linha de fundos. Certo desse destino, Paulo Victor apenas acompanhava sua trajetória, de costas para o campo. Um atacante adversário antecipou-se e marcou um gol de difícil justificativa. No entanto, qualquer temor da torcida se desfez a partir da estréia no Maracanã, quando tivemos a clara demonstração dele já haver caído nas graças de nosso santo protetor. No jogo contra o Campinense tivemos duas bolas na trave e um pênalti chutado para fora. Não havia dúvida: São Castilho o abençoara.
A sucessão de atuações seguras, o tricampeonato estadual e o título nacional o levaram, com naturalidade, a ser convocado por Telê Santana para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1986. No ano seguinte, a grande decepção: um desentendimento com o treinador da Seleção Pré-Olímpica, Carlos Alberto Silva, inviabilizou sua permanência entre os convocados.
Entre as tantas alegrias proporcionadas por Paulo Victor, resolvemos registrar apenas uma, escolhida por consenso. O cenário é o seguinte: 1988, Fla- Flu do 1º. turno, 1 x 0 (gol do nosso lateral-direito, Cacau), fim de jogo, pênalti contra nós. A torcida rubro-negra se concentra atrás da baliza, acende uma cascata de fogos de artifício e faz um alarde ensurdecedor. Nosso goleiro demonstra uma concentração imperturbável, como se o estádio estivesse vazio, como se naquele momento só existissem ele, a bola e o cobrador. Andrade chuta forte, rasteiro, no canto esquerdo, Paulo Victor espalma para escanteio e, antes que se faça a cobrança, acena para a torcida adversária, como se agradecesse a comemoração antecipada da grande defesa.
Felizmente, tivemos a oportunidade de lhe reconhecer os bons serviços e oferecer uma consagração que raros ídolos mereceram. Em 1994, no final da carreira, Paulo Victor jogava pelo Volta Redonda e precisou enfrentar o Fluminense. Em declaração ao jornal Lance, ele mesmo revela o ocorrido: “Implorei para não jogar, não aguentaria. Mas fui obrigado e lá fui eu. Laranjeiras lotada. Pênalti para o Fluminense. Eu não sabia mais o que fazer. O Ézio bateu e eu defendi. Achei que seria linchado, mas ouvi o estádio inteiro gritando: “É Paulo Victor! É Paulo Victor!”.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Uma das repercussões mais frequentes e constrangedoras da aterosclerose sobre a mente humana é a dificuldade em dispor da memória recente. O sujeito é capaz de lembrar da roupa com a qual foi batizado ou do paladar da primeira mamadeira, mas não há como estar seguro se tomou o café da manhã. Esse alarmante quadro clínico se refere a uma discussão do meu grupo sobre a safra mais recente de arqueiros tricolores e à convicção de que o último grande nome terá sido o goleiro do tricampeonato da década de 80, Paulo Victor. Em meio à conversa, surgiram as seguintes questões: “Como o Fluminense descobriu Paulo Victor?”; “Como foi sua trajetória inicial no clube?”. A realidade é que não sabíamos, ou não lembrávamos – o que dava no mesmo. Nossa perplexidade foi resolvida pelo Adionson, o componente mais novo da turma, que orgulhosamente se prontificou a nos minimizar o vexame.
No final de 1980, após conquistarmos o título estadual, houve um jogo amistoso entre as seleções de juniores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na preliminar do clássico local Desportiva Ferroviária e Rio Branco. Na ponta-esquerda da nossa seleção estava o Paulinho (Carioca), que viria a fazer o gol de falta do título de 1985. Na delegação, seu tio e funcionário do Fluminense, Roberto Alvarenga, cuja presença tinha um caráter mais relevante do que simplesmente acompanhar o sobrinho: avaliar um promissor meia-esquerda do Desportiva Ferroviária, Geovani. Como se sabe, o objetivo inicial não foi bem sucedido, pois o jogador acabou se transferindo para o Vasco da Gama, mas o experiente Roberto Alvarenga voltou encantado com a atuação do goleiro da preliminar.
Dessa forma, em 1981, Paulo Victor cruzava os portões de Álvaro Chaves. Seu carisma pessoal e o imenso potencial técnico, amadurecido sob a orientação do Prof. João Carlos Travassos, viriam a transformá-lo em digno herdeiro da camisa número 1 e ídolo da torcida tricolor. No entanto, seu início no clube foi bastante difícil, pois passou quase um ano na reserva de Paulo Goulart. Não bastasse a longa espera, sua estréia - no Campeonato Brasileiro de 1982, contra a Portuguesa de Desportos –, envolveu-o em um episódio que poderia lhe marcar a carreira de forma negativa.
As intensas chuvas daquele dia deixaram o gramado do Estádio do Canindé cheio de poças, e uma delas deteve uma bola que, normalmente, sairia pela linha de fundos. Certo desse destino, Paulo Victor apenas acompanhava sua trajetória, de costas para o campo. Um atacante adversário antecipou-se e marcou um gol de difícil justificativa. No entanto, qualquer temor da torcida se desfez a partir da estréia no Maracanã, quando tivemos a clara demonstração dele já haver caído nas graças de nosso santo protetor. No jogo contra o Campinense tivemos duas bolas na trave e um pênalti chutado para fora. Não havia dúvida: São Castilho o abençoara.
A sucessão de atuações seguras, o tricampeonato estadual e o título nacional o levaram, com naturalidade, a ser convocado por Telê Santana para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1986. No ano seguinte, a grande decepção: um desentendimento com o treinador da Seleção Pré-Olímpica, Carlos Alberto Silva, inviabilizou sua permanência entre os convocados.
Entre as tantas alegrias proporcionadas por Paulo Victor, resolvemos registrar apenas uma, escolhida por consenso. O cenário é o seguinte: 1988, Fla- Flu do 1º. turno, 1 x 0 (gol do nosso lateral-direito, Cacau), fim de jogo, pênalti contra nós. A torcida rubro-negra se concentra atrás da baliza, acende uma cascata de fogos de artifício e faz um alarde ensurdecedor. Nosso goleiro demonstra uma concentração imperturbável, como se o estádio estivesse vazio, como se naquele momento só existissem ele, a bola e o cobrador. Andrade chuta forte, rasteiro, no canto esquerdo, Paulo Victor espalma para escanteio e, antes que se faça a cobrança, acena para a torcida adversária, como se agradecesse a comemoração antecipada da grande defesa.
Felizmente, tivemos a oportunidade de lhe reconhecer os bons serviços e oferecer uma consagração que raros ídolos mereceram. Em 1994, no final da carreira, Paulo Victor jogava pelo Volta Redonda e precisou enfrentar o Fluminense. Em declaração ao jornal Lance, ele mesmo revela o ocorrido: “Implorei para não jogar, não aguentaria. Mas fui obrigado e lá fui eu. Laranjeiras lotada. Pênalti para o Fluminense. Eu não sabia mais o que fazer. O Ézio bateu e eu defendi. Achei que seria linchado, mas ouvi o estádio inteiro gritando: “É Paulo Victor! É Paulo Victor!”.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
sábado, 5 de junho de 2010
Mario....que Mario?

Tricolores,
Não sei se estão todos a par de uma das tantas frases do Adionson (antigo parceiro e neo-repórter aqui do grupo) sobre a vocação tricolor para todas as vitórias: "O Fluminense nunca perde: ganha, empata ou é roubado". Mesmo consideradas as generosas doses de paixão e parcialidade da declaração, as rodadas iniciais do atual Campeonato Brasileiro têm dado repetidas demonstrações da tese do meu controvertido amigo.
No domingo passado, após a brilhante virada em Belo Horizonte, João Paulo e eu nosdemoramos a comentar as conveniências de uma arbitragem isenta, a enumerar os "erros" e as "infelicidades" de árbitros e assistentes, notórios e reincidentes, e acabamos por chegar um pouco atrasados à reunião do nosso grupo tricolor.
Encontramos o ambiente em total animação. A conversa dos amigos oscilava entre a escolha do repertório (a cargo do Angenor), aspectos da decoração, a conveniência de incluir algum discurso ou saudação (o Stanislaw considerava uma chatice) etc. Tratava-se claramente da organização de uma festa, mas não percebíamos porque ou para quem, quando o Antonio Carlos explicou: "Hoje é dia 30 de maio, é o aniversário de oito anos da chegada do Mario!". Em sua santa ingenuidade, o João Paulo deixou escapar a pergunta descuidada: "Mario... que Mario?". "O Mario da Amélia", esclareceu com educação o próprio Antonio Carlos.
De fato, vejam que distração, em 2002, aqui chegava o Mario Lago: advogado, compositor, escritor, poeta, teatrólogo, radialista, ator e, evidentemente, torcedor do Fluminense. Se me permitem, vou resumir o que os amigos comentaram sobre este grande tricolor.
Mario nasceu em 1911, filho único de um maestro e neto de músicos. Por influência do avô materno, começou a frequentar os chopes da Lapa , onde conheceu a vida cultural da época. Talvez por isso, tenha abandonado o projeto de se tornar pianista clássico, em troca da música popular e da vida boêmia. "A Lapa foi o chão de todos os meus passos. Na busca de caminhos e no encontro de atalhos... Conheci-a em muitas relidades e em diversos tempos", declarou certa vez. Mário foi sempre um amante das letras e começou sua vida artistica na poesia, com o primeiro poema publicado aos 15 anos. Chegou a se graduar em Direito, mas a música o levou para o ambiente do teatro.
Como radialista trabalhou em várias emissoras e foi responsável por muitos programas e novelas. Suas composições - como a marcha carnavalesca "Aurora" e os sambas "Fracasso", "Ai, que saudades da Amélia" e "Atire a primeira pedra" – consolidaram uma imensa popularidade. Em 1964, foi um dos primeiros nomes da lista de perseguidos pela ditadura militar, sendo cassado e afastado de suas funções na Rádio Nacional. Na televisão, começou na TV Rio, com o programa "Câmera-Um". Em 1966, foi contratado pela TV Globo, onde atuou em dezenas de novelas. Participou de vários filmes e publicou cinco livros. Gilberto Gil lhe dedicou a música "O mar e o lago" e a escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz o homenageou no carnaval de 2001.
Aos 90 anos de idade, na última entrevista ao Jornal do Brasil, Mário Lago revelou estar escrevendo uma autobiografia, e se mostrava confiante em atingir a marca centenária. "Fiz um acordo com o tempo", explicou, "nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra". De modo traiçoeiro, um enfisema pulmonar intrometeu-se neste pacto, promovendo o encontro indesejado e interrompendo sua brilhante e produtiva trajetória. Mario Lago foi a perfeita tradução do que significa a expressão "elite tricolor": boêmio e trabalhador, gentil e combativo, sedutor e ético, elegante e com forte identidade popular. Quando chegou o momento da derradeira viagem, familiares, amigos e incontáveis fãs acorreram ao Teatro João Caetano para se despedir e cantar seus grandes sucessos, acompanhados pela Velha Guarda da Mangueira. Autoridades, partidos políticos e movimentos sociais apresentaram diferentes pavilhões em sua homenagem. Com maior destaque entre todos, Mario Lago partiu envolto na gloriosa bandeira do Fluminense Football Club.
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