sexta-feira, 7 de maio de 2010
Meu tipo inesquecível
Tricolores,
Aqueles que nos dão a honra de desperdiçar seu precioso tempo com a leitura das lembranças e obsessões deste bando de tricolores desencarnados já terão ciência de que, há pouco tempo, nosso amigo Adionson se investiu da condição de repórter. Que até o momento ainda não lhe tenham processado, só a nossa condição sobrenatural pode explicar. Esta semana, surgiu nova polêmica sobre o assunto, quando o Stanislaw se pôs a criticar um personagem a quem denomina "Alberto Roberto Prado". Atribuía-lhe qualidades pouco lisonjeiras, quando o João Paulo, em sua santa inocência, ponderou que várias de suas revelações acabavam por se confirmar. "É claro", retrucou Stan, "escrevendo e falando em veículos tão poderosos, ele tem a capacidade de induzir a ocorrência de alguns fatos. Se der certo, é um furo; se der errado, ele não toca mais no assunto e ninguém se atreve a lhe cobrar uma explicação". Os ânimos andavam meio exaltados quando o Adionson pediu a palavra para nos revelar o alvo maior de sua admiração, o seu tipo inesquecível na crônica esportiva carioca: Isaac Amar. O nome nos pareceu estranho, mas meu amigo defendeu-o com entusiasmo e resolveu nos apresentar melhor o seu ídolo. Vou tentar resumir.
Médico obstetra e professor da Escola de Medicina e Cirurgia, Isaac José Amar - por amor ao futebol e, particularmente, ao Fluminense -, associava a estas atividades uma participação regular no jornal "O Radical". Quando o panorama esportivo lhe parecia monótono ou pelo simples prazer de gozar nossos adversários, Isaac não hesitava: inventava uma bomba. Por exemplo, pelos idos de 1936, dois jogadores de muito prestígio no futebol carioca eram o goleiro Batatais e o ponta-esquerda Hércules, grandes ídolos da torcida tricolor. No dia 31 de março, no fechamento da edição do dia seguinte, não havia na redação uma única nota interessante. Isaac Amar resolveu o problema com a seguinte manchete: "Batatais e Hércules raptados!". Naquele ano havia uma cisão no futebol carioca e a nota de Isaac insinuava que os autores do sensacional rapto teriam sido agentes do Vasco da Gama. A cidade pegou fogo e durante algumas horas o ambiente esportivo se tranformou em caos absoluto. Na edição seguinte, veio o esclarecimento: 1º. de abril!
Em 1937, Isaac aprontou outra peça com consequências ainda mais profundas e duradouras. Em certa noite chuvosa, o Andaraí aguardava pelo Vasco, no campo do Fluminense, mas o time de São Januário se atrasou exageradamente. O juiz considerava a hipótese da vitória por W.O., mas o Andaraí julgou tratar-se de uma indelicadeza e permaneceu à espera do adversário. Resultado: o Vasco chegou e venceu por 12 x 0. Isaac considerou o placar de extremo mau gosto e vingou os derrotados alardeando a informação de que o ponta-esquerda Arubinha enterrara um sapo no gramado de São Januário. A falsa notícia talvez não tivesse maior consequência se a equipe vascaína, então líder e favorita do campeonato, não iniciasse uma série de derrotas coroadas com a perda do título.
Satisfeito com o inesperado sucesso de sua ficção, Issac Amar providenciou os requintes de crueldade. Para começar, descreveu a cena: após a goleada humilhante, Arubinha se ajoelhara no gramado encharcado de Álvaro Chaves, juntara as mãos e, olhos pregados na escuridão, apelara ao Todo Poderoso: "Se há um Deus no céu, o Vasco vai passar 12 anos sem ser campeão". Dias depois do dramático apelo aos céus, entrara incógnito em São Januário e enterrara o sinistro despacho. Os novos detalhes alarmaram ainda mais a torcida cruzmaltina e Isaac acrescentava elementos de suspense: a praga contaria a partir de 1934 - último título oficial do Vasco -, de 1936 – quando o time fora campeão fora da Liga Carioca - ou de 1937, quando o episódio ocorrera? Pânico total: a diretoria mandou escavar vários pontos do gramado, a colônia portuguesa ofereceu dinheiro para que Arubinha desenterrase o sapo, mas o assustado ponta-esquerda alegava não poder desfazer o que não havia feito. Aliás, considerava a si mesmo a principal vítima da confusão, já que em represália o português da venda lhe cortara o fiado. Em resumo, Isaac Amar fez esta história render até 1945, quando finalmente o Vasco voltou a ser campeão.
Adionson terminou seu relato entusiasmado: "Que criatividade, que gozador!". Às gargalhadas, tivemos que admitir os méritos do Isaac e a ingenuidade daqueles tempos. As mentiras de hoje são bem maiores e tão bem orquestradas que, mesmo desafiando qualquer tipo de lógica, acabam por adquirir status de verdade.
Aqueles que nos dão a honra de desperdiçar seu precioso tempo com a leitura das lembranças e obsessões deste bando de tricolores desencarnados já terão ciência de que, há pouco tempo, nosso amigo Adionson se investiu da condição de repórter. Que até o momento ainda não lhe tenham processado, só a nossa condição sobrenatural pode explicar. Esta semana, surgiu nova polêmica sobre o assunto, quando o Stanislaw se pôs a criticar um personagem a quem denomina "Alberto Roberto Prado". Atribuía-lhe qualidades pouco lisonjeiras, quando o João Paulo, em sua santa inocência, ponderou que várias de suas revelações acabavam por se confirmar. "É claro", retrucou Stan, "escrevendo e falando em veículos tão poderosos, ele tem a capacidade de induzir a ocorrência de alguns fatos. Se der certo, é um furo; se der errado, ele não toca mais no assunto e ninguém se atreve a lhe cobrar uma explicação". Os ânimos andavam meio exaltados quando o Adionson pediu a palavra para nos revelar o alvo maior de sua admiração, o seu tipo inesquecível na crônica esportiva carioca: Isaac Amar. O nome nos pareceu estranho, mas meu amigo defendeu-o com entusiasmo e resolveu nos apresentar melhor o seu ídolo. Vou tentar resumir.
Médico obstetra e professor da Escola de Medicina e Cirurgia, Isaac José Amar - por amor ao futebol e, particularmente, ao Fluminense -, associava a estas atividades uma participação regular no jornal "O Radical". Quando o panorama esportivo lhe parecia monótono ou pelo simples prazer de gozar nossos adversários, Isaac não hesitava: inventava uma bomba. Por exemplo, pelos idos de 1936, dois jogadores de muito prestígio no futebol carioca eram o goleiro Batatais e o ponta-esquerda Hércules, grandes ídolos da torcida tricolor. No dia 31 de março, no fechamento da edição do dia seguinte, não havia na redação uma única nota interessante. Isaac Amar resolveu o problema com a seguinte manchete: "Batatais e Hércules raptados!". Naquele ano havia uma cisão no futebol carioca e a nota de Isaac insinuava que os autores do sensacional rapto teriam sido agentes do Vasco da Gama. A cidade pegou fogo e durante algumas horas o ambiente esportivo se tranformou em caos absoluto. Na edição seguinte, veio o esclarecimento: 1º. de abril!
Em 1937, Isaac aprontou outra peça com consequências ainda mais profundas e duradouras. Em certa noite chuvosa, o Andaraí aguardava pelo Vasco, no campo do Fluminense, mas o time de São Januário se atrasou exageradamente. O juiz considerava a hipótese da vitória por W.O., mas o Andaraí julgou tratar-se de uma indelicadeza e permaneceu à espera do adversário. Resultado: o Vasco chegou e venceu por 12 x 0. Isaac considerou o placar de extremo mau gosto e vingou os derrotados alardeando a informação de que o ponta-esquerda Arubinha enterrara um sapo no gramado de São Januário. A falsa notícia talvez não tivesse maior consequência se a equipe vascaína, então líder e favorita do campeonato, não iniciasse uma série de derrotas coroadas com a perda do título.
Satisfeito com o inesperado sucesso de sua ficção, Issac Amar providenciou os requintes de crueldade. Para começar, descreveu a cena: após a goleada humilhante, Arubinha se ajoelhara no gramado encharcado de Álvaro Chaves, juntara as mãos e, olhos pregados na escuridão, apelara ao Todo Poderoso: "Se há um Deus no céu, o Vasco vai passar 12 anos sem ser campeão". Dias depois do dramático apelo aos céus, entrara incógnito em São Januário e enterrara o sinistro despacho. Os novos detalhes alarmaram ainda mais a torcida cruzmaltina e Isaac acrescentava elementos de suspense: a praga contaria a partir de 1934 - último título oficial do Vasco -, de 1936 – quando o time fora campeão fora da Liga Carioca - ou de 1937, quando o episódio ocorrera? Pânico total: a diretoria mandou escavar vários pontos do gramado, a colônia portuguesa ofereceu dinheiro para que Arubinha desenterrase o sapo, mas o assustado ponta-esquerda alegava não poder desfazer o que não havia feito. Aliás, considerava a si mesmo a principal vítima da confusão, já que em represália o português da venda lhe cortara o fiado. Em resumo, Isaac Amar fez esta história render até 1945, quando finalmente o Vasco voltou a ser campeão.
Adionson terminou seu relato entusiasmado: "Que criatividade, que gozador!". Às gargalhadas, tivemos que admitir os méritos do Isaac e a ingenuidade daqueles tempos. As mentiras de hoje são bem maiores e tão bem orquestradas que, mesmo desafiando qualquer tipo de lógica, acabam por adquirir status de verdade.
Comentários:
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Meu caro Fernando, obrigado pelo comentário.
Nosso "personal repórter" pediu para lhe dizer o seguinte:
"Os problemas do nosso clube não estão no subsolo, onde habitam os mortos. Nossos problemas são os vivos e, pior ainda, os muito vivos!".
Saudações Tricolores.
Nosso "personal repórter" pediu para lhe dizer o seguinte:
"Os problemas do nosso clube não estão no subsolo, onde habitam os mortos. Nossos problemas são os vivos e, pior ainda, os muito vivos!".
Saudações Tricolores.
Pois é, Vitor, e para os jogadores era muito cômodo justificar qualquer má atuação ou derrota: era culpa do sapo!
Você escreve muito bem, meu amigo. Deveria publicar mil livros com suas maravilhosas histórias sobre o nosso Fluminense e seus personagens imortais.
Saudações tricolores de um fã.
Saudações tricolores de um fã.
Caro JT, é a primeira vez que leio um texto seu e achei do carvalho. Eu não costuma pedir desculpas por trocadilhos...mas, por este...perdoa-me. Era inevitável!
Faço uma peregrinação diária na internet por notícias do Fluminense, na esperança de encontrar algum sinal de nossa salvação. Ela vira ronda quando as coisas estão como estão, tempos de contratações e grandes expectativas. Nos dias de vitória faço um tour por toda mídia em busca de mais prazer.
Há uns dias atrás descobri este quentíssimo site NETFLU, hoje descobri você. Vou incluí-lo nos meus passeios.
Saudações Tricolores, Altamiro
Faço uma peregrinação diária na internet por notícias do Fluminense, na esperança de encontrar algum sinal de nossa salvação. Ela vira ronda quando as coisas estão como estão, tempos de contratações e grandes expectativas. Nos dias de vitória faço um tour por toda mídia em busca de mais prazer.
Há uns dias atrás descobri este quentíssimo site NETFLU, hoje descobri você. Vou incluí-lo nos meus passeios.
Saudações Tricolores, Altamiro
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