sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os Canhões de Samarone

Tricolores,
O aniversário de 40 anos do nosso primeiro título nacional – a Taça de Prata - trouxe de volta às páginas da imprensa diversas figuras memoráveis. Entre tantos heróis tricolores, gostaria de chamar a atenção para o Sr. Wilson Gomes, o Samarone. Quero compartilhar a convicção de que uma nação não vive sem referenciais simbólicos e, portanto, esse universo mágico – misto de calções, chuteiras, suor e lágrimas – conhecido como Fluminense Football Club, é absolutamente dependente da defesa de seus valores fundamentais e da existência de certos personagens que condensam o ideal tricolor.

Um time pode viver do seu conjunto, do entrosamento, do acerto tático, mas o clube e a torcida não sobrevivem sem o ídolo. Digo isso, para falar do nosso Samarone. Na segunda metade da década de 60, o Samara foi uma figura fundamental, não apenas para a recuperação técnica do Fluminense, mas para manter coesa e motivada a nossa torcida. Samarone nasceu em Santos (SP), começou sua carreira na Portuguesa Santista, onde marcou o gol do título do Campeonato Paulista da 2ª Divisão de 1964.

Chegou ao Fluminense em 1965 e, apesar de ter transitado por alguns outros clubes, sempre se declarou um tricolor apaixonado. Sua experiência inicial foi difícil, o time era inexperiente, ele foi escalado fora de posição e tinha saudades de casa. Chegou a receber algumas vaias mas, com forte personalidade e confiança no seu futebol, declarou à Revista do Esporte no. 374: A torcida se enganou comigo. De fato, em breve, se tornou a liderança carismática do elenco. Com inteligência e malícia, Samarone dominava as ações de meio-de-campo, com técnica ou com catimba, o que se mostrasse mais útil no momento. Participou de 212 jogos e marcou 52 gols, conquistou os títulos cariocas de 1969 e 1971 e a Taça de Prata – o Campeonato Nacional da época - de 1970, quando foi homenageado com a Bola de Prata da Revista Placar.

Apesar de ter como principal característica a armação de jogadas para conclusão dos atacantes, também tinha um chute potente que deu origem a um de seus apelidos. Em alusão a um filme de sucesso de 1961, o locutor Waldyr Amaral criou Os Canhões de Samarone; pela fama de conquistador, Nelson Rodrigues o chamou Romeu da Praça Saens Peña e, as torcedoras, de Diabo Louro. Lamentavelmente, sua carreira foi prejudicada por três grandes obstáculos: duas hepatites, uma grave contusão nos ligamentos do joelho esquerdo e as idiossincrasias do Sr. Mario Jorge Lobo Zagallo.

Em 1971, com a chegada desse técnico ao Fluminense, Samarone se transferiu para o Corinthians e, a seguir, para o clube de regatas da Gávea. (Detalhe para a história: o Galinho era camisa 9 e Samara o camisa 10). Pouco depois, o mesmo treinador chegou ao clube, e ele foi emprestado à Portuguesa de Desportos. Nascido em família de classe média, formado em Engenharia Civil, Samarone – embora extremamente habilidoso para fugir da perseguição dos adversários - cansou-se de fazê-lo fora dos gramados e decidiu não engolir mais nada: abandonou a carreira e foi cuidar da vida no Paraná.

Este post é baseado em um texto do livro “Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu, em 2009.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Futebol não tem lógica

Tricolores,

O Stanislaw, um amigo aqui da nossa turma, é jornalista, escritor, humorista, compositor e showman, além de um mulherólogo muito respeitado na praça. É um completo apaixonado por futebol – de campo, salão, soçaite, areia ou botão – e, na juventude, foi goleiro de um time de Copacabana, treinado pelo lendário Neném Prancha. Sua paixão acabou virando trabalho, e ele escreveu um antológico livro de crônicas sobre a Copa de 1962: "Bola na rede: a batalha do bi". Quem o trouxe para o grupo foi o Angenor, que o conheceu em um momento difícil. Imaginem que o grande sambista entrara num desvio, numa fase negra da vida e lavava carros na Zona Sul do Rio. Stanislaw o reconheceu e, de imediato, estendeu a mão para a gloriosa volta por cima.

Frasista irreverente, bem ao gosto popular, Stanislaw nos surpreende pela visão original de fatos triviais e a forma criativa como a expressa. Sobre um certo técnico do futebol mineiro, habituado a dar explicações complicadas, ao fim das quais se exime de qualquer responsabilidade pelos maus resultados do seu time, ele é implacável: "É desses que cruzam cabra com periscópio, pra ver se arrumam um bode expiatório". Demoro-me a falar do amigo, porque justamente uma de suas frases originou prolongada conversa aqui no grupo.

Explico: lamentávamos alguns vacilos recentes do Fluminense, ao perder pontos para times de pouca expressão, mal situados na tabela, quando pensei dar uma justificativa para todos esses episódios, relacionando-os à reconhecida falta de lógica do futebol. Stanislaw discordou e foi veemente: "Quem diz que futebol não tem lógica, não entende de futebol ou não sabe o que é lógica". Diante de afirmação tão categórica, nos calamos para ouvir os argumentos do amigo. Em síntese, ele nos disse o seguinte.

O futebol não tem lógica... tem lógicas, que se cruzam e se complementam. Existe a lógica clássica, representada pelo conjunto das dezessete regras. É fácil entender, porque não há meio termo: é falta ou não é; é gol ou não é. Como sabemos, esse simplismo não sustenta a realidade cotidiana dos nossos clássicos e peladas. A regra é clara, claríssima, mas a sua aplicação depende da interpretação de um sujeito, o árbitro, criando um outro tipo de lógica, que transcende a anterior. Mas a existência das regras e do juiz são apenas pré-condições para o futebol, porque nada disso expressa o essencial: o jogo, os dois times que lutam para predominar sobre o outro. Do embate entre os dois adversários, da relativização das ações, virtudes e limitações de um pelo outro, surge uma outra lógica.

Essas três lógicas são ainda desafiadas pela ocorrência de fatores aleatórios, de natureza física, emocional ou cultural. Essa quarta lógica envolve tudo o que há no futebol de imprevisível e irracional, em suma, as interferências do Gravatinha ou do Sobrenatural de Almeida, como bem sintetizou o Profeta Tricolor. Essa costuma ser a lógica de muitos torcedores, que se ocupam em rezar, fechar os olhos, desligar o rádio, cruzar os dedos, beijar o santinho, usar a mesma roupa etc.

Em alguma medida, essas quatro lógicas podem ser encontrados em outros esportes ou situações de vida mas, de modo único, o futebol as apresenta com uma inversão da sua hierarquia habitual. Os elementos mais objetivos – a regra e o juiz – ficam em segundo plano, subordinados às relações entre os adversários e à ação dos fatores imponderáveis. Não casualmente, diz-se que o juiz é bom quando sua presença não é notada, e o mesmo se dá com as regras do jogo, que constituem uma espécie de fundo invisível.

Porque o futebol tem várias lógicas, que se organizam de maneira inversa à ânsia moderna por uma objetividade quantitativa, o esforço de patrocinadores e de parte da imprensa esportiva em subordiná-lo à "lógica dos números" e à tutela da tecnologia se deve à pretensão de domá-lo, torná-lo previsível, em geral para fins mercadológicos ou publicitários. No limite, podem roubar-lhe a alma, a própria essência que o torna, em todo o mundo, a paixão de milhões. Assim falou Stanislaw.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Eu sou é tricolor, amém!

Tricolores,

Meu amigo João Paulo é um santo homem, uma das figuras mais queridas aqui do nosso pedaço, e desfruta de grande prestígio com a alta hierarquia da casa. Como talvez saibam, ele sequer é brasileiro ou carioca, mas a partir de 1980 - naquela decisão do Campeonato Carioca com o Vasco, quando aproveitamos sua presença na cidade e cantamos sua música -, João Paulo nos tem ajudado em muitos momentos decisivos.

Já lhes devo ter contado que meu amigo tem absoluta convicção de que o descrente mais empedernido muda radicalmente de atitude, quando está em campo o seu time de coração: "Nas arquibancadas, não existem ateus", ele nos ensina. De temperamento alegre, mas contido, João Paulo costuma ser muito discreto em suas falas e comentários. Em geral, usa parábolas ou faz citações bíblicas para expressar seu pensamento. Por isso, não poderia perder a rara oportunidade de lhes contar uma pequena história que o amigo nos confidenciou. Como se trata de um episódio bem antigo, tomarei a liberdade de manter o nome verdadeiro de seu protagonista: padre Antonio Romualdo da Silva.

Disse-nos o João Paulo, que padre Antonio Romualdo era um grande tricolor e não perdia um único jogo do Fluminense. Seguia nosso time a todos os estádios do país, acompanhado de uma inseparável máquina fotográfica, na qual registrava, orgulhoso, as jogadas de nossos craques. Sofria terrivelmente durante as partidas e, se por acaso perdíamos, era acometido por um mau humor profundo e demorado. Entre outras consequências, não concedia absolvição a ninguém. Justamente em uma segunda-feira, após uma decepcionante atuação tricolor, deu-se o fato que o João Paulo nos contou.

Após a missa da manhã, um rapaz procurou o religioso no confessionário, para aliviar sua alma aflita. Bastante impaciente, nosso padre ouviu o pecaminoso relato, e já preparava uma rigorosíssima penitência, quando o jovem atribuiu sua má conduta da véspera à derrota do Fluminense. João Paulo disse que a revelação inesperada permitiu ao padre Antonio Romualdo reavaliar a situação em outra perspectiva: "O jovem não era de todo mau. Errara, é certo, mas que fazer? São deslizes da juventude, coisa que a maturidade resolverá". Decidiu adverti-lo com severidade, determinou que se recolhesse à sua residência e, após profunda reflexão sobre os seus atos, se prostasse de joelhos e repassasse dez vezes seguidas o Hino do Fluminense. Completo!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"Eu joguei o primeiro Fla-Flu"


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