sexta-feira, 28 de maio de 2010
Para uma Galeria de Fla-Flus Imortais (2)
Tricolores,
Em uma de suas frases lapidares, Nélson Rodrigues definiu de modo sintético e definitivo: "Tudo é Fla-Flu, o resto é paisagem". Em apoio a esta verdade incontestável, cito a euforia dos meus amigos após nossa recente vitória e o consequente entusiasmo para ampliarmos a Galeria de Fla-Flus Imortais. O Antonio Carlos se antecipou aos demais e exigiu: "Precisamos falar da Sacopenapã, relembrar das bolas na Sacopenapã!". Esclareço que era esse o nome da Lagoa Rodrigo de Freitas quando o Antonio Carlos nadava por lá, antes que o progresso nos proporcionasse a poluição e a mortandade de peixes. Penso que os tricolores conhecem bem o episódio mas, para atender ao amigo, rememoro aquele que ficou conhecido como o Fla-Flu da Lagoa.
Na partida final do Campeonato de 1941, o empate bastava para o Fluminense se sagrar campeão. Começamos melhor e fizemos dois gols mas, antes de terminar o primeiro tempo, os rubro-negros diminuíram e, aos 39 minutos do segundo, empataram a partida. Eis a verdade: o Fla-Flu decisivo do Campeonato de 41 teve 84 minutos absolutamente supérfluos e irrelevantes. Caso a Federação Carioca dispusesse de dotes paranormais, poderia ter orientado previamente a arbitragem para dar apenas os 6 minutos finais do jogo. Nesse escasso período, se desenvolveu o enredo dramático que conduziu esse Fla-Flu a um lugar de honra na Mitologia Tricolor.
Extenuados e sob a intensa pressão de decidir o campeonato na casa do adversário, nossos jogadores passaram a chutar a bola sobre os muros do estádio, nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando todas as bolas disponíveis já boiavam no famoso espelho d'água, os dirigentes adversários mobilizaram seus atletas originais - os remadores - para desempenhar a nobre função de gandulas aquáticos, e garantir sua devolução com maior rapidez.
Neutralizado o expediente lacustre, providenciamos a cera técnica: nosso ponta-esquerda, Carreiro, infernizou os adversários e foi de tal forma caçado em campo, que acabou com a camisa rasgada dentro da grande área, clamando por pênalti. O juiz não apenas ignorou a penalidade, como o expulsou, não sem antes ouvir uma série de reclamações e apelos que consumiram mais alguns segundos.
Aos 40 minutos, com 10 homens em campo, nosso goleiro Batatais teve a clavícula deslocada, mas permaneceu heroicamente à frente de baliza tricolor. Como o jogo não acabava, o habilidoso Romeu Pelliciari resolveu fazê-lo a seu modo, mantendo a posse da bola. Romeu caminhava, corria, driblava, voltava e não se desfazia da pelota. Em determinado momento, chegou até a linha de fundo adversária e retornou ao nosso campo. Quando perceberam que o tempo passava, começaram a lhe fazer faltas. Inútil: após a cobrança, a ciranda recomeçava.
Todo esse enredo se desenrolou a partir dos 39 minutos da etapa final! Quanto tempo terão durado esses 6 minutos? Em nosso singelo cotidiano, teriam transcorrido 360 segundos mas, na dimensão metafísica de um Fla-Flu decisivo, as possibilidades são mais amplas: para os rubro-negros, um breve instante; para nós, uma eternidade. Na fria lógica do cronometrista (sim, havia essa figura no futebol de 41) foram exatos 12 minutos. Decorrido esse tempo, o juiz encerrou a partida, as garças e os frangos-d’água retomaram sua pacífica rotina na Lagoa Rodrigo de Freitas e o Fluminense era o Campeão Carioca de 1941.
Ao final dessas lembranças, Antonio Carlos afastou-se com um aceno solene do costumeiro chapéu, tomado por um transe de paixão tricolor. Se não me engano, levitava ligeiramente. Já ao longe, nos gritou uma variação da sentença rodrigueana: "O Fla-Flu da Lagoa é tudo... e mais a paisagem".
Este post é baseado em um texto publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Em uma de suas frases lapidares, Nélson Rodrigues definiu de modo sintético e definitivo: "Tudo é Fla-Flu, o resto é paisagem". Em apoio a esta verdade incontestável, cito a euforia dos meus amigos após nossa recente vitória e o consequente entusiasmo para ampliarmos a Galeria de Fla-Flus Imortais. O Antonio Carlos se antecipou aos demais e exigiu: "Precisamos falar da Sacopenapã, relembrar das bolas na Sacopenapã!". Esclareço que era esse o nome da Lagoa Rodrigo de Freitas quando o Antonio Carlos nadava por lá, antes que o progresso nos proporcionasse a poluição e a mortandade de peixes. Penso que os tricolores conhecem bem o episódio mas, para atender ao amigo, rememoro aquele que ficou conhecido como o Fla-Flu da Lagoa.
Na partida final do Campeonato de 1941, o empate bastava para o Fluminense se sagrar campeão. Começamos melhor e fizemos dois gols mas, antes de terminar o primeiro tempo, os rubro-negros diminuíram e, aos 39 minutos do segundo, empataram a partida. Eis a verdade: o Fla-Flu decisivo do Campeonato de 41 teve 84 minutos absolutamente supérfluos e irrelevantes. Caso a Federação Carioca dispusesse de dotes paranormais, poderia ter orientado previamente a arbitragem para dar apenas os 6 minutos finais do jogo. Nesse escasso período, se desenvolveu o enredo dramático que conduziu esse Fla-Flu a um lugar de honra na Mitologia Tricolor.
Extenuados e sob a intensa pressão de decidir o campeonato na casa do adversário, nossos jogadores passaram a chutar a bola sobre os muros do estádio, nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Quando todas as bolas disponíveis já boiavam no famoso espelho d'água, os dirigentes adversários mobilizaram seus atletas originais - os remadores - para desempenhar a nobre função de gandulas aquáticos, e garantir sua devolução com maior rapidez.
Neutralizado o expediente lacustre, providenciamos a cera técnica: nosso ponta-esquerda, Carreiro, infernizou os adversários e foi de tal forma caçado em campo, que acabou com a camisa rasgada dentro da grande área, clamando por pênalti. O juiz não apenas ignorou a penalidade, como o expulsou, não sem antes ouvir uma série de reclamações e apelos que consumiram mais alguns segundos.
Aos 40 minutos, com 10 homens em campo, nosso goleiro Batatais teve a clavícula deslocada, mas permaneceu heroicamente à frente de baliza tricolor. Como o jogo não acabava, o habilidoso Romeu Pelliciari resolveu fazê-lo a seu modo, mantendo a posse da bola. Romeu caminhava, corria, driblava, voltava e não se desfazia da pelota. Em determinado momento, chegou até a linha de fundo adversária e retornou ao nosso campo. Quando perceberam que o tempo passava, começaram a lhe fazer faltas. Inútil: após a cobrança, a ciranda recomeçava.
Todo esse enredo se desenrolou a partir dos 39 minutos da etapa final! Quanto tempo terão durado esses 6 minutos? Em nosso singelo cotidiano, teriam transcorrido 360 segundos mas, na dimensão metafísica de um Fla-Flu decisivo, as possibilidades são mais amplas: para os rubro-negros, um breve instante; para nós, uma eternidade. Na fria lógica do cronometrista (sim, havia essa figura no futebol de 41) foram exatos 12 minutos. Decorrido esse tempo, o juiz encerrou a partida, as garças e os frangos-d’água retomaram sua pacífica rotina na Lagoa Rodrigo de Freitas e o Fluminense era o Campeão Carioca de 1941.
Ao final dessas lembranças, Antonio Carlos afastou-se com um aceno solene do costumeiro chapéu, tomado por um transe de paixão tricolor. Se não me engano, levitava ligeiramente. Já ao longe, nos gritou uma variação da sentença rodrigueana: "O Fla-Flu da Lagoa é tudo... e mais a paisagem".
Este post é baseado em um texto publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Comentários:
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Cada FLA x FLU tem o potencial de se tornar um acontecimento épico...
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
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