terça-feira, 27 de abril de 2010

O flagrante de um sequestro



sexta-feira, 23 de abril de 2010

Stanislaw e Angenor

Tricolores,

Gostaria de falar sobre dois participantes muito assíduos das reuniões aqui do nosso grupo: Stanislaw e Angenor. Justifico lhes ocupar o tempo com a apresentação destes amigos por considerá-los representantes exemplares da diversidade apenas aparente da imensa torcida tricolor. Se temos a nos separar vastas distâncias geográficas e diferenças de gênero, etnia, opção religiosa, inserção social etc., compartilhamos uma essência comum, uma visão de mundo, uma singular maneira de ser que aproxima, identifica e relaciona brasileiros tão diversos como, por exemplo, esses dois.

Angenor chegou aqui ao grupo em 1980. Ele nasceu no Catete, 6 anos e alguns meses depois do Fluminense, aos 11 anos se mudou para a Rua das Laranjeiras e, sempre que podia, assistia aos treinos de um time que tinha Marcos Carneiro de Mendonça, Machado, Mano, Welfare e outros craques. Tempos depois, se mudou para o morro da Mangueira, mas o sentimento tricolor já se tornara indestrutível. Segundo conta, "Os tempos idos / Nunca esquecidos / Trazem saudades ao recordar / É com tristeza que eu relembro / Coisas remotas que não vêm mais".

Lá pelo início da década de 50, Angenor passou por uma fase difícil. Pouco se sabe dos detalhes, mas o certo é que ficou muito mal após a morte de sua companheira e acabou por brigar com os amigos. Afastou-se de todos, desapareceu, especulava-se que houvesse morrido. De temperamento discreto, ele jamais esclareceu o que se passou. O máximo que já lhe ouví dizer foi: "Lembro dos tempos de outrora /, Que quase me roubam / A esperança e a fé / Não vou culpar os amigos / Fingidos que outrora eu tive / Na vida / Nem vou dizer / Que a razão do fracasso / Se prende a batalhas perdidas".

Stanislaw chegou aqui muito novo, em 1968: coração. Pudera! Este tricolor é jornalista, escritor, radialista, humorista, crítico musical, show man e - o que também lhe consumia muita energia - mulherólogo. Sua tia Zulmira e o primo Altamirando ficaram muito sentidos com a sua partida, mas para nós foi o início de uma festa permanente. Extremamente amável, educado e bem humorado, Stanislaw é inimigo jurado do politicamente correto, da burrice, do autoritarismo e de outras "coisas nossas".

Stanislaw e Angenor já se conheciam – literalmente - de outros carnavais, mas foi em 1956 que se deu o reencontro histórico e definitivo: casualmente, Stanislaw reconheceu Angenor lavando carros, na orla da Zonal Sul do Rio de Janeiro. Alma generosa e extremamente comprometido com a cultura popular, não teve dúvida em promover a volta por cima do amigo. Levou-o a programas de rádio e estimulou-o a compor novos sambas, que lhe proporcionaram a gravação de seu primeiro LP.

Em 1964, Angenor e sua nova companheira abriram um bar-restaurante-casa de espetáculos na rua da Carioca, com um farto cardápio de sambas e comidas de primeira. No final de 1969, o presidente Francisco Laport reuniu toda a diretoria do Fluminense para homenageá-lo com um almoço. Em 1975, para promover a estréia de Rivelino, o presidente Francisco Horta subiu o morro de Mangueira e pediu a ajuda de Angenor para o lançamento da Torcida Manga-Flu. No sábado de carnaval, diante de mais de 70 mil tricolores e 120 ritmistas da Estação Primeira, o Fluminense venceu o Coríntians por 4 x 1, com três gols de Rivelino.
Stanislaw e Angenor: dois brasileiros geniais, imprescindíveis, imortais. Em suma, dois típicos tricolores.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ele é iluminado


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Guttenberg traído

Tricolores,
Como sabem, a imprensa moderna nasceu por volta de 1540, a partir de uma invenção do alemão Johannes Guttenberg: a composição de palavras com tipos móveis. Sua grande inovação foi descobrir uma forma de produzir uma massa de letras numa liga de metal reutilizável e, assim, publicar mais livros e jornais, com maior agilidade. Esta invenção é considerada o evento mais importante da Idade Moderna, pois foi um instrumento fundamental para o desenvolvimento da Renascença, da Revolução Científica e para a construção de bases objetivas da sociedade moderna: o conhecimento e o ensino de massa. Para não aborrecer o amigo, o Stanislaw começou com este longínquo rodeio histórico para, finalmente, abordar um mistério que nos vinha intrigando: depois que se atribuiu a condição de repórter, o Adionson resolveu alardear uma incondicional admiração pela imprensa esportiva brasileira.

Desconfiados desta veneração deslumbrada, resolvemos conferir até que ponto ele estava bem informado e pedimos que apontasse o jornal, o programa de televisão ou os jornalistas que justificavam tantos e tão repetidos elogios. A resposta foi imediata e bastante esclarecedora: “A Grande Resenha Esportiva Facit! Adoro o Saldanha e o Scassa. O Nélson - nosso Profeta - é genial!”. Compreendemos que o problema do Adionson não era falta de capacidade crítica, mas uma total desatualização. A ‘Grande Resenha’ era uma mesa-redonda dominical da TV Rio, canal 13, que nos anos 60 do século passado enriquecia o futebol brasileiro com o brilhantismo de seus jornalistas. Todos tinham um assumido clube de coração – “ninguém era filho de chocadeira”, como esclarecia o Saldanha – e, portanto, caminhavam em paralelo a informação, a análise e a paixão clubística. Neste contexto, os eventuais conflitos de interesse não causavam qualquer dano à compreensão do torcedor, porque estavam absolutamente explícitos e equilibrados pelas diferentes opiniões.

Em épocas recentes - mais fortemente do final da década de 80 em diante -, a imprensa deixou de ser uma analista de futebol e passou a ser parte do negócio. Este movimento chegou a um requinte de perfeição: o monopólio, que tem a possibilidade de substituir a opinião pública pela opinião publicada. Pode parecer inofensivo, mas o repetido endosso a um erro de arbitagem, a legitimação de “vitórias” fora do campo de jogo e até à revelia do regulamento da competição, a orquestração de determinadas versões em diferentes veículos – que, de fato, são um só –, os textos tendenciosos, as declarações pinçadas do contexto (sem que se saiba a que pergunta se referiam), têm a capacidade de influenciar federações e tribunais, intimidar árbitros e, por vezes, acabam por convencer até parte dos próprios prejudicados.

Nossa conversa foi longa, talvez volte a ela outro dia. Por hora, cito apenas nossa apreensão quando o Stanislaw declarou o seguinte: “Conheço companheiros de rádio e televisão que assumem ser torcedores de clubes pelos quais não torcem realmente. O fazem por conveniência comercial ou, simplesmente, para cortejar a popularidade. Quem ‘correta’ anúncio – a maior fonte para se ganhar dinheiro nas funções de radialista – se disser que é vascaíno, por exemplo, tem meio caminho andado para angariar a publicidade dos comerciantes e industriais da grande colônia portuguesa... Agora, torcer pelo Flamengo, fora de dúvida, é uma perfeita conotação com a maioria dos torcedores... Para os donos de rádio e televisão, o ideal seria que seus narradores e comentaristas puxassem sempre a brasa para o lado do Flamengo. Eles pensam que isso aumenta a audiência e ajuda na tarefa de vender o patrocínio, as cotas de publicidade das transmissões de futebol... No rádio e na televisão, às vezes enfrentamos pressões, visando a favorecer essas questões íntimas”.

Diante da advertência de que tais afirmações não deveriam ser reproduzidas em qualquer ambiente, o Stanislaw nos tranquilizou: “A única coisa de minha autoria são as aspas. Quem disse isso - aliás, escreveu - há mais de 10 anos, foi o experiente jornalista Luiz Mendes, no livro ‘7 Mil Horas de Futebol’. Podem procurar, está lá na página 83”. Claro, não se pode restringir o futebol a uma visão simplista e conspiratória, restrita aos conchavos empresariais e à manipulação publicitária, mas também não é possível deixar sem constatação o triste momento de uma invenção com vocação revolucionária: a criação da imprensa moderna permitiu a livre circulação de idéias e ajudou a libertar a Humanidade das trevas e do atraso. Hoje, o futebol brasileiro caminha para ser um típico produto do oligopólio TV–rádio–jornal, que determina onde, quando, como se joga e, quem sabe, até quem ganha o jogo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O último herói trágico

"Sou goleiro há onze anos e tenho dez como titular do Fluminense, mas o curioso é que tenho sofrido acidentes nos treinos. Esse do dedo, para não fugir à regra, sofri quando batia bola há nove anos. Depois de curado, sofri mais três fraturas no mesmo local. O Fluminense promoveu uma junta de cinco médicos... Estudaram o caso e resolveram que um enxerto ou correção do eixo seriam medidas aconselháveis. Mas, o fato concreto é que, no meu entendimento, meu dedo continuaria imóvel, e isso me roubava a autoconfiança. Foi quando pensei na amputação parcial... Ficou então determinado que eu teria de assinar um termo de responsabilidade. Vivi um drama durante 48 horas... Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco: se não houver a operação, não poderei mais defender o meu clube, não confio mais em mim. No dia seguinte, dei entrada na Casa de Saúde". (Manchete Esportiva, 1957).

Tricolores,

Com facilidade, se pode reconhecer o personagem central do longo texto, parcialmente transcrito acima: Carlos José Castilho. O recorte da antiga publicação nos foi trazido pelo Antonio Carlos, e vou relatar, em síntese, o que conversamos sobre o maior goleiro do Período Moderno da História do Fluminense. Castilho nasceu no dia 27 de novembro de 1927 e, aos 11 anos de idade, já frequentava o campo do Bonsucesso, na Rua Teixeira de Castro. Filho de família humilde, aos 12 anos de idade começou a trabalhar em uma carvoaria e, aos 13 anos - irônica premonição?! -, em uma leiteria. Seu primeiro clube foi o Tupã, uma instituição amadora de Brás de Pina, onde atuava como atacante. Casualmente, pela ausência inesperada do titular da posição, Castilho foi improvisado no gol: a opção foi imediata e definitiva. Em 1944, foi levado para os juvenís do Olaria, onde voltaram a escalá-lo no ataque, mas ele insistia em ser goleiro.

Em 1946, chegou ao Fluminense. Sua estréia ocorreu em 6 de outubro, em um jogo amistoso: vencemos de 4 x 0 e Castilho defendeu um pênalti. Em 1947, estreou na equipe de aspirantes e se sagrou vice-campeão. Em 48, o jovem e desconhecido goleiro foi a grande surpresa do do Torneio Municipal, que abria a temporada de futebol no Rio de Janeiro, e foi vencido pelo Fluminense. Em 49, a renovação do elenco permitiu a formação da Trindade Tricolor, que protegeu nosso gol na década de 50, tornando-a a menos vazada por 5 campeonatos consecutivos: Castilho, Píndaro e Pinheiro.

Em 1950, Castilho teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. No ano seguinte, sob o comando de Zezé Moreira, junto aos companheiros da nossa Trindade, garantiu as vitórias de 1 x 0 do "timinho". Aos 24 anos, já era considerado o melhor goleiro do Brasil, um paredão intransponível, dando início a sua mística de defesas milagrosas. Em 1952, conquistou dois títulos internacionais muito importantes: pelo Brasil, o Pan-Americano, realizado no Chile – primeiro título de uma Seleção Brasileira no exterior -, pelo Fluminense, a II Copa Rio, torneio que reunia os principais clubes campeões da América e da Europa, o Campeonato Mundial Inter-Clubes da época. Logo na estréia, contra o Sporting de Lisboa, Castilho apresentou suas credenciais: garantiu o empate defendendo um pênalti aos 39 minutos do segundo tempo. A imprensa estrangeira começou a também lhe reconhecer os méritos: os jornais chilenos o chamaram "Cortina Metálica".

A partir de 1954, iniciou-se o drama das frequentes lesões que o perseguiram até o final da carreira. Em 55, teve um longo período de inatividade e, em 57, deu-se o episódio da amputação parcial de um dos dedos. Decisão correta ou não, em duas semanas ele estava de volta aos gramados. Carlos José Castilho vestiu a camisa número 1 do Fluminense por quase vinte anos, disputou 696 partidas e não sofreu gols em 255 delas. Conquistou os Campeonatos Cariocas de 1951, 1959 e 1964 e foi campeão do Torneio Rio-São Paulo, em 1957. Pela Seleção Brasileira foi campeão sul-americano em 1949 e participou de quatro Copas dos Mundo: 1950, 1954, 1958 e 1962, quando se sagrou bi-campeão. Com doses certas de técnica, sorte, coragem e estoicismo, Castilho se tornou um dos ídolos inesquecíveis do futebol brasileiro mas, curiosamente, não fazia defesas acrobáticas, porque estava sempre bem colocado.

A crônica esportiva o apelidou de "Rei do Pênalti" - no campeonato carioca de 1952, defendeu seis penalidades máximas -; os tricolores o chamavam de “São Castilho”; os adversários, de "Leiteria", atribuindo-lhe os feitos apenas à sorte, em analogia a um leiteiro da cidade, que se notabilizara por haver ganho duas vezes na loteria federal. Num Fla-Flu de 1953, os rubro-negros acertaram seu travessão por cinco vezes, e vencemos pelo placar mínimo; em 58, o América acertou quatro vezes nossa baliza. Para essa eficiência sobrenatural, Castilho tinha uma explicação tão humilde quanto surpreendente: era daltônico e, as antigas bolas de couro marrons e alaranjadas, para ele eram todas de um vermelho muito vivo. No dia 01 junho de 2002, como parte das comemorações pelo Centenário do Clube – no intervalo de um jogo de veteranos -, o Fluminense inaugurou o vestiário Castilho.

Sabe-se que os deuses enlouquecem os heróis para, só assim, vencê-los. Em 1966, após encerrar a vitoriosa carreira de jogador no Fluminense, Castilho começou a de treinador. Trabalhou na Arábia Saudita, treinou vários clubes brasileiros e foi campeão paulista de 1984, com o Santos. Vítima de crises de depressão, no dia 2 de fevereiro de 1987, pela janela do seu apartamento, Castilho deu seu último salto: para o vazio e a eternidade. Que outros clubes tenham grandes astros e personalidades internacionais; o Fluminense tem heróis de uma dimensão épica e a grandeza do clube e da torcida serão tão maiores quanto sua capacidade de reconhecê-los e honrá-los. Stanislaw que, até então, pouco falara, aproveitou o silêncio que se seguiu e fez uso da sua erudição filosófica: "A tarefa consiste em trazer à luz o que devemos amar sempre e venerar sempre e que não nos pode ser roubado por nenhum conhecimento posterior: o grande homem".

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Meio século de Fair Play

Tricolores,

Ao longo do século passado, o futebol evoluiu de um divertimento entre amigos e familiares para um esporte e, a seguir, uma ferrenha competição. Do amadorismo mais despojado e idealista, jogar bola passou a ser um meio de vida, uma profissão e, depois, um comércio internacional sem muitos escrúpulos. É inevitável que nesta trajetória vários de seus princípios e constrangimentos iniciais se tenham perdido, ou que apenas sejam seguidos às custas da severa aplicação das regras do jogo. O Antonio Carlos, aqui do meu grupo, sempre nos lembra que entre entre 1855 – quando o futebol foi organizado na Inglaterra - e 1891 não existia pênalti, e que houve forte resistência de alguns clubes ingleses à criação de tal punição. Entendiam que alguma irregularidade dentro da grande área apenas ocorreria de maneira involuntária, pois era inconcebível que cavalheiros interceptassem a bola com as mãos ou cometessem faltas propositais para impedir os gols adversários. Em um sábado recente, estávamos relembrando esta época romântica, quando nos ocorreu ser a data exata dos 50 anos da invenção do fair play. Vou tentar resumir.

No dia 27 de março de 1960, Fluminense e Botafogo se enfrentavam no Maracanã pelo Torneio Rio-São Paulo, do qual acabaríamos campeões. Aos 3 minutos do segundo tempo, Pinheiro entra em uma disputa com Quarentinha mas, com um grito, cai ao gramado. A bola sobra limpa nos pés de Garrincha, que tem campo aberto para progredir mas, surpreendentemente, apenas dá um leve toque pela lateral, e possibilita o atendimento médico ao nosso zagueiro. Há meio século, esta atitude era absolutamente original e impensável. As duas torcidas ficam atônitas com a cena que acabam de testemunhar. Alguns consultam o torcedor ao lado, para confirmar a autenticidade do que viram. Na tribuna de imprensa, Mário Filho exalta Garrincha: "É o Gandhi do futebol!". Seu Mané dera um drible desconcertante no senso comum, como se usasse seu improviso genial para abrir um parênteses inédito em uma partida de futebol.

Pinheiro foi retirado de campo, mas aos vinte demais jogadores já não seria possível retomar simplesmente a mera sucessão de chutes e caneladas. Haveria que providenciar um gesto de originalidade equivalente ao de Garrincha, capaz de encerrar o episódio e trazer a competição de volta ao seu necessário pragmatismo.

O juiz ordena o reinício do jogo, Altair se apresenta para a cobrança do lateral. Altair Gomes de Figueiredo chegou às Laranjeiras aos 15 anos de idade, e por 17 anos e 551 jogos defendeu nossas cores. Foi campeão carioca em 1959, 1964 e 1969; campeão da Taça Guanabara em 1966 e 1969; campeão do Rio-São Paulo em 1957 e 1960. Em 1962, foi campeão mundial no Chile e, em 1966, esteve na Copa da Inglaterra. Tendo iniciado e encerrado a carreira na quarta-zaga, durante longos anos atuou na lateral-esquerda, sendo por muitos considerado o melhor jogador desta posição a vestir nossa camisa. À boa técnica, Altair aliava marcação implacável, precisão absoluta no uso do carrinho e, apesar do tipo físico franzino, raramente perdia uma dividida.

Pois coube a um jogador com tal perfil, a sensibilidade, a inspiração para produzir a cena final deste momento histórico: propositadamente, Altair erra o arremeço manual e faz a bola quicar para fora do gramado, devolvendo sua posse ao Botafogo. O círculo se fechava, o enredo estava completo. Garrincha e Altair, protagonistas de duelos que já haviam produzido tantos dribles e desarmes antológicos, eram agora os co-autores de uma tradição que, a seguir, correu o mundo e, progressivamente, sofreu as distorções conhecidas. Os deuses dos gramados perceberam haver um único resultado adequado a uma partida na qual não caberiam perdedores: empate, 2 x 2.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Muricy não tem mais remédio


Tricolores,

Vocês não podem imaginar a satisfação dos meus amigos com a gentileza do NETFLU em publicar nossas conversas sobre as glórias e os heróis da nossa Mitologia. Avaliem, para eternos torcedores do Fluminense, o que significa estar no mesmo time do Manfrini, do Roger e destes bravos jornalistas tricolores.

Fiz esta introdução, sem dúvida por um dever de educação, mas também para adiar um pouco uma novidade preocupante que preciso lhes dar ciência: empolgadíssimo com a chance de conversarmos com um número maior de tricolores, o Adionson nos disse sentir necessidade de ampliar os temas das nossas conversas, de não confiarmos apenas na memória e sermos um pouco investigativos. Entenderam? A princípio, nós aqui também não. Aí veio a grande bomba. Meu amigo declarou que, de agora em diante, exercerá a função de repórter! "De que tipo?", preocupou-se o Stanislaw. "De todos os tipo", esclareceu o Adionson, para nosso maior espanto.

A seguir, esclareceu sua motivação. "Lembram-se do Dragão Negro? Foi uma sociedade rubronegra fundada em meados do século passado, que tinha por objetivo influenciar nas eleições do clube e infiltrar seus militantes nas instituições esportivas e nos grandes órgãos de imprensa. Pois descobri que, há mais de uma década, o Dragão Negro se reorganizou e, a partir daí, o Fluminense vem sendo muito mal tratado pela mídia". Com o temerário propósito de ajudá-lo na nova empreitada, o Antonio Carlos emprestou sua máquina fotográfica, uma rolley flex 6 x 6, que ele não usava desde o tempo da Bossa Nova.

Depois de muitos apelos por uma reflexão mais cuidadosa sobre tão controvertida decisão, ele – "Adionson, o repórter", como decidiu se autodenominar - estréia hoje. Desde já, em nome do Angenor, do Antonio Carlos, do João Paulo, do Stanislaw e no meu próprio, apresento nossas desculpas por qualquer inconveniência.

Vocês podem observar na foto acima.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A benção, João Paulo


Tricolores,

Há exatos cinco anos, em um outro dia dois de abril, um mesmo episódio terá entristecido um grande número de pessoas, mas foi motivo de imensa alegria para o meu grupo: a chegada do amigo João Paulo. Em princípio, o Stanislaw – espírito boêmio, livre pensador – lhe fez restrições, por conta de algumas opiniões muito conservadoras. Em pouco tempo, no entanto, sua permanente simpatia e o amor pelo Fluminense contagiaram a todos e, hoje, ele é uma das figuras mais queridas daqui. João Paulo nasceu em 1920, na Polônia, perdeu a família muito cedo, teve uma vida longa e venturosa, mas não vou cansá-los com detalhes biográficos e passo direto ao nosso ponto. Meu amigo fez quatro visitas ao Brasil e estou certo de que, pelo menos em dois sentidos, esta experiência o marcou profundamente. Espírito místico, a religião sempre teve uma importância cardeal em sua vida e o contato com o rico sincretismo brasileiro haveria de influenciá-lo. Com a fama de ter sido um milagroso goleiro no time amador de sua cidade, João Paulo desenvolveu uma paixão correspondida pelo Fluminense e por sua torcida.

Suponho que todos estão cientes do ocorrido mas, em homenagem aos 30 anos da conversão deste amigo à causa tricolor, me permito recordá-los. Em 1980, o Fluminense iniciou o Campeonato Carioca como aparente coadjuvante. O Vasco nos havia tirado o técnico Zagallo, contratara Paulo César Caju e recém chegara da Europa com o Troféu Juan Gamper. O clube de regatas da Gávea, o grande favorito, era dirigido pelo tecnocrata Claudio Coutinho e viera da Espanha com Luís Pereira e o Troféu Ramón de Carranza. O Fluminense contava com Nelson Rosa Martins - o Nelsinho, técnico do Madureira na temporada anterior -, o meia Gilberto (uma promessa vinda do Atlético Goianiense), o consagrado centroavante Claudio Adão e mais nove jogadores da nossa base. Apesar disso, decidimos o primeiro turno com o Vasco da Gama: 1 x 1 no tempo normal. Em meio à tensa série de pênaltis, ocorreu à nossa torcida apelar ao personagem ilustre que há poucos meses nos visitara, e cantou a música em homenagem a João Paulo, da autoria de Péricles de Barros. Resultado: Paulo Goulart defendeu duas cobranças; 4 x 1 para nós.

O segundo turno foi ganho pelo Vasco e a equipe rubronegra se deixou eliminar pelo Serrano: 1 x 0, gol de Anapolina(!). Na decisão do Campeonato, o placar insistia em um teimoso 0 x 0. Quase 110 mil vascaínos e tricolores se mantinham em permanente supense quando, aos 22 minutos do segundo tempo, Guina faz falta em Mário. Enquanto o vascaíno é advertido com cartão amarelo, Edinho pega a bola, ajeita confiante, mas o zagueiro Orlando Lelé faz a provocação: "Essa aí vai na arquibancada". Mais uma vez, a torcida tricolor apela a João Paulo e volta a entoar sua canção. O efeito é fulminante: Edinho desfere um petardo, a bola bate no chão, no peito de Mazaroppi, na trave e vai descansar no fundo das redes. Gol! Fluminense campeão! Claudio Adão é o artilheiro do campeonato; Gilberto, a revelação; Edinho, o herói do título e João Paulo, o herói da torcida. Tempos depois, ainda lhe prestaríamos uma surpreendente homenagem. Após um amistoso beneficente entre as seleções do Brasil e da Itália, realizado na cidade de Udine, a delegação brasileira foi visitá-lo. Na hora da foto, a pronta intervenção do nosso Ximbica possibilitou o registro histórico: João Paulo e a camisa tricolor.

Depois de aqui chegar, livre da liturgia de suas funções terrenas, João Paulo assumiu radicalmente o misticismo e a paixão clubística. Meu amigo tem a absoluta convicção de que basta soar o apito inicial de uma partida do clube de coração para que qualquer cético apele às mais variadas forças sobrenaturais: “Nas arquibancadas, não existem ateus”, afirma taxativo. Modesto, ainda recentemente, quando lhe foi atribuído o milagre pela reação do Time de Guerreiros, minimizou: “Dei só uma mãozinha”. Não desejo fazer confidências comprometedoras sobre meu amigo, mas não resisto a revelar apenas uma de suas reações em que a religiosidade e a paixão tricolor se misturam em doses elevadas. Sempre que a nossa defesa está em dificuldades com o ataque adversário, quando a bola ronda perigosamente nossa baliza, João Paulo tem o hábito de se benzer mas, ao invés do tradicional “Em nome do Pai...”, ele apela à Trindade Tricolor: “Castilho, Píndaro e Pinheiro; Castilho, Píndaro e Pinheiro...”, sussurra repetidas vezes. Se confundimos sua nacionalidade e o incluímos entre os brasileiros do grupo, ele se ergue solene e faz a correção: “Brasileiro é o chefe, eu sou polonês; mas o Fluminense é a minha segunda Pátria”.

J.T de Carvalhos escreve às terças e sextas.

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