sexta-feira, 21 de maio de 2010

Na ponta-esquerda, Rui Barbosa (final)

Tricolores,

Como talvez tenham lido, iniciamos a semana com um indecifrável mistério ou simples confusão mental do meu amigo Stanislaw. Conversávamos sobre os ponteiros esquerdos que já haviam sido honrados com o privilégio de vestir a camisa tricolor, quando o Stan lançou um nome inesperado: Rui Barbosa! Prontamente, o Antonio Carlos nos proporcionou uma síntese biográfica e citou alguns depoimentos de brasileiros ilustres sobre o intelectual baiano. Tudo muito instrutivo, mas nossa curiosidade era só uma: teria a “Águia de Haia” superado seu preconceito contra o futebol e sobrevoado a ponta esquerda de Álvaro Chaves? Stanislaw se deliciou com a nossa perplexidade e, a cada hipótese despropositada, aumentava o prazer de suas gargalhadas. Acusou-nos de amnésia, ingratidão e, finalmente, de tomarmos tudo ao pé da letra. “É claro que eu não me referia ao ilustre baiano”, começou a nos explicar, “eu falava do ‘Rui Barbosa do futebol’, o nosso genial ponta esquerda”. E contou o seguinte.

João Batista Siqueira Lima, mais conhecido como Carreiro, jogou no São Cristóvão entre 1935 e 39 e chegou às Laranjeiras no ano seguinte. Fez 127 jogos, 66 gols e foi bicampeão em 1940/41. Era um ponta esquerda arisco, debochado, que irritava os adversários com seus dribles desconcertantes. O curioso é que Carreiro era pequeno, tinha o pescoço fino, ombros estreitos e sua cabeça grande parecia ainda maior, tendo em vista a fragilidade do corpo. Além do tipo físico peculiar, ele tinha uma característica que, vez por outra, acomete os jogadores de futebol: a inteligência. A velha máxima atribuída a Didi teve em Carreiro seu verdadeiro autor e mais fervoroso praticante: a bola corria; seu corpo, não. Ou por outra, seus braços e pernas eram avidamente poupados, pois seu grande desgaste se dava no nível mental. Carreiro carregava consigo o recorte de um jornal inglês para mostrar a quem se insurgisse contra sua tese. Segundo lhe traduziram, lá estava escrito o seguinte: “quem corre é a bola”.

Em um jogo importante, um de seus passes geniais deixou nosso centroavante na cara do gol. Depois de concluir para as redes com facilidade, o artilheiro correu para abraçar o autor intelectual da jogada. Carreiro o deteve e, apontando para a própria testa, orientou: “Abraço não, velho. Se quiser agradecer o passe, beija aqui”. Aquele mulato franzino e cabeçudo, a esbanjar malícia e a inventar coisas nunca vistas em um gramado (como uma “poderosa máquina cerebral”), recebeu da torcida um título honorífico que lhe caiu com perfeição: “o Rui Babosa do futebol!”. E nosso Rui Barbosa não fazia por menos: “Futebol não se joga com os pés”, dizia ele, “futebol é com a cabeça. Os maus jogadores cansam as pernas; eu, depois de uma partida, só sinto cansaço na cabeça”.

Em um Fla-Flu, na Gávea, Carreiro tentava alcançar um passe longo, próximo à área rubronegra, quando o truculento Yustrich – uma de suas vítimas prediletas - veio ao seu encontro. Já bem próximo do nosso ponta, ao se perceber fora da área - e, portanto, sem poder usar as mãos para fazer a defesa -, o goleiro desferiu um pontapé com tal força e elevando tão exageradamente a perna, que se temeu o pior. As senhoras presentes desviaram o olhar, alguns já definiam quem daria a notícia à família, mas nada ocorreu: o Davi tricolor passou com bola e tudo por entre as pernas do Golias rubronegro e fez o gol. Em um jogo contra o São Cristóvão, ao se aproximar da entrada da área, nosso Rui Barbosa recebeu o combate de um brutamontes que, pelo simples deslocamento de ar, já poderia jogá-lo no chão. Não se intimidou: valentemente, de boca fechada, por entre os dentes, ele assoviou como se fora o apito do juiz marcando o impedimento dele mesmo. Ao ouvir a suposta marcação, o adversário parou, mas Carreiro invadiu a área e fez o gol. O beque inconformado tanto reclamou que acabou expulso. Após episódios como este, para coroar sua obra,ele não se vangloriava. Exibia uma fisionomia inocente, de eterna vítima da violência: o rosto parado, pálido, os olhos fundos. A imagem da modéstia e do gênio, como o verdadeiro Rui Barbosa após um discurso triunfal.

Stanislaw contou ainda que, em 1943, Carreiro se transferiu para o Palmeiras e, no ano seguinte, para o Peñarol, onde se sagrou campeão. Meu amigo João Paulo, que ouvia todo o relato maravilhado, pela primeira vez demonstrou contrariedade, por deixarmos ir embora um craque tão especial. Mas Stan justificou: “O Carreiro ficou insatisfeito por não ser mais o titular absoluto da ponta esquerda. Mas não tinha jeito, contratamos para a posição um herói grego. Aliás, um ex-herói grego porque, em pouco tempo, se tornou mais um dos grandes heróis da Mitologia Tricolor”.

Por Zeus! O Stanislaw já nos aprontara outra armadilha. Mas a identidade e os feitos extraordinários deste novo herói ficam para terça-feira. Aliás, um dia muito adequado, por ser véspera de Fla-Flu.


Comentários:
Muito bom! O Didi citado neste post era meu conterraneo. Campista!

Saudações Tricolores do Céu a da Terra!!!

Douglas
 
Douglas,
outro dia, tivemos uma conversa aqui sobre as relações - nem sempre tranquilas - entre o Fluminense e o Didi.
Vou reproduzí-la qualquer hora dessas.
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
 

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