sexta-feira, 30 de julho de 2010

Incompatibilidade de gênios

Tricolores,

Waldir Pereira, mundialmente conhecido como Didi, foi bicampeão pela Seleção Brasileira. Na Copa de 1958 - na qual estiveram Pelé, Garrincha, Skoglund, Nestor Rossi, Yashin, Kopa, entre muitas outras lendas do futebol -, ele foi eleito pela imprensa internacional como o melhor jogador da competição, e os europeus passaram a chamá-lo de "Mr. Football". Na Copa de 1962, aos 32 anos de idade, dividiu esse mesmo troféu com o tcheco Masopust. Em 12 de maio de 2001, devido a complicações de um câncer no fígado, Didi entrou definitivamente para a galeria dos imortais. A notícia repercutiu em jornais e revistas espanhóis, argentinos (como El Gráfico), franceses (como L'Equipe) e gerou uma matéria com foto no The New York Times. No dia seguinte, antes de se iniciarem as partidas, várias equipes, em diferentes países, fizeram um minuto de silêncio em sua memória.

Didi jogou no Fluminense por quase oito anos, entre 1949 e 1956. Durante esse período, foi campeão carioca (em 1951); campeão mundial interclubes (II Taça Rio) e campeão do Panamericano no Chile, seu primeiro título conquistado fora do território brasileiro (em 1952); disputou cinco das sete partidas do Sulamericano do Chile (em 1953); foi convocado para a Copa do Mundo da Suíça (em 1954) e inventou a folha seca (1956). Didi se destacava pelo estilo preciso e refinado; o "Príncipe Etíope" não apenas via, mas antevia o jogo. No entanto, o craque que passaria para a história e para a lenda do futebol como o fiel praticante das crenças de que "treino é treino, jogo é jogo" e "quem corre é a bola" não nasceu em Álvaro Chaves.

No Fluminense, quando Waldir Pereira começou a ser Didi, ele era uma variação de Telê Santana. Deslocava-se por todo o gramado, apoiava e voltava para marcar. Ao final dos jogos, saía de campo encharcado, exausto, com menos 4 kg. Muitos criticavam Zezé Moreira por exigir tanto de um craque como aquele. Telê desempenhava funções semelhantes, e aceitava-se com naturalidade que um "fiapo humano" fosse um carregador de piano. Mas Didi, com aquela pose de jurisconsulto do futebol, inspirava opiniões de que deveria guardar energias apenas para os momentos decisivos. Uma folha seca ou um passe no buraco já valeriam o seu ordenado, por mais alto que fosse, muitos diziam.

Convenhamos, é difícil resistir a uma campanha dessas - revestida com as galas de uma homenagem - e Didi acabou por fazer a vontade dos que o julgavam muito sacrificado. Como agravante da crescente incompatibilidade entre o gênio da folha seca e a tradição tricolor, surgiram questões ligadas à sua vida pessoal. Em 1950, já casado e com filhos, Didi conheceu a atriz Guiomar Batista - musa de Ary Barroso no samba-canção Risque -, com quem passou a viver. Além de algumas situações escandalosas que contrariavam o clube, o Fluminense resolveu destinar parte do salário do jogador à sua primeira esposa. A insatisfação tornou-se mútua e incontornável, a relação entre craque e clube se deteriorou: Didi sempre fazendo das suas, sempre advertido, de vez em quando multado.

Em março de 1956, a revista Esporte Ilustrado (no. 934), publicou a matéria "Disciplina acima dos Craques": "Parece que os clubes cariocas resolveram tomar um pouco de juízo para dar paradeiro definitivo nesta onda de indisciplina que estava imperando no futebol metropolitano... O Fluminense, por sua vez, fez pé firme em mais um caso criado por Didi. Não jogará sem contrato, nem terá o seu passe vendido. O craque tricolor prefere descalçar as chuteiras e plantar cacau na Bahia". O resultado todos conhecem: ainda em 56, Didi foi vendido ao Botafogo por uma quantia irrisória. A revista Manchete Esportiva (no. 16) estampou sua foto, com a legenda: "Eis aqui o discutido jogador com a nova farda".

E concluiu, irônica: "pelo jeito, desistiu de plantar cacau". Nas páginas centrais, apresentou uma versão humorística da ópera Rigoleto, de Verdi, tendo Didi como protagonista. No último quadro da fotonovela, ele afirma: "Vou para o Botafogo. Às vezes, penso que o meu destino é pecar".

Longe de Zezé Moreira e das pressões de Álvaro Chaves, Didi pode finalmente conduzir sua vida e sua carreira como bem entendeu. Como é costume, as opiniões se inverteram: agora, criticava-se a sua relutância em molhar a camisa; ser pago para ficar parado, olímpico, no meio do campo; em 1958, grande parte da torcida tinha dúvidas se valia a pena mandá-lo à Suécia. Havia quem defendesse a convocação de Moacir ou de Zizinho que, aos 37 anos, corria o jogo todo.

Didi jogou até 1963 e, a partir de 1968, iniciou uma carreira igualmente vitoriosa de técnico de futebol. Felizmente, a nova atividade possibilitou uma reconciliação entre Waldir Pereira e o Fluminense. Em 1975, ele voltou a ser Campeão Carioca, agora como treinador da Máquina. Homem maduro, inteligente, profundo conhecedor das coisas da vida e do futebol, Didi aconselhava a seus jogadores: "Façam o que lhes digo, não tentem fazer o que eu fiz".

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Um Homem de Moral

Tricolores,

No Brasil, no início do século XX, o futebol era um esporte amplamente discriminado. Muitos o acusavam de ser uma prática bárbara e violenta, um estrangeirismo inoportuno e intelectuais - ditos "populares" – o rotulavam como elitista e segregador. Com genial clarividência, o tricolor Coelho Neto acolheu e incentivou a nova prática, não apenas por suas características esportivas, mas por antever seu imenso potencial na educação de jovens e na construção de exemplos positivos para a população. A necessidade do esforço coletivo, a vitória como produto do talento e do trabalho exaustivo, enfim, vários aspectos do futebol se apresentavam como oportunos elementos para a pedagogia de uma ética popular.

Ao longo do século passado, todos testemunhamos os usos e abusos ocorridos. Para tomar apenas um caso mais notório, há muito a seleção brasileira declinou da honrosa posição de "pátria de chuteiras" para se transformar em uma trupe mambembe, que disputa patrocínios e cachês milionários no mercado internacional. Um marco inicial dessa nova tendência pode ser encontrado na Copa de 1974, na Alemanha. Naquela competição, ao marcar um gol, os principais jogadores brasileiros corriam em direções divergentes, a fim de comemorá-lo à frente das placas de propaganda de seus respectivos patrocinadores.

No histórico dia de 23 de julho de 2010, a reunião do meu grupo retomou essas lembranças lamentáveis em função de um episódio singelo e exemplar, que determinou, ainda que provisoriamente, a vitória da ética sobre a arrogância. Acostumado aos paparicos interesseiros de certa parte da imprensa esportiva e ao beija-mão dos arrivistas costumeiros, a CBF protagonizou uma ligeira peça em dois atos, que deveria ser melhor explorada em todo o seu potencial revelador do que é e do que poderia ser o ambiente esportivo no Brasil.

Na primeira parte dessa tragicomédia, um profissional respeitado e vitorioso é chamado às escondidas, à revelia do seu empregador, para ser aliciado com uma proposta supostamente irrecusável, à qual todos se curvariam, pela qual vários venderiam a alma. Previamente a qualquer análise ou avaliação mais ampla, o resultado da conversa é divulgado de forma unilateral. De imediato, sem qualquer outra consideração, a imprensa alardeia a versão, como se fosse um fato. No segundo ato, vem o moral da história e, para a surpresa e incompreensão de muitos, os valores predominam sobre o preço. Para consagrar e resumir tudo o que o mundo do futebol e a sociedade brasileira têm a aprender com o episódio, talvez baste enunciar a única declaração do herói do dia: "Se o Flu não me liberar, o papo vai ser encerrado. Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos".

Com perdão do simplismo, sugiro a possibilidade de substituirmos a Constituição Federal, o Código Civil e todo o nosso moroso e ineficiente aparato legal pela nova Lei de Muricy: "Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos". Ao invés de consultar complexos artigos e parágrafos, talvez bastasse a qualquer cidadão fazer essa singela reflexão: "essa minha decisão, esse meu gesto, será um exemplo para os meus filhos ou para os jovens, em geral?". No conto "Insônia", Graciliano Ramos relata a angústia de um sujeito que acorda, no meio da madrugada, atormentado pela seguinte questão: "Sim ou não?". Não há contexto, não há informações externas, e ele precisa ansiosamente decidir: "sim ou não?". Foi também baseado exclusivamente em seu referencial ético, que Muricy Ramalho decidiu. Aqui, à distância, Telê Santana há de ter sorrido, discretamente.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Gênio da Folha Seca

Tricolores,

Confesso uma certa desmotivação do meu grupo com relação à recente Copa do Mundo. Acompanhamos os jogos na África do Sul, mas nossas preocupações não puderam se afastar de Álvaro Chaves. O João Paulo nos dispensou da tentativa de compreender o fenômeno: "Irmãos, no mundo, há coisas para entender e coisas para decorar. O Fluminense é nossa paixão maior e incontrastável. Esse fato dispensa explicações: eis o mistério da fé!". Nas raras vezes em que conversamos sobre o torneio mundial, surgiram lembranças sobre os grandes craques de antigas seleções e, dentre eles, Didi. Como devem estar a par, Waldir Pereira nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) - cidade que também nos deu Pinheiro, Evaldo e Denílson -, em 8 de outubro de 1928. Talvez poucos se recordem do início de sua carreira, em 1944, nos juvenis do São Cristóvão. Em 1945, voltou a Campos para jogar pelo Industrial e, a seguir, pelo Rio Branco, clube no qual se tornou jogador profissional.

Em 1948, se destacou atuando pelo Madureira e, no ano seguinte, já estava no Fluminense, onde se afirmou como um dos maiores craques do futebol brasileiro. Com a camisa tricolor, Didi foi Campeão Carioca em 1951, liderando o "timinho" de Zezé Moreira, ao lado de Castilho, Pinheiro e Telê. Na quinta rodada do turno desse campeonato, ganhamos do Bangu por 5 x 3 e Didi marcou o último gol da partida, segundo ele, o mais bonito de sua carreira. Em 1950, atuando pela seleção carioca fez o primeiro gol da história do Maracanã e, em 1952, ano do nosso Cinquentenário, nos ajudou a conquistar o título mundial interclubes, a II Taça Rio.

Em 1956, em um jogo contra o América, Didi lançou uma técnica inédita de cobrar faltas, sua contribuição mais original para o universo do futebol: a folha seca. O chute nasceu após uma contusão no pé direito, da qual custava a se recuperar. Diante da necessidade de permanecer no time, Didi criou um modo engenhoso de chutar, preservando a região machucada. Após ultrapassar a barreira, a bola descrevia uma curva e, de súbito, descaía nas redes adversárias. Ao perceber sua semelhança com uma folha de outono, vagando incerta ao sabor do vento, o tricolor Oduvaldo Cozzi - o maior locutor da época -, criou a poética expressão e ajudou a popularizar a jogada. A consagração internacional da folha seca ocorreu nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, contra a Seleção do Peru, quando Didi marcou um gol de falta nesse estilo.

O "Príncipe Etíope", como Nelson Rodrigues o denominou, era um negro esguio, de passadas largas, cabeça erguida, estilo clássico e elegante. Tratava a bola – a quem se referia como "a criança" – com carinho e precisão. Em retribuição, ela o seguia docilmente, "quase a lhe lamber as chuteiras, como uma cadelinha amestrada", em mais uma citação do Profeta Tricolor. Porém, mais que tudo, Waldir Pereira mudou a história do futebol mundial pois, até a sua época, os grandes meias abasteciam os atacantes com passes em linha reta, à média e curta distâncias. Valendo-se de uma balística original, Didi vinculou o passe longo à essência do jogo.

Recordamos que Didi jogou 298 partidas pelo Fluminense e marcou 91 gols mas, em 1956, se transferiu para o Botafogo. Nesse ponto, fomos tomados por total perplexidade. Por que o gênio da folha seca nunca foi identificado como um herói tricolor? Por que nos desfizemos de um craque tão espetacular? A oferta foi irrecusável? Nosso adversário tinha uma situação financeira melhor do que a nossa? Houve algum problema entre o clube e o jogador? Nossa conversa ainda continuou por bastante tempo e prometo esclarecê-los desses detalhes na próxima semana.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Para uma galeria de Fla-Flus imortais (IV)

Tricolores,

Convenhamos, para tudo há um limite. Em que pese seu inesgotável potencial de glórias e emoções, já tinha encerrado nossa série sobre os Fla-Flus Imortais, mas precisei abrir uma exceção. Meu grupo conversava sobre a estranha fatalidade que faz todos os erros de arbitragem se voltarem contra nós, quando nos apareceu o João Paulo. Grande figura, tem muito prestígio por aqui. Embora não seja carioca, nem sequer brasileiro (mas seu patrão o é, e isso já nos foi de muita valia), tem demonstrado ser um tricolor de todos os momentos, sobretudo das horas mais difíceis. A razão de voltar aos Fla-Flus é que, ao nos ouvir protestar contra as arbitragens e, mais ainda, contra a inconsequência de seus erros, o João Paulo ponderou: "Já foi pior, meus irmãos, bem pior. Ouviram falar no Caixa Econômica?".

Trata-se do seguinte: contra toda as recomendações de discrição e conveniência, Caixa Econômica era o apelido de um bandeirinha da nossa Federação, lá pelo final da década de 1950. De antemão, a alusão a transações financeiras, investimentos e poupanças não era uma boa referência para o exercício profissional, mas o verdadeiro agravante eram suas atuações. Obviamente, a consagração definitiva não se poderia dar por um trivial impedimento mal assinalado ou a mera inversão de uma cobrança de lateral. Em abril de 1959, durante o segundo tempo de um Fla-Flu pelo Torneio Rio-São Paulo, o citado bandeirinha irrompeu de sua espessa obscuridade, adentrou as quatro linhas e lançou-se ao estrelato de uma forma original e inusitada: deu um passe para o centro-avante rubro-negro marcar um gol! A ação surpreendente e fulminante lançou a torcida tricolor em tal estupefação que sequer se sabe dizer se, após o passe bem sucedido, o Caixa Econômica também teria corrido para o abraço, beijado a camisa etc. Em resumo, perdemos de 2 a 0.

Diante da perplexidade do grupo, nosso João Paulo emendou: "E há pior, muito pior". Em outubro de 1916, o Fla-Flu corria duríssimo. Perdíamos por 2 a 1, mas estávamos à beira do empate, quando o árbitro nos puniu com um pênalti, tão conveniente quanto suspeito. Os rubro-negros desperdiçaram a cobrança. Logo a seguir, sem demonstrar desânimo, o juiz marcou outro pênalti contra o Fluminense. Marcos Carneiro de Mendonça defendeu. Denotando notável perseverança, Sua Senhoria mandou cobrar outra vez, mas novamente Marcos de Mendonça defendeu. Sem se deixar abater pela adversidade, o árbitro mandou cobrar de novo.
Aí foi demais: o escritor tricolor Coelho Neto invadiu o gramado, como um personagem de capa-e-espada, esgrimindo seu inseparável guarda-chuva. Nossa torcida o seguiu, tornando impossível a continuação da partida. Esse Fla-Flu foi a primeira anulação de um jogo de Campeonato Carioca. No dia 8 de dezembro, foi realizada uma nova partida e o Fluminense ganhou por 3x1. Vale registrar que o juiz não foi advertido, afastado dos nossos jogos ou suspenso duas rodadas, como se faz atualmente: ele jamais voltou a apitar uma partida de futebol no Rio de Janeiro. Bons tempos.

Ainda comentávamos a punição exemplar, tão em falta nos dias de hoje, quando João Paulo complementou: "E existe o caso da confissão oficial: por escrito e assinada!". Ouvimos, perplexos, o relato de mais esse assalto contra nossas cores. No Campeonato Carioca de 1922, no segundo turno, houve um Fla-Flu em General Severiano. A dois minutos do fim, jogo empatado em 2 x 2, o juiz nos anula o gol da vitória, sob a alegação de impedimento. Dessa vez, não invadimos o campo - talvez, pela ausência da liderança do espadachim Coelho Netto -, mas quase. Sob proteção policial, o juiz se refugiou no vestiário, onde redigiu a súmula histórica, reproduzida em todos os jornais do dia seguinte. Entre lamúrias, ressalvas e alegações atenuantes, reconhecia o seguinte: "Enganei-me ao registrar aquela falta. Fui ladrão, e quase fui feito em pedaços, o que só não se deu porque ajudaram-me alguns amigos. Não me julguem um venal etc. etc." Ouviram bem? Fui ladrão, confessou o gatuno. E não acrescentou um mísero ponto de exclamação, não alegou um constrangimento irresistível, doença na família, nada.

Encerrado o breve capítulo introdutório de uma longa história de infâmias, alguém observou que - nesse universo de Caixa Econômica, Caixa d'Água, caixa dois etc. -, além da paixão, é preciso muita fé para perseverar na torcida pelo Fluminense. João Paulo sentiu que era a sua deixa. Ergueu a fronte, sua face iluminou-se num efeito teatral e encerrou, taxativo: "Queridos irmãos, fé é o que não falta. Nas arquibancadas, não existem ateus".

Este post e baseado em um texto do livro "Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Homem dos Nove Instrumentos

Tricolores,

Para lhes poupar tempo e paciência fiz um relato bastante breve da recente conversa do meu grupo sobre um dos grandes intelectuais tricolores, Coelho Neto. As lembranças foram incontáveis: o hino composto para o nosso clube; sua invasão de campo, brandindo o inseparável guarda-chuva para impedir que fôssemos roubados em um Fla-Flu (provocando a primeira anulação de um jogo de Campeonato Carioca), e tantas outras histórias. Deixei para esse novo post as recordações sobre sua maior contribuição para o Fluminense e o esporte brasileiro: seu filho, João Coelho Neto, o Preguinho.

Nascido em 8 de fevereiro de 1905 - portanto, apenas dois anos, seis meses e dezessete dias depois do Fluminense -, ele foi admitido como sócio infantil, sob o número 20. Aos seis anos de idade, quando aprendia natação com seu irmão Emmanuel, o Mano, João foi por ele chamado de Prego. O apelido jamais o abandonou embora, ironicamente, tenha se tornado o mais perfeito atleta de todos os tempos a vestir o uniforme tricolor. Em resumo, praticou nove modalidades esportivas - futebol, basquete, natação, pólo aquático, remo, saltos ornamentais, atletismo, voleibol e hóquei sobre patins – sempre com excelente desempenho. Deu ao clube 387 medalhas, a maioria de ouro, e 55 títulos. Foi campeão carioca de voleibol em 1923; de atletismo em 1925 e basquete em 1924, 25, 26, 27 e 31 sendo, até hoje, nosso segundo maior cestinha, com 711 pontos.

Como jogador de futebol, Preguinho jamais atuou por outro clube ou aceitou qualquer tipo de remuneração, mesmo após a implantação do profissionalismo. Foi o primeiro capitão e o autor do primeiro gol de uma Seleção Brasileira em Copas do Mundo, no Uruguai, em 1930 - o gol de honra na derrota para a Iugoslávia por 2×1. Na partida seguinte, contra a Bolivia, marcou mais dois gols na vitória brasileira por 4 a 0. O Canal 100 fez um documentário sobre a derrota brasileira de 74 – Futebol Total - no qual ele dá um depoimento sobre sua participação naquela primeira Copa do Mundo.
Pelo Fluminense, Preguinho participou do tricampeonato de 1936, 37 e 38, e por cinco vezes foi o artilheiro tricolor (em 1928 e 32, também do Campeonato Carioca, com 16 e 21 gols, respectivamente), marcando um total de 184 gols, em 174 jogos.

Protagonizou vários episódios memoráveis, nos quais demonstrou garra, versatilidade e, sobretudo, seu imenso amor pelo Fluminense. Por exemplo, em 1925, após nadar a prova de 600m (hoje transformada em 800m livre), vestiu um roupão de banho e rumou de táxi para as Laranjeiras, bem a tempo de jogar contra o São Cristóvão e ganhar o Torneio Início.

Felizmente, o Fluminense soube lhe reconhecer os méritos: além do primeiro título de Grande Benemérito Atleta, conferido em 1952, João Coelho Netto tem um busto nas Laranjeiras e deu seu nome ao ginásio do clube. Em nossos dias, depois de tantas mudanças no mundo do futebol, Preguinho não pode mais representar um exemplo a ser seguido. Mas pode, perfeitamente, servir de parâmetro, sobretudo para os torcedores, quando ouvirmos declarações de amor ao clube ou quando tivermos a oportunidade de aclamar um verdadeiro Herói Tricolor.

Este post é baseado em um texto do livro "Memorias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.

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