quarta-feira, 27 de outubro de 2010
De Vicentino a Simoni
Tricolores,
Essa semana, encontrei meus amigos em grande agitação e o motivo prontamente esclarecido foi a notícia de que o admirado Dr. Michael Simoni passou a ser nosso companheiro na bancada de blogueiros do NETFLU. Grande honra, muito justa a alegria, quase tudo perfeito...
Digo "quase" e já explico. Os tricolores aqui da minha turma julgaram que, ao ter tão eminente ortopedista quase como um vizinho de porta, se poderiam conceder o luxo de importuná-lo com solicitações de exames, indicações terapêuticas etc. Ao consultar o papel que o Adionson tinha em mãos - que eu julgara ser uma saudação de boas vindas -, constatei um impressionante conjunto de problemas osteoarticulares, capaz de não fazer feio frente a qualquer Tratado de Ortopedia. Após certa relutância, todos admitiram que, desse modo, o grande médico tricolor talvez desistisse da função antes mesmo de assumí-la, e concordamos em homenageá-lo ao nosso modo mais característico: recordar fatos da nossa história que, pelo pioneirismo e eficiência, nos reforçam o orgulho de ser tricolor.
Como talvez saibam, por longos anos, o jogador de futebol não tinha acesso a qualquer tipo de assistência médica. Alguns clubes contavam com um tipo de massagista improvisado, sem qualquer formação técnica. Valendo-se basicamente de seus músculos avantajados, esses curiosos - que, eventualmente, acumulavam a função de roupeiros - adotavam uma solução universal para qualquer lesão que não sangrasse: a fricção local. Tratava-se de uma enérgica intervenção sobre a região contundida, com limitadíssima possibilidade de melhora e grande potencial de agravamento do problema. Em 1917, segundo consta no Relatório da Diretoria, o Fluminense esboçou a criação de um espaço físico para prestar assistência médica aos jogadores, mas a iniciativa não prosperou.
Em 1937, sete anos após a fundação da Escola de Educação Física do Exército, o seu Curso de Especialização em Medicina Esportiva formou o primeiro médico nessa especialidade: Vicentino, um atacante do Fluminense. A partir de 1933, e durante cinco anos, Vicentino vestira a camisa tricolor em 98 partidas, fizera 71 gols e fora o nosso principal artilheiro nos campeonatos de 1933, 34 e 35. Convencido da impossibilidade de conciliar indefinidamente os gramados com a Medicina, ele abandonou as chuteiras, mas não o futebol e, menos ainda, o Fluminense. Especializado em Ortopedia, Vicentino - aliás o Dr. Vicente Rondinelli -, se dedicou também à Medicina Esportiva e, em 1937, com o apoio do presidente Alaor Prata, criou a Seção de Serviços Médicos do Fluminense Football Clube. Essa contribuição pioneira do nosso clube para o futebol brasileiro (mais uma!), teve em Vicente Rondinelli seu Patrono e em Michael Simoni um dos nomes que a dignificou.
Essa semana, encontrei meus amigos em grande agitação e o motivo prontamente esclarecido foi a notícia de que o admirado Dr. Michael Simoni passou a ser nosso companheiro na bancada de blogueiros do NETFLU. Grande honra, muito justa a alegria, quase tudo perfeito...
Digo "quase" e já explico. Os tricolores aqui da minha turma julgaram que, ao ter tão eminente ortopedista quase como um vizinho de porta, se poderiam conceder o luxo de importuná-lo com solicitações de exames, indicações terapêuticas etc. Ao consultar o papel que o Adionson tinha em mãos - que eu julgara ser uma saudação de boas vindas -, constatei um impressionante conjunto de problemas osteoarticulares, capaz de não fazer feio frente a qualquer Tratado de Ortopedia. Após certa relutância, todos admitiram que, desse modo, o grande médico tricolor talvez desistisse da função antes mesmo de assumí-la, e concordamos em homenageá-lo ao nosso modo mais característico: recordar fatos da nossa história que, pelo pioneirismo e eficiência, nos reforçam o orgulho de ser tricolor.
Como talvez saibam, por longos anos, o jogador de futebol não tinha acesso a qualquer tipo de assistência médica. Alguns clubes contavam com um tipo de massagista improvisado, sem qualquer formação técnica. Valendo-se basicamente de seus músculos avantajados, esses curiosos - que, eventualmente, acumulavam a função de roupeiros - adotavam uma solução universal para qualquer lesão que não sangrasse: a fricção local. Tratava-se de uma enérgica intervenção sobre a região contundida, com limitadíssima possibilidade de melhora e grande potencial de agravamento do problema. Em 1917, segundo consta no Relatório da Diretoria, o Fluminense esboçou a criação de um espaço físico para prestar assistência médica aos jogadores, mas a iniciativa não prosperou.
Em 1937, sete anos após a fundação da Escola de Educação Física do Exército, o seu Curso de Especialização em Medicina Esportiva formou o primeiro médico nessa especialidade: Vicentino, um atacante do Fluminense. A partir de 1933, e durante cinco anos, Vicentino vestira a camisa tricolor em 98 partidas, fizera 71 gols e fora o nosso principal artilheiro nos campeonatos de 1933, 34 e 35. Convencido da impossibilidade de conciliar indefinidamente os gramados com a Medicina, ele abandonou as chuteiras, mas não o futebol e, menos ainda, o Fluminense. Especializado em Ortopedia, Vicentino - aliás o Dr. Vicente Rondinelli -, se dedicou também à Medicina Esportiva e, em 1937, com o apoio do presidente Alaor Prata, criou a Seção de Serviços Médicos do Fluminense Football Clube. Essa contribuição pioneira do nosso clube para o futebol brasileiro (mais uma!), teve em Vicente Rondinelli seu Patrono e em Michael Simoni um dos nomes que a dignificou.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Preto no Branco
Tricolores,
Na semana passada, lhes contei a conversa de meus amigos sobre as origens do pó-de-arroz, que se estendeu prolongadamente. Em síntese, dois aspectos se destacaram: a estupidez do preconceito de cor e a manipulação de fatos históricos, capaz de transformar o Fluminense em símbolo quase exclusivo de uma distorção presente, naquela época, em toda a vida nacional. Com relação ao primeiro aspecto, o Antonio Carlos – nosso maestro soberano – contou o caso do Sr. Luiz Antônio Feliciano Marcondes, que os cientistas concluiram ser portador de 67% de genes de origem européia. Como se trata do simpático sambista Neguinho da Beija Flor, o resultado produziu enorme surpresa, inclusive nele próprio. A explicação dos pesquisadores foi simples: “Os genes que determinam a cor da pele são uma parte ínfima do conjunto de genes de uma pessoa”. Ou seja: existe uma única raça humana.
O Angenor e o Adionson – negros com muito orgulho e tricolores de coração – conduziram a conversa para um aspecto que lhes causa especial indignação: por que o Fluminense recebeu, com exclusividade, o rótulo de clube preconceituoso? Por que clubes que se beneficiaram da condição socialmente inferior de negros e mulatos, ficaram com a fama de populares e igualitários? O assunto conduziu ao Clube de Regatas Vasco da Gama, fundado em 1899, por sessenta e dois portugueses, comerciantes em sua maioria.
Em 1913, uma seleção portuguêsa veio ao Rio enfrentar o Botafogo, na inauguração do campo de General Severiano. A colônia se animou e, no ano seguinte, fundou o Lusitânia, um clube de futebol exclusivo para os patrícios. Essa discriminação se revelou uma péssima idéia, porque os impediu de atingir seu objetivo maior: disputar o Campeonato Carioca. A solução natural foi unir-se ao Vasco que, embora basicamente português, aceitava brasileiros. Assim, por acaso, meio sem querer, nasceu o futebol vascaíno. Em 1923, apenas sete anos após a estréia na terceira divisão, o clube chegou à divisão principal. Seus jogos no Campeonato repetiam uma rotina invariável: o Vasco começava jogando pior, até perdendo, mas no segundo tempo reagia e vencia. Qual o segredo da fulminante estratégia do “time da virada”?
Muito simples. Em plena vigência do amadorismo, enquanto os outros grandes times do Rio eram formados por estudantes, médicos, advogados etc. (que treinavam só às quintas-feiras e jogavam aos domingos), o Vasco tinha um time de verdadeiros jogadores de futebol. Recrutados no imenso contingente de desocupados e trabalhadores de baixa renda, esses homens não faziam outra coisa na vida a não ser treinar e jogar. Para burlar a legislação, o Vasco os empregava nos estabelecimentos comerciais da colônia portuguesa, e ainda lhes dava casa (com a criação de uma moradia coletiva, a concentração), comida (nos restaurantes portugueses) e gratificação por produtividade (o “bicho”, arrecadado entre os comerciantes). Desse modo, montou seu time titular – com três negros, um mulato e sete brancos pobres – e massacrou os adversários. Para ser “contratado”, era preciso já ser bom jogador. O Vasco não formava jogadores negros e mulatos, ele os achava nas peladas e nos clubes pequenos.
A experteza vascaína não pode ser confundida com a justa valorização do negro ou com a luta abolicionista no Brasil, na qual brilharam tricolores ilustres, como Coelho Netto. Já implantada na Inglaterra desde 1895 e na Argentina desde 1931, a profissionalização do jogador de futebol chegou ao Brasil em 1933, sob a forte liderança do Fluminense Football Club. Dez anos após a utilização do chamado “amadorismo marrom”, essa conquista criou um importante mercado de trabalho para os mais pobres e uma fabulosa oportunidade de ascenção social.
Na semana passada, lhes contei a conversa de meus amigos sobre as origens do pó-de-arroz, que se estendeu prolongadamente. Em síntese, dois aspectos se destacaram: a estupidez do preconceito de cor e a manipulação de fatos históricos, capaz de transformar o Fluminense em símbolo quase exclusivo de uma distorção presente, naquela época, em toda a vida nacional. Com relação ao primeiro aspecto, o Antonio Carlos – nosso maestro soberano – contou o caso do Sr. Luiz Antônio Feliciano Marcondes, que os cientistas concluiram ser portador de 67% de genes de origem européia. Como se trata do simpático sambista Neguinho da Beija Flor, o resultado produziu enorme surpresa, inclusive nele próprio. A explicação dos pesquisadores foi simples: “Os genes que determinam a cor da pele são uma parte ínfima do conjunto de genes de uma pessoa”. Ou seja: existe uma única raça humana.
O Angenor e o Adionson – negros com muito orgulho e tricolores de coração – conduziram a conversa para um aspecto que lhes causa especial indignação: por que o Fluminense recebeu, com exclusividade, o rótulo de clube preconceituoso? Por que clubes que se beneficiaram da condição socialmente inferior de negros e mulatos, ficaram com a fama de populares e igualitários? O assunto conduziu ao Clube de Regatas Vasco da Gama, fundado em 1899, por sessenta e dois portugueses, comerciantes em sua maioria.
Em 1913, uma seleção portuguêsa veio ao Rio enfrentar o Botafogo, na inauguração do campo de General Severiano. A colônia se animou e, no ano seguinte, fundou o Lusitânia, um clube de futebol exclusivo para os patrícios. Essa discriminação se revelou uma péssima idéia, porque os impediu de atingir seu objetivo maior: disputar o Campeonato Carioca. A solução natural foi unir-se ao Vasco que, embora basicamente português, aceitava brasileiros. Assim, por acaso, meio sem querer, nasceu o futebol vascaíno. Em 1923, apenas sete anos após a estréia na terceira divisão, o clube chegou à divisão principal. Seus jogos no Campeonato repetiam uma rotina invariável: o Vasco começava jogando pior, até perdendo, mas no segundo tempo reagia e vencia. Qual o segredo da fulminante estratégia do “time da virada”?
Muito simples. Em plena vigência do amadorismo, enquanto os outros grandes times do Rio eram formados por estudantes, médicos, advogados etc. (que treinavam só às quintas-feiras e jogavam aos domingos), o Vasco tinha um time de verdadeiros jogadores de futebol. Recrutados no imenso contingente de desocupados e trabalhadores de baixa renda, esses homens não faziam outra coisa na vida a não ser treinar e jogar. Para burlar a legislação, o Vasco os empregava nos estabelecimentos comerciais da colônia portuguesa, e ainda lhes dava casa (com a criação de uma moradia coletiva, a concentração), comida (nos restaurantes portugueses) e gratificação por produtividade (o “bicho”, arrecadado entre os comerciantes). Desse modo, montou seu time titular – com três negros, um mulato e sete brancos pobres – e massacrou os adversários. Para ser “contratado”, era preciso já ser bom jogador. O Vasco não formava jogadores negros e mulatos, ele os achava nas peladas e nos clubes pequenos.
A experteza vascaína não pode ser confundida com a justa valorização do negro ou com a luta abolicionista no Brasil, na qual brilharam tricolores ilustres, como Coelho Netto. Já implantada na Inglaterra desde 1895 e na Argentina desde 1931, a profissionalização do jogador de futebol chegou ao Brasil em 1933, sob a forte liderança do Fluminense Football Club. Dez anos após a utilização do chamado “amadorismo marrom”, essa conquista criou um importante mercado de trabalho para os mais pobres e uma fabulosa oportunidade de ascenção social.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
A Origem

Tricolores,
Ao longo de nossa história, a torcida tricolor tem dado sucessivas demonstrações de criatividade. Embora bem maior do que teimam em registrar pesquisas cujas metodologias nunca são muito claras, com certeza não somos os mais numerosos. Nem poderíamos. Não é simples formar um tricolor. Alguns de nós somos fruto de um longo processo de depuração, coisa de gerações; outros, são o produto de um esforço concentrado, que exigiu firmeza de princípios e convicções inabaláveis. Em suma, não cabe afobação ou improviso. Trata-se de um grupo com características diferenciadas, cuja sensibilidade para apoiar o time nos momentos difíceis - quando outras torcidas teriam aprofundado a crise -, a capacidade de reverter episódios inicialmente negativos, são demonstrações da grandeza da nossa gente.
Esse consenso surgiu aqui na minha turma durante a conversa sobre a manipulação de um episódio menor e de um rótulo inicialmente pejorativo que nos impuseram, e que nossa torcida, em sua vasta sabedoria, soube reverter por completo. Como perceberam, me refiro à origem do pó-de-arroz. Muitos já ouviram a história, mas talvez não conheçam os detalhes. Em 1914, o America se achava em grave crise, que o levou a perder dezenas de sócios, conselheiros e jogadores. Cerca de doze deles tomaram o caminho do Fluminense, entre os quais, os irmãos Carneiro de Mendonça: Fábio, Luiz Henrique e o grande Marcos! Nesse grupo, achava-se também Carlos Alberto Fonseca Neto.
Carlos Alberto não era negro, mas um mulato claro, o primeiro a vestir a camisa tricolor. É simplório e equivocado se dizer que, "naquele tempo, havia racismo no Fluminense", quando o problema era muito mais grave. O odioso preconceito de cor permeava toda a sociedade brasileira, de longa tradição escravagista, e se expressava, por exemplo, no comportamento de todos os clubes com sede na zona sul do Rio de Janeiro. Todos, sem exceção. Intimidado por esse ambiente hostil, muito antes de chegar ao Fluminense, Carlos Alberto adotava a prática de passar pó-de-arroz no rosto, antes de entrar em campo.
Em São Paulo, o famoso Friedenreich - El Tigre, como era chamado -, um mulato bem claro, de olhos verdes, tentava esconder sua etnia alisando o cabelo. Primeiro untava-o com brilhantina; depois, com o pente, puxava-o para trás e, a seguir, amarrava a cabeça com uma toalha, numa espécie de turbante. Toda essa operação precisava ser realizada durante a preliminar, pouco antes do jogo começar ou o resultado se perderia antes do final da partida. Muitas vezes, finalizando seus preparativos, Friedenreich atrasava a entrada do time em campo e, quase sempre, era o último jogador a pisar o gramado. O que parecia uma jogada promocional, era apenas o resultado de suas manobras capilares.
Mas e Carlos Alberto? Se ele já usava pó-de-arroz como jogador do America, por que não havia repercussão? Por que os americanos não foram chamados de "pó-de-arroz"? Cabe recordar dois aspectos: primeiro, ele era um reserva; segundo, jogava no America. Era quase um anônimo, portanto. Tão logo passou a jogar – algumas vezes - no time principal do Fluminense, o antigo hábito ganhou súbita e incontrolável notoriedade. Surgiram versões de que nossa Diretoria teria imposto essa condição para que Carlos Alberto vestisse a camisa tricolor, e as torcidas adversárias passaram a nos chamar de "pó-de-arroz". Toda vez que isso ocorria, ofendiam-se e brigavam tricolores de todas as etnias e condições sociais, ombro-a-ombro, sem distinção.
Eis a verdade: nunca houve qualquer interferência do clube ou ação alheia à vontade do próprio jogador, que já cultivava a exótica maquiagem antes de chegar à rua Álvaro Chaves. Além disso, era uma costumeira provocação entre as maiores torcidas da época, se chamar de “pó-disso” ou "pó-daquilo": os rubro-negros eram "pó-de-mico"; os vascaínos, "pó-da-pérsia", um remédio para vermes muito popular no início do século XX. E quando alguém queria ofender um tricolor, vinha logo com um "pó-de-arroz". Pensando melhor, pó-de-arroz era coisa fina, custava caro, cheirava bem, e a nossa torcida teve mérito de dar a volta por cima e incorporar o simpático e pacífico item à tradição tricolor.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Nas Ondas do Rádio
Tricolores,
Aqueles que nos dão a honra de acompanhar as conversas e recordações do meu grupo de tricolores desencarnados, já terão se habituado às extravagâncias do Adionson. Seu comparecimento a nossas reuniões é irregular, mas a presença do amigo é garantia de opiniões inusitadas, boas gargalhadas e eventuais confusões. Contribui para esse efeito, um de seus princípios de vida: "Se não puder ajudar, atrapalhe: o importante é participar".
Há algum tempo, Adionson se autoconferiu a condição de repórter, de modo que quando tratamos de algum aspecto relacionado à imprensa, ele se sente na obrigação de opinar e nos esclarecer sobre os "colegas". Creio já ter mencionado o nome do Isaac Amar, jornalista da década de 1930, a quem Adionson considera o seu "tipo inesquecível". Além da inegável competência profissional, Isaac não se intimidava com a eventual escassez de fatos relevantes. Se a realidade não tinha muita imaginação, ele tinha de sobra, e a utilizava para divertir seus leitores, em especial os tricolores.
O grande ídolo do Adionson é Oduvaldo Cozzi, "o maior locutor esportivo do rádio brasileiro, em todos os tempos". Cozzi construiu sua fama liderando grandes jornadas esportivas, entre as décadas de 1940 e 60. Foi o primeiro diretor artístico da Radio Nacional, trabalhou nas Rádios Mayrink Veiga, Guanabara e Continental, e chegou a atuar na TV Tupi. Oduvaldo Cozzi era considerado um locutor lírico, pela maneira criativa e as variadas metáforas com que descrevia os lances de uma partida de futebol. Tinha pronúncia impecável, um rico vocabulário e absoluto rigor com o uso do nosso idioma, a ponto de corrigir seus repórteres de campo, no ar: "Olha a concordância, rapaz!". Respeitado e querido, seu nome batizou o viaduto localizado na chegada do Maracanã, para quem vem da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Desculpem, se me perco em divagações e não trato logo do assunto de nossa última reunião. Como de hábito, ao falarmos de transmissões esportivas, o Adionson se propôs a nos contar uma história ocorrida com um outro famoso radialista tricolor: Arnaldo Augusto do Amaral Filho. De imediato, o Angenor se lembrou dele: "Esse cara gravou uma música minha, 'Fita os meus olhos', em 1933". De fato, Arnaldo Amaral iniciou no rádio como cantor, tendo defendido vários sucessos dos principais compositores da época. No entanto, em 1946, resolveu se tornar locutor e produtor de programas da Rádio Clube.
É justamente dessa época, o caso que o Adionson nos contou. Arnaldo Amaral comandava com grande sucesso o programa "Pescador de Estrelas", onde foram revelados Jamelão, Ângela Maria, Dóris Monteiro, Altamiro Carrilho, Alaíde Costa e tantos outros. Apaixonado por futebol e pelo nosso tricolor, resolveu também se dedicar à locução esportiva. Não houve qualquer dificuldade, pois Arnaldo tinha uma voz poderosa e, a essa altura, era um experiente profissional de rádio.
Ocorre que o ano era 1946, Gentil Cardoso chegara ao Fluminense clamando por Ademir Menezes e prometendo, em troca, o cobiçadíssimo título carioca. De fato, esse foi um dos campeonatos mais emocionantes de toda a história pois, ao término dos dois turnos, quatro equipes estavam rigorosamente empatadas e foi necessário um quadrangular para definir o supercampeão. Na partida final, contra o Botafogo, lá estava Arnaldo Amaral a narrar brilhantemente os lances decisivos. Quem o ouvisse, jamais desconfiaria de sua paixão pelo Fluminense. Até que Ademir aproveitou a distração de um zagueiro botafoguense e marcou o gol do título. Adionson contou que Arnaldo Amaral se despediu da neutralidade forçada e trovejou ao microfone da Rádio Clube: GOOOOOOOOOOL... NOSSO!
Aqueles que nos dão a honra de acompanhar as conversas e recordações do meu grupo de tricolores desencarnados, já terão se habituado às extravagâncias do Adionson. Seu comparecimento a nossas reuniões é irregular, mas a presença do amigo é garantia de opiniões inusitadas, boas gargalhadas e eventuais confusões. Contribui para esse efeito, um de seus princípios de vida: "Se não puder ajudar, atrapalhe: o importante é participar".
Há algum tempo, Adionson se autoconferiu a condição de repórter, de modo que quando tratamos de algum aspecto relacionado à imprensa, ele se sente na obrigação de opinar e nos esclarecer sobre os "colegas". Creio já ter mencionado o nome do Isaac Amar, jornalista da década de 1930, a quem Adionson considera o seu "tipo inesquecível". Além da inegável competência profissional, Isaac não se intimidava com a eventual escassez de fatos relevantes. Se a realidade não tinha muita imaginação, ele tinha de sobra, e a utilizava para divertir seus leitores, em especial os tricolores.
O grande ídolo do Adionson é Oduvaldo Cozzi, "o maior locutor esportivo do rádio brasileiro, em todos os tempos". Cozzi construiu sua fama liderando grandes jornadas esportivas, entre as décadas de 1940 e 60. Foi o primeiro diretor artístico da Radio Nacional, trabalhou nas Rádios Mayrink Veiga, Guanabara e Continental, e chegou a atuar na TV Tupi. Oduvaldo Cozzi era considerado um locutor lírico, pela maneira criativa e as variadas metáforas com que descrevia os lances de uma partida de futebol. Tinha pronúncia impecável, um rico vocabulário e absoluto rigor com o uso do nosso idioma, a ponto de corrigir seus repórteres de campo, no ar: "Olha a concordância, rapaz!". Respeitado e querido, seu nome batizou o viaduto localizado na chegada do Maracanã, para quem vem da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Desculpem, se me perco em divagações e não trato logo do assunto de nossa última reunião. Como de hábito, ao falarmos de transmissões esportivas, o Adionson se propôs a nos contar uma história ocorrida com um outro famoso radialista tricolor: Arnaldo Augusto do Amaral Filho. De imediato, o Angenor se lembrou dele: "Esse cara gravou uma música minha, 'Fita os meus olhos', em 1933". De fato, Arnaldo Amaral iniciou no rádio como cantor, tendo defendido vários sucessos dos principais compositores da época. No entanto, em 1946, resolveu se tornar locutor e produtor de programas da Rádio Clube.
É justamente dessa época, o caso que o Adionson nos contou. Arnaldo Amaral comandava com grande sucesso o programa "Pescador de Estrelas", onde foram revelados Jamelão, Ângela Maria, Dóris Monteiro, Altamiro Carrilho, Alaíde Costa e tantos outros. Apaixonado por futebol e pelo nosso tricolor, resolveu também se dedicar à locução esportiva. Não houve qualquer dificuldade, pois Arnaldo tinha uma voz poderosa e, a essa altura, era um experiente profissional de rádio.
Ocorre que o ano era 1946, Gentil Cardoso chegara ao Fluminense clamando por Ademir Menezes e prometendo, em troca, o cobiçadíssimo título carioca. De fato, esse foi um dos campeonatos mais emocionantes de toda a história pois, ao término dos dois turnos, quatro equipes estavam rigorosamente empatadas e foi necessário um quadrangular para definir o supercampeão. Na partida final, contra o Botafogo, lá estava Arnaldo Amaral a narrar brilhantemente os lances decisivos. Quem o ouvisse, jamais desconfiaria de sua paixão pelo Fluminense. Até que Ademir aproveitou a distração de um zagueiro botafoguense e marcou o gol do título. Adionson contou que Arnaldo Amaral se despediu da neutralidade forçada e trovejou ao microfone da Rádio Clube: GOOOOOOOOOOL... NOSSO!
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Os Canhões de Samarone
Tricolores,
O aniversário de 40 anos do nosso primeiro título nacional – a Taça de Prata - trouxe de volta às páginas da imprensa diversas figuras memoráveis. Entre tantos heróis tricolores, gostaria de chamar a atenção para o Sr. Wilson Gomes, o Samarone. Quero compartilhar a convicção de que uma nação não vive sem referenciais simbólicos e, portanto, esse universo mágico – misto de calções, chuteiras, suor e lágrimas – conhecido como Fluminense Football Club, é absolutamente dependente da defesa de seus valores fundamentais e da existência de certos personagens que condensam o ideal tricolor.
Um time pode viver do seu conjunto, do entrosamento, do acerto tático, mas o clube e a torcida não sobrevivem sem o ídolo. Digo isso, para falar do nosso Samarone. Na segunda metade da década de 60, o Samara foi uma figura fundamental, não apenas para a recuperação técnica do Fluminense, mas para manter coesa e motivada a nossa torcida. Samarone nasceu em Santos (SP), começou sua carreira na Portuguesa Santista, onde marcou o gol do título do Campeonato Paulista da 2ª Divisão de 1964.
Chegou ao Fluminense em 1965 e, apesar de ter transitado por alguns outros clubes, sempre se declarou um tricolor apaixonado. Sua experiência inicial foi difícil, o time era inexperiente, ele foi escalado fora de posição e tinha saudades de casa. Chegou a receber algumas vaias mas, com forte personalidade e confiança no seu futebol, declarou à Revista do Esporte no. 374: A torcida se enganou comigo. De fato, em breve, se tornou a liderança carismática do elenco. Com inteligência e malícia, Samarone dominava as ações de meio-de-campo, com técnica ou com catimba, o que se mostrasse mais útil no momento. Participou de 212 jogos e marcou 52 gols, conquistou os títulos cariocas de 1969 e 1971 e a Taça de Prata – o Campeonato Nacional da época - de 1970, quando foi homenageado com a Bola de Prata da Revista Placar.
Apesar de ter como principal característica a armação de jogadas para conclusão dos atacantes, também tinha um chute potente que deu origem a um de seus apelidos. Em alusão a um filme de sucesso de 1961, o locutor Waldyr Amaral criou Os Canhões de Samarone; pela fama de conquistador, Nelson Rodrigues o chamou Romeu da Praça Saens Peña e, as torcedoras, de Diabo Louro. Lamentavelmente, sua carreira foi prejudicada por três grandes obstáculos: duas hepatites, uma grave contusão nos ligamentos do joelho esquerdo e as idiossincrasias do Sr. Mario Jorge Lobo Zagallo.
Em 1971, com a chegada desse técnico ao Fluminense, Samarone se transferiu para o Corinthians e, a seguir, para o clube de regatas da Gávea. (Detalhe para a história: o Galinho era camisa 9 e Samara o camisa 10). Pouco depois, o mesmo treinador chegou ao clube, e ele foi emprestado à Portuguesa de Desportos. Nascido em família de classe média, formado em Engenharia Civil, Samarone – embora extremamente habilidoso para fugir da perseguição dos adversários - cansou-se de fazê-lo fora dos gramados e decidiu não engolir mais nada: abandonou a carreira e foi cuidar da vida no Paraná.
Este post é baseado em um texto do livro “Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu, em 2009.
O aniversário de 40 anos do nosso primeiro título nacional – a Taça de Prata - trouxe de volta às páginas da imprensa diversas figuras memoráveis. Entre tantos heróis tricolores, gostaria de chamar a atenção para o Sr. Wilson Gomes, o Samarone. Quero compartilhar a convicção de que uma nação não vive sem referenciais simbólicos e, portanto, esse universo mágico – misto de calções, chuteiras, suor e lágrimas – conhecido como Fluminense Football Club, é absolutamente dependente da defesa de seus valores fundamentais e da existência de certos personagens que condensam o ideal tricolor.
Um time pode viver do seu conjunto, do entrosamento, do acerto tático, mas o clube e a torcida não sobrevivem sem o ídolo. Digo isso, para falar do nosso Samarone. Na segunda metade da década de 60, o Samara foi uma figura fundamental, não apenas para a recuperação técnica do Fluminense, mas para manter coesa e motivada a nossa torcida. Samarone nasceu em Santos (SP), começou sua carreira na Portuguesa Santista, onde marcou o gol do título do Campeonato Paulista da 2ª Divisão de 1964.
Chegou ao Fluminense em 1965 e, apesar de ter transitado por alguns outros clubes, sempre se declarou um tricolor apaixonado. Sua experiência inicial foi difícil, o time era inexperiente, ele foi escalado fora de posição e tinha saudades de casa. Chegou a receber algumas vaias mas, com forte personalidade e confiança no seu futebol, declarou à Revista do Esporte no. 374: A torcida se enganou comigo. De fato, em breve, se tornou a liderança carismática do elenco. Com inteligência e malícia, Samarone dominava as ações de meio-de-campo, com técnica ou com catimba, o que se mostrasse mais útil no momento. Participou de 212 jogos e marcou 52 gols, conquistou os títulos cariocas de 1969 e 1971 e a Taça de Prata – o Campeonato Nacional da época - de 1970, quando foi homenageado com a Bola de Prata da Revista Placar.
Apesar de ter como principal característica a armação de jogadas para conclusão dos atacantes, também tinha um chute potente que deu origem a um de seus apelidos. Em alusão a um filme de sucesso de 1961, o locutor Waldyr Amaral criou Os Canhões de Samarone; pela fama de conquistador, Nelson Rodrigues o chamou Romeu da Praça Saens Peña e, as torcedoras, de Diabo Louro. Lamentavelmente, sua carreira foi prejudicada por três grandes obstáculos: duas hepatites, uma grave contusão nos ligamentos do joelho esquerdo e as idiossincrasias do Sr. Mario Jorge Lobo Zagallo.
Em 1971, com a chegada desse técnico ao Fluminense, Samarone se transferiu para o Corinthians e, a seguir, para o clube de regatas da Gávea. (Detalhe para a história: o Galinho era camisa 9 e Samara o camisa 10). Pouco depois, o mesmo treinador chegou ao clube, e ele foi emprestado à Portuguesa de Desportos. Nascido em família de classe média, formado em Engenharia Civil, Samarone – embora extremamente habilidoso para fugir da perseguição dos adversários - cansou-se de fazê-lo fora dos gramados e decidiu não engolir mais nada: abandonou a carreira e foi cuidar da vida no Paraná.
Este post é baseado em um texto do livro “Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu, em 2009.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Futebol não tem lógica
Tricolores,
O Stanislaw, um amigo aqui da nossa turma, é jornalista, escritor, humorista, compositor e showman, além de um mulherólogo muito respeitado na praça. É um completo apaixonado por futebol – de campo, salão, soçaite, areia ou botão – e, na juventude, foi goleiro de um time de Copacabana, treinado pelo lendário Neném Prancha. Sua paixão acabou virando trabalho, e ele escreveu um antológico livro de crônicas sobre a Copa de 1962: "Bola na rede: a batalha do bi". Quem o trouxe para o grupo foi o Angenor, que o conheceu em um momento difícil. Imaginem que o grande sambista entrara num desvio, numa fase negra da vida e lavava carros na Zona Sul do Rio. Stanislaw o reconheceu e, de imediato, estendeu a mão para a gloriosa volta por cima.
Frasista irreverente, bem ao gosto popular, Stanislaw nos surpreende pela visão original de fatos triviais e a forma criativa como a expressa. Sobre um certo técnico do futebol mineiro, habituado a dar explicações complicadas, ao fim das quais se exime de qualquer responsabilidade pelos maus resultados do seu time, ele é implacável: "É desses que cruzam cabra com periscópio, pra ver se arrumam um bode expiatório". Demoro-me a falar do amigo, porque justamente uma de suas frases originou prolongada conversa aqui no grupo.
Explico: lamentávamos alguns vacilos recentes do Fluminense, ao perder pontos para times de pouca expressão, mal situados na tabela, quando pensei dar uma justificativa para todos esses episódios, relacionando-os à reconhecida falta de lógica do futebol. Stanislaw discordou e foi veemente: "Quem diz que futebol não tem lógica, não entende de futebol ou não sabe o que é lógica". Diante de afirmação tão categórica, nos calamos para ouvir os argumentos do amigo. Em síntese, ele nos disse o seguinte.
O futebol não tem lógica... tem lógicas, que se cruzam e se complementam. Existe a lógica clássica, representada pelo conjunto das dezessete regras. É fácil entender, porque não há meio termo: é falta ou não é; é gol ou não é. Como sabemos, esse simplismo não sustenta a realidade cotidiana dos nossos clássicos e peladas. A regra é clara, claríssima, mas a sua aplicação depende da interpretação de um sujeito, o árbitro, criando um outro tipo de lógica, que transcende a anterior. Mas a existência das regras e do juiz são apenas pré-condições para o futebol, porque nada disso expressa o essencial: o jogo, os dois times que lutam para predominar sobre o outro. Do embate entre os dois adversários, da relativização das ações, virtudes e limitações de um pelo outro, surge uma outra lógica.
Essas três lógicas são ainda desafiadas pela ocorrência de fatores aleatórios, de natureza física, emocional ou cultural. Essa quarta lógica envolve tudo o que há no futebol de imprevisível e irracional, em suma, as interferências do Gravatinha ou do Sobrenatural de Almeida, como bem sintetizou o Profeta Tricolor. Essa costuma ser a lógica de muitos torcedores, que se ocupam em rezar, fechar os olhos, desligar o rádio, cruzar os dedos, beijar o santinho, usar a mesma roupa etc.
Em alguma medida, essas quatro lógicas podem ser encontrados em outros esportes ou situações de vida mas, de modo único, o futebol as apresenta com uma inversão da sua hierarquia habitual. Os elementos mais objetivos – a regra e o juiz – ficam em segundo plano, subordinados às relações entre os adversários e à ação dos fatores imponderáveis. Não casualmente, diz-se que o juiz é bom quando sua presença não é notada, e o mesmo se dá com as regras do jogo, que constituem uma espécie de fundo invisível.
Porque o futebol tem várias lógicas, que se organizam de maneira inversa à ânsia moderna por uma objetividade quantitativa, o esforço de patrocinadores e de parte da imprensa esportiva em subordiná-lo à "lógica dos números" e à tutela da tecnologia se deve à pretensão de domá-lo, torná-lo previsível, em geral para fins mercadológicos ou publicitários. No limite, podem roubar-lhe a alma, a própria essência que o torna, em todo o mundo, a paixão de milhões. Assim falou Stanislaw.
O Stanislaw, um amigo aqui da nossa turma, é jornalista, escritor, humorista, compositor e showman, além de um mulherólogo muito respeitado na praça. É um completo apaixonado por futebol – de campo, salão, soçaite, areia ou botão – e, na juventude, foi goleiro de um time de Copacabana, treinado pelo lendário Neném Prancha. Sua paixão acabou virando trabalho, e ele escreveu um antológico livro de crônicas sobre a Copa de 1962: "Bola na rede: a batalha do bi". Quem o trouxe para o grupo foi o Angenor, que o conheceu em um momento difícil. Imaginem que o grande sambista entrara num desvio, numa fase negra da vida e lavava carros na Zona Sul do Rio. Stanislaw o reconheceu e, de imediato, estendeu a mão para a gloriosa volta por cima.
Frasista irreverente, bem ao gosto popular, Stanislaw nos surpreende pela visão original de fatos triviais e a forma criativa como a expressa. Sobre um certo técnico do futebol mineiro, habituado a dar explicações complicadas, ao fim das quais se exime de qualquer responsabilidade pelos maus resultados do seu time, ele é implacável: "É desses que cruzam cabra com periscópio, pra ver se arrumam um bode expiatório". Demoro-me a falar do amigo, porque justamente uma de suas frases originou prolongada conversa aqui no grupo.
Explico: lamentávamos alguns vacilos recentes do Fluminense, ao perder pontos para times de pouca expressão, mal situados na tabela, quando pensei dar uma justificativa para todos esses episódios, relacionando-os à reconhecida falta de lógica do futebol. Stanislaw discordou e foi veemente: "Quem diz que futebol não tem lógica, não entende de futebol ou não sabe o que é lógica". Diante de afirmação tão categórica, nos calamos para ouvir os argumentos do amigo. Em síntese, ele nos disse o seguinte.
O futebol não tem lógica... tem lógicas, que se cruzam e se complementam. Existe a lógica clássica, representada pelo conjunto das dezessete regras. É fácil entender, porque não há meio termo: é falta ou não é; é gol ou não é. Como sabemos, esse simplismo não sustenta a realidade cotidiana dos nossos clássicos e peladas. A regra é clara, claríssima, mas a sua aplicação depende da interpretação de um sujeito, o árbitro, criando um outro tipo de lógica, que transcende a anterior. Mas a existência das regras e do juiz são apenas pré-condições para o futebol, porque nada disso expressa o essencial: o jogo, os dois times que lutam para predominar sobre o outro. Do embate entre os dois adversários, da relativização das ações, virtudes e limitações de um pelo outro, surge uma outra lógica.
Essas três lógicas são ainda desafiadas pela ocorrência de fatores aleatórios, de natureza física, emocional ou cultural. Essa quarta lógica envolve tudo o que há no futebol de imprevisível e irracional, em suma, as interferências do Gravatinha ou do Sobrenatural de Almeida, como bem sintetizou o Profeta Tricolor. Essa costuma ser a lógica de muitos torcedores, que se ocupam em rezar, fechar os olhos, desligar o rádio, cruzar os dedos, beijar o santinho, usar a mesma roupa etc.
Em alguma medida, essas quatro lógicas podem ser encontrados em outros esportes ou situações de vida mas, de modo único, o futebol as apresenta com uma inversão da sua hierarquia habitual. Os elementos mais objetivos – a regra e o juiz – ficam em segundo plano, subordinados às relações entre os adversários e à ação dos fatores imponderáveis. Não casualmente, diz-se que o juiz é bom quando sua presença não é notada, e o mesmo se dá com as regras do jogo, que constituem uma espécie de fundo invisível.
Porque o futebol tem várias lógicas, que se organizam de maneira inversa à ânsia moderna por uma objetividade quantitativa, o esforço de patrocinadores e de parte da imprensa esportiva em subordiná-lo à "lógica dos números" e à tutela da tecnologia se deve à pretensão de domá-lo, torná-lo previsível, em geral para fins mercadológicos ou publicitários. No limite, podem roubar-lhe a alma, a própria essência que o torna, em todo o mundo, a paixão de milhões. Assim falou Stanislaw.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Eu sou é tricolor, amém!
Tricolores,
Meu amigo João Paulo é um santo homem, uma das figuras mais queridas aqui do nosso pedaço, e desfruta de grande prestígio com a alta hierarquia da casa. Como talvez saibam, ele sequer é brasileiro ou carioca, mas a partir de 1980 - naquela decisão do Campeonato Carioca com o Vasco, quando aproveitamos sua presença na cidade e cantamos sua música -, João Paulo nos tem ajudado em muitos momentos decisivos.
Já lhes devo ter contado que meu amigo tem absoluta convicção de que o descrente mais empedernido muda radicalmente de atitude, quando está em campo o seu time de coração: "Nas arquibancadas, não existem ateus", ele nos ensina. De temperamento alegre, mas contido, João Paulo costuma ser muito discreto em suas falas e comentários. Em geral, usa parábolas ou faz citações bíblicas para expressar seu pensamento. Por isso, não poderia perder a rara oportunidade de lhes contar uma pequena história que o amigo nos confidenciou. Como se trata de um episódio bem antigo, tomarei a liberdade de manter o nome verdadeiro de seu protagonista: padre Antonio Romualdo da Silva.
Disse-nos o João Paulo, que padre Antonio Romualdo era um grande tricolor e não perdia um único jogo do Fluminense. Seguia nosso time a todos os estádios do país, acompanhado de uma inseparável máquina fotográfica, na qual registrava, orgulhoso, as jogadas de nossos craques. Sofria terrivelmente durante as partidas e, se por acaso perdíamos, era acometido por um mau humor profundo e demorado. Entre outras consequências, não concedia absolvição a ninguém. Justamente em uma segunda-feira, após uma decepcionante atuação tricolor, deu-se o fato que o João Paulo nos contou.
Após a missa da manhã, um rapaz procurou o religioso no confessionário, para aliviar sua alma aflita. Bastante impaciente, nosso padre ouviu o pecaminoso relato, e já preparava uma rigorosíssima penitência, quando o jovem atribuiu sua má conduta da véspera à derrota do Fluminense. João Paulo disse que a revelação inesperada permitiu ao padre Antonio Romualdo reavaliar a situação em outra perspectiva: "O jovem não era de todo mau. Errara, é certo, mas que fazer? São deslizes da juventude, coisa que a maturidade resolverá". Decidiu adverti-lo com severidade, determinou que se recolhesse à sua residência e, após profunda reflexão sobre os seus atos, se prostasse de joelhos e repassasse dez vezes seguidas o Hino do Fluminense. Completo!
Meu amigo João Paulo é um santo homem, uma das figuras mais queridas aqui do nosso pedaço, e desfruta de grande prestígio com a alta hierarquia da casa. Como talvez saibam, ele sequer é brasileiro ou carioca, mas a partir de 1980 - naquela decisão do Campeonato Carioca com o Vasco, quando aproveitamos sua presença na cidade e cantamos sua música -, João Paulo nos tem ajudado em muitos momentos decisivos.
Já lhes devo ter contado que meu amigo tem absoluta convicção de que o descrente mais empedernido muda radicalmente de atitude, quando está em campo o seu time de coração: "Nas arquibancadas, não existem ateus", ele nos ensina. De temperamento alegre, mas contido, João Paulo costuma ser muito discreto em suas falas e comentários. Em geral, usa parábolas ou faz citações bíblicas para expressar seu pensamento. Por isso, não poderia perder a rara oportunidade de lhes contar uma pequena história que o amigo nos confidenciou. Como se trata de um episódio bem antigo, tomarei a liberdade de manter o nome verdadeiro de seu protagonista: padre Antonio Romualdo da Silva.
Disse-nos o João Paulo, que padre Antonio Romualdo era um grande tricolor e não perdia um único jogo do Fluminense. Seguia nosso time a todos os estádios do país, acompanhado de uma inseparável máquina fotográfica, na qual registrava, orgulhoso, as jogadas de nossos craques. Sofria terrivelmente durante as partidas e, se por acaso perdíamos, era acometido por um mau humor profundo e demorado. Entre outras consequências, não concedia absolvição a ninguém. Justamente em uma segunda-feira, após uma decepcionante atuação tricolor, deu-se o fato que o João Paulo nos contou.
Após a missa da manhã, um rapaz procurou o religioso no confessionário, para aliviar sua alma aflita. Bastante impaciente, nosso padre ouviu o pecaminoso relato, e já preparava uma rigorosíssima penitência, quando o jovem atribuiu sua má conduta da véspera à derrota do Fluminense. João Paulo disse que a revelação inesperada permitiu ao padre Antonio Romualdo reavaliar a situação em outra perspectiva: "O jovem não era de todo mau. Errara, é certo, mas que fazer? São deslizes da juventude, coisa que a maturidade resolverá". Decidiu adverti-lo com severidade, determinou que se recolhesse à sua residência e, após profunda reflexão sobre os seus atos, se prostasse de joelhos e repassasse dez vezes seguidas o Hino do Fluminense. Completo!
Assinar Comentários [Atom]