sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Futebol não tem lógica
Tricolores,
O Stanislaw, um amigo aqui da nossa turma, é jornalista, escritor, humorista, compositor e showman, além de um mulherólogo muito respeitado na praça. É um completo apaixonado por futebol – de campo, salão, soçaite, areia ou botão – e, na juventude, foi goleiro de um time de Copacabana, treinado pelo lendário Neném Prancha. Sua paixão acabou virando trabalho, e ele escreveu um antológico livro de crônicas sobre a Copa de 1962: "Bola na rede: a batalha do bi". Quem o trouxe para o grupo foi o Angenor, que o conheceu em um momento difícil. Imaginem que o grande sambista entrara num desvio, numa fase negra da vida e lavava carros na Zona Sul do Rio. Stanislaw o reconheceu e, de imediato, estendeu a mão para a gloriosa volta por cima.
Frasista irreverente, bem ao gosto popular, Stanislaw nos surpreende pela visão original de fatos triviais e a forma criativa como a expressa. Sobre um certo técnico do futebol mineiro, habituado a dar explicações complicadas, ao fim das quais se exime de qualquer responsabilidade pelos maus resultados do seu time, ele é implacável: "É desses que cruzam cabra com periscópio, pra ver se arrumam um bode expiatório". Demoro-me a falar do amigo, porque justamente uma de suas frases originou prolongada conversa aqui no grupo.
Explico: lamentávamos alguns vacilos recentes do Fluminense, ao perder pontos para times de pouca expressão, mal situados na tabela, quando pensei dar uma justificativa para todos esses episódios, relacionando-os à reconhecida falta de lógica do futebol. Stanislaw discordou e foi veemente: "Quem diz que futebol não tem lógica, não entende de futebol ou não sabe o que é lógica". Diante de afirmação tão categórica, nos calamos para ouvir os argumentos do amigo. Em síntese, ele nos disse o seguinte.
O futebol não tem lógica... tem lógicas, que se cruzam e se complementam. Existe a lógica clássica, representada pelo conjunto das dezessete regras. É fácil entender, porque não há meio termo: é falta ou não é; é gol ou não é. Como sabemos, esse simplismo não sustenta a realidade cotidiana dos nossos clássicos e peladas. A regra é clara, claríssima, mas a sua aplicação depende da interpretação de um sujeito, o árbitro, criando um outro tipo de lógica, que transcende a anterior. Mas a existência das regras e do juiz são apenas pré-condições para o futebol, porque nada disso expressa o essencial: o jogo, os dois times que lutam para predominar sobre o outro. Do embate entre os dois adversários, da relativização das ações, virtudes e limitações de um pelo outro, surge uma outra lógica.
Essas três lógicas são ainda desafiadas pela ocorrência de fatores aleatórios, de natureza física, emocional ou cultural. Essa quarta lógica envolve tudo o que há no futebol de imprevisível e irracional, em suma, as interferências do Gravatinha ou do Sobrenatural de Almeida, como bem sintetizou o Profeta Tricolor. Essa costuma ser a lógica de muitos torcedores, que se ocupam em rezar, fechar os olhos, desligar o rádio, cruzar os dedos, beijar o santinho, usar a mesma roupa etc.
Em alguma medida, essas quatro lógicas podem ser encontrados em outros esportes ou situações de vida mas, de modo único, o futebol as apresenta com uma inversão da sua hierarquia habitual. Os elementos mais objetivos – a regra e o juiz – ficam em segundo plano, subordinados às relações entre os adversários e à ação dos fatores imponderáveis. Não casualmente, diz-se que o juiz é bom quando sua presença não é notada, e o mesmo se dá com as regras do jogo, que constituem uma espécie de fundo invisível.
Porque o futebol tem várias lógicas, que se organizam de maneira inversa à ânsia moderna por uma objetividade quantitativa, o esforço de patrocinadores e de parte da imprensa esportiva em subordiná-lo à "lógica dos números" e à tutela da tecnologia se deve à pretensão de domá-lo, torná-lo previsível, em geral para fins mercadológicos ou publicitários. No limite, podem roubar-lhe a alma, a própria essência que o torna, em todo o mundo, a paixão de milhões. Assim falou Stanislaw.
O Stanislaw, um amigo aqui da nossa turma, é jornalista, escritor, humorista, compositor e showman, além de um mulherólogo muito respeitado na praça. É um completo apaixonado por futebol – de campo, salão, soçaite, areia ou botão – e, na juventude, foi goleiro de um time de Copacabana, treinado pelo lendário Neném Prancha. Sua paixão acabou virando trabalho, e ele escreveu um antológico livro de crônicas sobre a Copa de 1962: "Bola na rede: a batalha do bi". Quem o trouxe para o grupo foi o Angenor, que o conheceu em um momento difícil. Imaginem que o grande sambista entrara num desvio, numa fase negra da vida e lavava carros na Zona Sul do Rio. Stanislaw o reconheceu e, de imediato, estendeu a mão para a gloriosa volta por cima.
Frasista irreverente, bem ao gosto popular, Stanislaw nos surpreende pela visão original de fatos triviais e a forma criativa como a expressa. Sobre um certo técnico do futebol mineiro, habituado a dar explicações complicadas, ao fim das quais se exime de qualquer responsabilidade pelos maus resultados do seu time, ele é implacável: "É desses que cruzam cabra com periscópio, pra ver se arrumam um bode expiatório". Demoro-me a falar do amigo, porque justamente uma de suas frases originou prolongada conversa aqui no grupo.
Explico: lamentávamos alguns vacilos recentes do Fluminense, ao perder pontos para times de pouca expressão, mal situados na tabela, quando pensei dar uma justificativa para todos esses episódios, relacionando-os à reconhecida falta de lógica do futebol. Stanislaw discordou e foi veemente: "Quem diz que futebol não tem lógica, não entende de futebol ou não sabe o que é lógica". Diante de afirmação tão categórica, nos calamos para ouvir os argumentos do amigo. Em síntese, ele nos disse o seguinte.
O futebol não tem lógica... tem lógicas, que se cruzam e se complementam. Existe a lógica clássica, representada pelo conjunto das dezessete regras. É fácil entender, porque não há meio termo: é falta ou não é; é gol ou não é. Como sabemos, esse simplismo não sustenta a realidade cotidiana dos nossos clássicos e peladas. A regra é clara, claríssima, mas a sua aplicação depende da interpretação de um sujeito, o árbitro, criando um outro tipo de lógica, que transcende a anterior. Mas a existência das regras e do juiz são apenas pré-condições para o futebol, porque nada disso expressa o essencial: o jogo, os dois times que lutam para predominar sobre o outro. Do embate entre os dois adversários, da relativização das ações, virtudes e limitações de um pelo outro, surge uma outra lógica.
Essas três lógicas são ainda desafiadas pela ocorrência de fatores aleatórios, de natureza física, emocional ou cultural. Essa quarta lógica envolve tudo o que há no futebol de imprevisível e irracional, em suma, as interferências do Gravatinha ou do Sobrenatural de Almeida, como bem sintetizou o Profeta Tricolor. Essa costuma ser a lógica de muitos torcedores, que se ocupam em rezar, fechar os olhos, desligar o rádio, cruzar os dedos, beijar o santinho, usar a mesma roupa etc.
Em alguma medida, essas quatro lógicas podem ser encontrados em outros esportes ou situações de vida mas, de modo único, o futebol as apresenta com uma inversão da sua hierarquia habitual. Os elementos mais objetivos – a regra e o juiz – ficam em segundo plano, subordinados às relações entre os adversários e à ação dos fatores imponderáveis. Não casualmente, diz-se que o juiz é bom quando sua presença não é notada, e o mesmo se dá com as regras do jogo, que constituem uma espécie de fundo invisível.
Porque o futebol tem várias lógicas, que se organizam de maneira inversa à ânsia moderna por uma objetividade quantitativa, o esforço de patrocinadores e de parte da imprensa esportiva em subordiná-lo à "lógica dos números" e à tutela da tecnologia se deve à pretensão de domá-lo, torná-lo previsível, em geral para fins mercadológicos ou publicitários. No limite, podem roubar-lhe a alma, a própria essência que o torna, em todo o mundo, a paixão de milhões. Assim falou Stanislaw.
Comentários:
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Tricolor, agradeço a sua contribuição, mas peço mais um pequeno esforço para nosso esclarecimento: qual a dificuldade em ler os posts até o final?
Os temas são desinteressantes?
São mal redigidos?
São muito extensos e cansativos?
Suas críticas e sugestões serão muito bem vindas.
Saudações Tricolores,
JT
Os temas são desinteressantes?
São mal redigidos?
São muito extensos e cansativos?
Suas críticas e sugestões serão muito bem vindas.
Saudações Tricolores,
JT
Ô "Anônimo" deixa de preguiça aí, cara.
Lê o post que tá muito bom e rende uma ótima discussão.
Abraços a todos,
Antonio
Lê o post que tá muito bom e rende uma ótima discussão.
Abraços a todos,
Antonio
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