sexta-feira, 9 de julho de 2010

Para uma galeria de Fla-Flus imortais (IV)

Tricolores,

Convenhamos, para tudo há um limite. Em que pese seu inesgotável potencial de glórias e emoções, já tinha encerrado nossa série sobre os Fla-Flus Imortais, mas precisei abrir uma exceção. Meu grupo conversava sobre a estranha fatalidade que faz todos os erros de arbitragem se voltarem contra nós, quando nos apareceu o João Paulo. Grande figura, tem muito prestígio por aqui. Embora não seja carioca, nem sequer brasileiro (mas seu patrão o é, e isso já nos foi de muita valia), tem demonstrado ser um tricolor de todos os momentos, sobretudo das horas mais difíceis. A razão de voltar aos Fla-Flus é que, ao nos ouvir protestar contra as arbitragens e, mais ainda, contra a inconsequência de seus erros, o João Paulo ponderou: "Já foi pior, meus irmãos, bem pior. Ouviram falar no Caixa Econômica?".

Trata-se do seguinte: contra toda as recomendações de discrição e conveniência, Caixa Econômica era o apelido de um bandeirinha da nossa Federação, lá pelo final da década de 1950. De antemão, a alusão a transações financeiras, investimentos e poupanças não era uma boa referência para o exercício profissional, mas o verdadeiro agravante eram suas atuações. Obviamente, a consagração definitiva não se poderia dar por um trivial impedimento mal assinalado ou a mera inversão de uma cobrança de lateral. Em abril de 1959, durante o segundo tempo de um Fla-Flu pelo Torneio Rio-São Paulo, o citado bandeirinha irrompeu de sua espessa obscuridade, adentrou as quatro linhas e lançou-se ao estrelato de uma forma original e inusitada: deu um passe para o centro-avante rubro-negro marcar um gol! A ação surpreendente e fulminante lançou a torcida tricolor em tal estupefação que sequer se sabe dizer se, após o passe bem sucedido, o Caixa Econômica também teria corrido para o abraço, beijado a camisa etc. Em resumo, perdemos de 2 a 0.

Diante da perplexidade do grupo, nosso João Paulo emendou: "E há pior, muito pior". Em outubro de 1916, o Fla-Flu corria duríssimo. Perdíamos por 2 a 1, mas estávamos à beira do empate, quando o árbitro nos puniu com um pênalti, tão conveniente quanto suspeito. Os rubro-negros desperdiçaram a cobrança. Logo a seguir, sem demonstrar desânimo, o juiz marcou outro pênalti contra o Fluminense. Marcos Carneiro de Mendonça defendeu. Denotando notável perseverança, Sua Senhoria mandou cobrar outra vez, mas novamente Marcos de Mendonça defendeu. Sem se deixar abater pela adversidade, o árbitro mandou cobrar de novo.
Aí foi demais: o escritor tricolor Coelho Neto invadiu o gramado, como um personagem de capa-e-espada, esgrimindo seu inseparável guarda-chuva. Nossa torcida o seguiu, tornando impossível a continuação da partida. Esse Fla-Flu foi a primeira anulação de um jogo de Campeonato Carioca. No dia 8 de dezembro, foi realizada uma nova partida e o Fluminense ganhou por 3x1. Vale registrar que o juiz não foi advertido, afastado dos nossos jogos ou suspenso duas rodadas, como se faz atualmente: ele jamais voltou a apitar uma partida de futebol no Rio de Janeiro. Bons tempos.

Ainda comentávamos a punição exemplar, tão em falta nos dias de hoje, quando João Paulo complementou: "E existe o caso da confissão oficial: por escrito e assinada!". Ouvimos, perplexos, o relato de mais esse assalto contra nossas cores. No Campeonato Carioca de 1922, no segundo turno, houve um Fla-Flu em General Severiano. A dois minutos do fim, jogo empatado em 2 x 2, o juiz nos anula o gol da vitória, sob a alegação de impedimento. Dessa vez, não invadimos o campo - talvez, pela ausência da liderança do espadachim Coelho Netto -, mas quase. Sob proteção policial, o juiz se refugiou no vestiário, onde redigiu a súmula histórica, reproduzida em todos os jornais do dia seguinte. Entre lamúrias, ressalvas e alegações atenuantes, reconhecia o seguinte: "Enganei-me ao registrar aquela falta. Fui ladrão, e quase fui feito em pedaços, o que só não se deu porque ajudaram-me alguns amigos. Não me julguem um venal etc. etc." Ouviram bem? Fui ladrão, confessou o gatuno. E não acrescentou um mísero ponto de exclamação, não alegou um constrangimento irresistível, doença na família, nada.

Encerrado o breve capítulo introdutório de uma longa história de infâmias, alguém observou que - nesse universo de Caixa Econômica, Caixa d'Água, caixa dois etc. -, além da paixão, é preciso muita fé para perseverar na torcida pelo Fluminense. João Paulo sentiu que era a sua deixa. Ergueu a fronte, sua face iluminou-se num efeito teatral e encerrou, taxativo: "Queridos irmãos, fé é o que não falta. Nas arquibancadas, não existem ateus".

Este post e baseado em um texto do livro "Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.

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