sexta-feira, 18 de junho de 2010
Por uma galeria de Fla-Flus imortais (3)
Tricolores,
Minha turma é totalmente avessa à tecnologia. A consequência é que desejam participar da composição da Galeria de Fla-Flus Imortais, mas alegam não saber "bater à máquina" (que é como denominam a digitação). Faço a justificativa porque o Angenor, notável compositor aqui do grupo, pediu que fizesse o registro de um episódio, para mim, até então desconhecido.
Mesmo os mais jovens já terão ouvido falar de Ary Barroso, mineiro da cidade de Ubá, notório radialista, compositor popular (como o Angenor), mas com uma mancha indelével em sua biografia futebolística. O Ary Barroso era (ou se dizia) tricolor, vivia em Álvaro Chaves, era homenageado, convidado a tocar piano em todas as festas etc. Certo dia, por motivo fútil ou de caso pensado, abandonou o nosso clube e se declarou rubro-negro. A súbita e espantosa conversão contrariou a todos. Outro compositor da época, Haroldo Barbosa, tricolor verdadeiro, nunca aceitou a deserção e não perdia oportunidade para provocar o Ary e aprontar-lhe alguma gozação.
Em um domingo de setembro de 1955, haveria um Fla-Flu que, antecipadamente, Ary Barroso anunciava como ganho pelo rubro-negro. Haroldo, confiante na vitória tricolor, propôs-lhe a aposta, logo aceita: "O seu bigode contra o meu. Quem perder raspa!". Ora, o bigode do Ary era sua marca registrada, havia quem especulasse já haver nascido com ele. Era mais crível vê-lo nu, no Centro da cidade, do que de cara limpa. Resultado do jogo: Fluminense 2x1. Segundo o trato, o encontro seria no Bar Casa Villarino, tradicional templo da boemia intelectual, onde cerca de 30 pessoas aguardavam o cumprimento da aposta. Mas, o Ary não apareceu.
Iniciaram-se as buscas, até que ele foi descoberto na casa da Linda Batista. Um batalhão de tricolores invadiu o apartamento da cantora disposto a fazê-lo cumprir o trato. De início, Ary alegou compromissos profissionais: precisava conservar o bigode, pelo menos até o sábado seguinte, em função de suas atividades na boate do Hotel Plaza. Diante da resistência geral, apelou para o argumento matrimonial: "A patroa não vai gostar. Isso ainda acaba em separação". Solícitos - e sem especular sobre a relevância conjugal do famoso bigode - os tricolores telefonaram para D. Ivone que deu a sentença inapelável: "Perdeu a aposta? Então, raspa!". Munido de um providencial aparelho de barbear, Haroldo Barbosa pôs abaixo o bigode do rubro-negro. Derrotado, Ary ainda arriscou um final épico: "Espero que o meu clube se inspire no meu sacrifício".
Era esse o Fla-Flu escolhido pelo Angenor. Para comprovar o que dizia, me entregou uma foto amarelada - com o Ary sem bigode -, publicada na revista O Cruzeiro, de 1963.Perguntei-lhe se tinha perdido a oportunidade de também gozar o famoso desertor. Ao seu jeito discreto, ele confessou lhe ter apenas cochichado: "Ary, disfarça e chora".
Este post e baseado em um texto do livro “Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Minha turma é totalmente avessa à tecnologia. A consequência é que desejam participar da composição da Galeria de Fla-Flus Imortais, mas alegam não saber "bater à máquina" (que é como denominam a digitação). Faço a justificativa porque o Angenor, notável compositor aqui do grupo, pediu que fizesse o registro de um episódio, para mim, até então desconhecido.
Mesmo os mais jovens já terão ouvido falar de Ary Barroso, mineiro da cidade de Ubá, notório radialista, compositor popular (como o Angenor), mas com uma mancha indelével em sua biografia futebolística. O Ary Barroso era (ou se dizia) tricolor, vivia em Álvaro Chaves, era homenageado, convidado a tocar piano em todas as festas etc. Certo dia, por motivo fútil ou de caso pensado, abandonou o nosso clube e se declarou rubro-negro. A súbita e espantosa conversão contrariou a todos. Outro compositor da época, Haroldo Barbosa, tricolor verdadeiro, nunca aceitou a deserção e não perdia oportunidade para provocar o Ary e aprontar-lhe alguma gozação.
Em um domingo de setembro de 1955, haveria um Fla-Flu que, antecipadamente, Ary Barroso anunciava como ganho pelo rubro-negro. Haroldo, confiante na vitória tricolor, propôs-lhe a aposta, logo aceita: "O seu bigode contra o meu. Quem perder raspa!". Ora, o bigode do Ary era sua marca registrada, havia quem especulasse já haver nascido com ele. Era mais crível vê-lo nu, no Centro da cidade, do que de cara limpa. Resultado do jogo: Fluminense 2x1. Segundo o trato, o encontro seria no Bar Casa Villarino, tradicional templo da boemia intelectual, onde cerca de 30 pessoas aguardavam o cumprimento da aposta. Mas, o Ary não apareceu.
Iniciaram-se as buscas, até que ele foi descoberto na casa da Linda Batista. Um batalhão de tricolores invadiu o apartamento da cantora disposto a fazê-lo cumprir o trato. De início, Ary alegou compromissos profissionais: precisava conservar o bigode, pelo menos até o sábado seguinte, em função de suas atividades na boate do Hotel Plaza. Diante da resistência geral, apelou para o argumento matrimonial: "A patroa não vai gostar. Isso ainda acaba em separação". Solícitos - e sem especular sobre a relevância conjugal do famoso bigode - os tricolores telefonaram para D. Ivone que deu a sentença inapelável: "Perdeu a aposta? Então, raspa!". Munido de um providencial aparelho de barbear, Haroldo Barbosa pôs abaixo o bigode do rubro-negro. Derrotado, Ary ainda arriscou um final épico: "Espero que o meu clube se inspire no meu sacrifício".
Era esse o Fla-Flu escolhido pelo Angenor. Para comprovar o que dizia, me entregou uma foto amarelada - com o Ary sem bigode -, publicada na revista O Cruzeiro, de 1963.Perguntei-lhe se tinha perdido a oportunidade de também gozar o famoso desertor. Ao seu jeito discreto, ele confessou lhe ter apenas cochichado: "Ary, disfarça e chora".
Este post e baseado em um texto do livro “Memorias Imortais, Glorias e Herois da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Comentários:
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Boa noite Blogueiro.
Excelente, mais uma vez.
Haveria, por acaso, uma foto do Ary Barroso com a camisa do Fluminense? Neste caso valeria a sua divulgação.
Julio Cesar
Obs.: Antigamente eu não conseguia postar comentário com a URL, mas depois melhorou. Agora não estou conseguindo postar, novamente, com a URL.
Excelente, mais uma vez.
Haveria, por acaso, uma foto do Ary Barroso com a camisa do Fluminense? Neste caso valeria a sua divulgação.
Julio Cesar
Obs.: Antigamente eu não conseguia postar comentário com a URL, mas depois melhorou. Agora não estou conseguindo postar, novamente, com a URL.
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