sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Preto no Branco

Tricolores,

Na semana passada, lhes contei a conversa de meus amigos sobre as origens do pó-de-arroz, que se estendeu prolongadamente. Em síntese, dois aspectos se destacaram: a estupidez do preconceito de cor e a manipulação de fatos históricos, capaz de transformar o Fluminense em símbolo quase exclusivo de uma distorção presente, naquela época, em toda a vida nacional. Com relação ao primeiro aspecto, o Antonio Carlos – nosso maestro soberano – contou o caso do Sr. Luiz Antônio Feliciano Marcondes, que os cientistas concluiram ser portador de 67% de genes de origem européia. Como se trata do simpático sambista Neguinho da Beija Flor, o resultado produziu enorme surpresa, inclusive nele próprio. A explicação dos pesquisadores foi simples: “Os genes que determinam a cor da pele são uma parte ínfima do conjunto de genes de uma pessoa”. Ou seja: existe uma única raça humana.

O Angenor e o Adionson – negros com muito orgulho e tricolores de coração – conduziram a conversa para um aspecto que lhes causa especial indignação: por que o Fluminense recebeu, com exclusividade, o rótulo de clube preconceituoso? Por que clubes que se beneficiaram da condição socialmente inferior de negros e mulatos, ficaram com a fama de populares e igualitários? O assunto conduziu ao Clube de Regatas Vasco da Gama, fundado em 1899, por sessenta e dois portugueses, comerciantes em sua maioria.

Em 1913, uma seleção portuguêsa veio ao Rio enfrentar o Botafogo, na inauguração do campo de General Severiano. A colônia se animou e, no ano seguinte, fundou o Lusitânia, um clube de futebol exclusivo para os patrícios. Essa discriminação se revelou uma péssima idéia, porque os impediu de atingir seu objetivo maior: disputar o Campeonato Carioca. A solução natural foi unir-se ao Vasco que, embora basicamente português, aceitava brasileiros. Assim, por acaso, meio sem querer, nasceu o futebol vascaíno. Em 1923, apenas sete anos após a estréia na terceira divisão, o clube chegou à divisão principal. Seus jogos no Campeonato repetiam uma rotina invariável: o Vasco começava jogando pior, até perdendo, mas no segundo tempo reagia e vencia. Qual o segredo da fulminante estratégia do “time da virada”?

Muito simples. Em plena vigência do amadorismo, enquanto os outros grandes times do Rio eram formados por estudantes, médicos, advogados etc. (que treinavam só às quintas-feiras e jogavam aos domingos), o Vasco tinha um time de verdadeiros jogadores de futebol. Recrutados no imenso contingente de desocupados e trabalhadores de baixa renda, esses homens não faziam outra coisa na vida a não ser treinar e jogar. Para burlar a legislação, o Vasco os empregava nos estabelecimentos comerciais da colônia portuguesa, e ainda lhes dava casa (com a criação de uma moradia coletiva, a concentração), comida (nos restaurantes portugueses) e gratificação por produtividade (o “bicho”, arrecadado entre os comerciantes). Desse modo, montou seu time titular – com três negros, um mulato e sete brancos pobres – e massacrou os adversários. Para ser “contratado”, era preciso já ser bom jogador. O Vasco não formava jogadores negros e mulatos, ele os achava nas peladas e nos clubes pequenos.

A experteza vascaína não pode ser confundida com a justa valorização do negro ou com a luta abolicionista no Brasil, na qual brilharam tricolores ilustres, como Coelho Netto. Já implantada na Inglaterra desde 1895 e na Argentina desde 1931, a profissionalização do jogador de futebol chegou ao Brasil em 1933, sob a forte liderança do Fluminense Football Club. Dez anos após a utilização do chamado “amadorismo marrom”, essa conquista criou um importante mercado de trabalho para os mais pobres e uma fabulosa oportunidade de ascenção social.

Comentários:
Maravilha de post. Alto nível.
Parabéns ao blogueiro e ao NETFLU.
Orgulho de ser tricolor,
Antonio
 
Boa noite Blogueiro
O seu texto, muito mais do que uma versão sobre a história do futebol no Rio de Janeiro, traz a balha questão que é objeto da Sociologia na vida acadêmica. Exemplo recorrente em aulas da disciplina acima, é usado em antagonismo aos jogadores de outros clubes.
A questão é realmente bem interessante, caso seja fato ou, ao menos, tese que se sustente em dados objetivos, e não na mera interpretação do autor.
Uma coisa é indiscutível: O texto é muito prazeiroso de se ler.
Parabéns, mais uma vez.
J. Cesar
 
Caro amigo, já sentia falta de seu comentário, sempre instigante.
Antes de qualquer coisa, devo lhe informar que não acredito na possibilidade de excluir a "interpretação do autor". Não concebo uma narrativa absolutamente isenta, por mais que honestamente se deseje. Não é uma questão de caráter, mas da natureza humana. Ou, como escreveu o nosso Profeta: "A neutralidade é uma aspiração de soldadinhos de chumbo".
No entanto, também posso lhe adiantar que são inúmeros os "dados objetivos" desconsiderados por outras narrativas (por incluirem as interpretações de seus respectivos autores), no esforço de nos atribuir (aos tricolores) rótulos descabidos.
Estamos aí à beira de um novo título nacional e eu e meus amigos seguimos com nossas conversas fantasmagóricas. Não sei até que ponto nossos companheiros tricolores se interessam por esse tipo de conversa, aqui do blog. Caso ainda conte com a paciência dos leitores do NETFLU, transcreverei futuramente as conversas que tivemos sobre o Zezé Procópio, o mulato do Botafogo que precisou fazer cirurgia plástica para afinar o nariz; sobre Gentil Cardoso, técnico que se autodenominava o "Moço Preto", que acusou o Vasco de demití-lo por preconceito, e tantos outros.
Obrigado pelo prestígio do comentário.
Saudações Tricolores,
J.T.
 

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