sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Rebelião dos Ressentidos

Tricolores,

"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / Navegar é preciso, viver não é preciso". Com esses versos, Fernando Pessoa garantiu imortalidade à frase de Pompeu, pronunciada há cerca de 22 séculos. O que quiseram assim expressar o general romano, o poeta português e os inúmeros outros que os citaram ao longo do tempo? Uma conclamação à coragem e ao sacrifício, dirigida a temerosos marinheiros, às vésperas de uma terrível batalha? Uma declaração de dedicação incondicional à arte e à aventura, sem preocupação com as questões mais banais da existência?

Meu amigo Antonio Carlos gosta de uma interpretação menos habitual, e não situa a declaração no campo das necessidades, mas no da precisão. Para ele, os mistérios da vida sempre trouxeram maior perplexidade do que qualquer desafio prático, e foi isso que os romanos quiseram expressar na famosa sentença. Mesmo consideradas as precárias condições da época, pareceu-lhes haver mais exatidão - ou precisão - no navegar do que no viver.

Toda essa sub-filosofia surgiu na conversa do meu grupo à propósito do mais mitológico clássico do futebol brasileiro: o Fla-Flu. Não sei se todos recordam o episódio. Restando poucas rodadas para vencermos o Campeonato de 1911, foram abertas duas vagas no Ground Committee, a comissão técnica que escalava nossa equipe. Um dos indicados foi Oswaldo Gomes, um nome ainda carente do devido reconhecimento em nossa história. Por escolha da diretoria, Oswaldo era o sub-capitão do primeiro quadro, o que o tornava candidato natural a uma das novas vagas ou à de capitão. Por gentileza, ele preferiu se candidatar ao Ground Committee, porque Alberto Borgerth - também membro da diretoria - era o indicado para capitão.

No dia da reunião, de modo inesperado, surgiu um candidato de oposição e a votação terminou empatada em 15 votos para cada um. Os sócios presentes acataram a sugestão do presidente da assembléia, e consideraram vencedor o candidato mais velho - Oswaldo Gomes - que, no entanto, julgou conveniente não aceitar a decisão. Enviou carta à diretoria demitindo-se da função de sub-capitão do primeiro quadro, e propôs a realização de nova assembléia para tratar do assunto das vagas.

Tudo inútil, sua vitória já havia ferido vaidades e despertado caprichos incontroláveis. Às vésperas do jogo contra o Rio Cricket, o Comitê divulgou a escalação da equipe mas, de forma inédita, Alberto Borgerth exigiu que os jogadores fossem consultados sobre a escalação, pois desejavam a substituição de Oswaldo Gomes por Arnaldo Guimarães, e de Paranhos pelo próprio Borgerth.

Tratava-se de uma evidente tentativa de golpe, uma tola insubordinação fundada no orgulho ferido e no fútil desejo de agredir Oswaldo. Obviamente, o Ground Committee manteve sua escalação e vencemos por 5x0. A vitória não foi suficiente para deter o curso da infâmia. No dia 3 de outubro, Alberto Borgerth e mais oito titulares solicitaram desligamento do Fluminense.

(CONTINUA NA PRÓXIMA 6ª. FEIRA)

Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.

Comentários:
Belo destino para os revoltosos: o inferno!
Saudações tricolores e abraços,
Júnior
 
muito interessante... o oswaldo foi um dos dois que ficaram no flu, não foi? só por isso deveriam ser mais reconhecídos, pq senão nao haveria o fluminense hoje

aguardando a segunda parte! ST
 
Junior, a chegada dos ex-tricolores ao "inferno" representou um grande choque cultural. Talvez por isso, tenham sido pessimamente recebidos.

Lucas, você tem toda razão. Vou pedir a meus amigos para "agendarmos" o Oswaldo Gomes para uma conversa próxima.

Muito obrigado pelos comentários.
Saudações Tricolores,
JT
 

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