sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Rebelião dos Ressentidos (Final)

Tricolores,

Na semana passada iniciei o relato de uma conversa de meus amigos sobre o tristemente famoso episódio de 1911. Como talvez recordem, nove de nossos jogadores do time campeão daquele ano organizaram um motim em nosso clube. O que pretendiam os desastrados golpistas? Tinham um plano, uma estratégia, um objetivo? Os rebeldes não tinham causa nem tinham nada, exceto vaidade e ressentimento. Não tinham sequer para onde ir. Alberto Borgerth sugeriu ao grupo a adesão ao Botafogo - hipótese absurda, por se tratar do campeão do ano anterior e o adversário a ser batido; outros, pensaram em reforçar o Paysandu – hipótese também afastada, por se tratar de um clube exclusivamente de ingleses.

Sem qualquer opção, restou-lhes entrar pela porta dos fundos de um grupo de regatas – nome original utilizado na fundação, em 1895 -, cujo único atrativo era, então, situar-se do outro lado da calçada, na Rua Paysandu. Essa agremiação nunca manifestou qualquer desejo ou satisfação em recebê-los e, além disso, havia uma barreira cultural intransponível. Os ex-tricolores se habituaram a bailes elegantes na sede do clube, quando dançavam com as filhas das melhores famílias da cidade. Os remadores costumavam realizar uma festa na garagem dos barcos e, sem a presença feminina, dançavam uns com os outros, em uma celebração denominada reco-reco. Um troço estranho mesmo.

Como demonstrações definitivas de rejeição, o grupo de regatas jamais incluiu a palavra “Futebol” no nome do clube e negou permissão para o uso da camisa oficial do remo. Fruto da humilhação e da necessidade, nasceu de improviso a patética papagaio-de-vintém, pois os quadrados vermelhos e pretos lembravam pipas ou papagaios de empinar, que se compravam por qualquer vintém. A seguir, veio a cobra coral, com listras horizontais pretas e vermelhas, mas com um friso branco a separá-las.

Foi nesse ponto de nossas recordações que avançamos pelo ilustre terreno da filosofia de botequim, e meus amigos associaram a imprecisão do viver ao indecifrável enigma da alma humana, ao imponderável que determina as reações dos indivíduos e das coletividades. Por vezes, o sujeito sobrevive melhor à bofetada do que à mão estendida. Há quem sinta na solidariedade, humilhação maior e mais indesculpável do que na agressão física.

A imaturidade dos amotinados não apenas os conduzira a um clube hostil, sem qualquer tradição ou motivação para o esporte que praticavam, como os impossibilitava de disputar o Campeonato Carioca de 1912, já que não atendiam a duas exigências básicas: oferecer um campo para sediar seus jogos e ter, no mínimo, um ano de filiação à Liga Metropolitana de Sports Athléticos. Alberto Borgerth, conduzira seus oito liderados ao abismo, a um impasse insuperável, a respeito do qual o grupo de regatas que lhes cedera o quarto dos fundos não tinha qualquer interesse em se envolver.

O que fez o Fluminense Football Club diante do infortúnio de seus golpistas? Eles mesmos teriam, talvez, o secreto desejo de experimentar terríveis perseguições e sacrifícios, de viver uma jornada heróica que lhes purgasse as falhas de conduta.

Nada disso se deu. O próprio Alberto Borgerth, em depoimento publicado no Boletim do Fluminense, em junho de 1952, explica que o clube lhes alugou, a preço simbólico, o uso de seu histórico campo e fez valer seu imenso pretígio junto à Liga para obter a alteração do regulamento e a autorização para a participação no Campeonato de 1912 - vencido, na versão da Liga, pelo Paysandu (e pelo Botafogo, na versão da Associação de Football do Rio de Janeiro).

Esse terá sido o equívoco fatal, pois a demonstração de fidalguia e solidariedade – ou, quem sabe, mera indiferença - só fez acirrar a fúria dos ressentidos, que ainda se consolidou com a surpreendente derrota no primeiro Fla-Flu, cujas razões constituem o enigma mais claro e evidente do futebol carioca.

A vocação para o ressentimento acompanhou os desertores como uma doença congênita. Ao longo da história, esse grupo de regatas se transformaria no endereço certo dos que não conseguiram ser ou se manter tricolores, como o grande ícone da torcida rubro-negra, o baiano Jaime de Carvalho. Em 1927, tão logo chegou ao Rio, foi assistir a um jogo do Fluminense. Simpatizou com o clube, quis associar-se, mas teve lá algum capricho não atendido. Refém da predeterminação histórica, não lhe restou opção: juntou-se aos remadores.

Este post é baseado em um texto do livro “Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.


Comentários:
J.T. não possuo outro adjetivo para o post senão Magnífico!

Espero que não se importe, pois postarei uma cópia em mais uma casa tricolor:
www.canelada.com.br/fluminense

Obviamente, os devidos créditos serão dados!

No mais, parabens, devorei ambos os textos com a fome literária de um naufrágo radicado à semanas que se depara com um banquete!
Parabens pela belíssima obra!
 
Genial! que Deus o mantenha entre seus eleitos, JT.
Rema, rema, remador; que o Fla-Flu é um "Ai Jesús"!
(Altamiro)
 
Postado: Fluminense! Um Exemplo de grandeza! Um belo texto galera! http://bit.ly/bd3nnj
 
Fabuloso!!!

Saudações Tricolores do Céu e da Terra!!!

Douglas
 
Boa noite Blogueiro
É... Neste caso, ser tricolor não é mera opção. É questão de preenchimento de requisitos.
Como nem tudo é Lombrosiano, cabe a nós mostrar o caminho àqueles que se encontram perdidos ou, mesmo, tentar recuperar os que seguiram caminho equivocado.
Nesse caso, a torcida não tem se cansado de dar exemplo e fazer a diferença.
Espero que o clube ajude, mantendo a "linha" que caracateriza a sua história.
Mais uma bela narrativa. Parabéns.
J. Cesar
 
Prezados companheiros tricolores - Lula, Altamiro, Douglas e Julio Cesar - muito obrigado pelos comentários e pelo incentivo.

Lula, obrigado pela honra de divulgar o texto em outra "casa tricolor". Fique à vontade para fazê-lo toda vez que julgar adequado.

Como tricolores, além dos inigualáveis espetáculos que damos no Maracanã, creio termos o dever de divulgar e esclarecer o significado mais amplo e profundo de ser Fluminense. Algumas vezes, o modo de fazê-lo é destacando as diferenças.

Saudações Tricolores,
JT
 
JT, como fazemos para comprar o livro de sua autoria?

abraço.

Marcos (Vitória)
 
Prezado Marcos,
Muito obrigado pelo interesse no livro.
No momento, ele está à venda apenas na Fluboutique, lá no clube. Suponho que lhe seja difícil ir até lá, não é? :-)
Talvez você possa fazer contato com eles, por e-mail ou telefone.
Se não funcionar, me escreva e, com certeza, daremos um jeito: memorias@jtdecarvalho.com
Grande abraço.
Saudações Tricolores,
JT
 

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