segunda-feira, 26 de julho de 2010
Um Homem de Moral
Tricolores,
No Brasil, no início do século XX, o futebol era um esporte amplamente discriminado. Muitos o acusavam de ser uma prática bárbara e violenta, um estrangeirismo inoportuno e intelectuais - ditos "populares" – o rotulavam como elitista e segregador. Com genial clarividência, o tricolor Coelho Neto acolheu e incentivou a nova prática, não apenas por suas características esportivas, mas por antever seu imenso potencial na educação de jovens e na construção de exemplos positivos para a população. A necessidade do esforço coletivo, a vitória como produto do talento e do trabalho exaustivo, enfim, vários aspectos do futebol se apresentavam como oportunos elementos para a pedagogia de uma ética popular.
Ao longo do século passado, todos testemunhamos os usos e abusos ocorridos. Para tomar apenas um caso mais notório, há muito a seleção brasileira declinou da honrosa posição de "pátria de chuteiras" para se transformar em uma trupe mambembe, que disputa patrocínios e cachês milionários no mercado internacional. Um marco inicial dessa nova tendência pode ser encontrado na Copa de 1974, na Alemanha. Naquela competição, ao marcar um gol, os principais jogadores brasileiros corriam em direções divergentes, a fim de comemorá-lo à frente das placas de propaganda de seus respectivos patrocinadores.
No histórico dia de 23 de julho de 2010, a reunião do meu grupo retomou essas lembranças lamentáveis em função de um episódio singelo e exemplar, que determinou, ainda que provisoriamente, a vitória da ética sobre a arrogância. Acostumado aos paparicos interesseiros de certa parte da imprensa esportiva e ao beija-mão dos arrivistas costumeiros, a CBF protagonizou uma ligeira peça em dois atos, que deveria ser melhor explorada em todo o seu potencial revelador do que é e do que poderia ser o ambiente esportivo no Brasil.
Na primeira parte dessa tragicomédia, um profissional respeitado e vitorioso é chamado às escondidas, à revelia do seu empregador, para ser aliciado com uma proposta supostamente irrecusável, à qual todos se curvariam, pela qual vários venderiam a alma. Previamente a qualquer análise ou avaliação mais ampla, o resultado da conversa é divulgado de forma unilateral. De imediato, sem qualquer outra consideração, a imprensa alardeia a versão, como se fosse um fato. No segundo ato, vem o moral da história e, para a surpresa e incompreensão de muitos, os valores predominam sobre o preço. Para consagrar e resumir tudo o que o mundo do futebol e a sociedade brasileira têm a aprender com o episódio, talvez baste enunciar a única declaração do herói do dia: "Se o Flu não me liberar, o papo vai ser encerrado. Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos".
Com perdão do simplismo, sugiro a possibilidade de substituirmos a Constituição Federal, o Código Civil e todo o nosso moroso e ineficiente aparato legal pela nova Lei de Muricy: "Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos". Ao invés de consultar complexos artigos e parágrafos, talvez bastasse a qualquer cidadão fazer essa singela reflexão: "essa minha decisão, esse meu gesto, será um exemplo para os meus filhos ou para os jovens, em geral?". No conto "Insônia", Graciliano Ramos relata a angústia de um sujeito que acorda, no meio da madrugada, atormentado pela seguinte questão: "Sim ou não?". Não há contexto, não há informações externas, e ele precisa ansiosamente decidir: "sim ou não?". Foi também baseado exclusivamente em seu referencial ético, que Muricy Ramalho decidiu. Aqui, à distância, Telê Santana há de ter sorrido, discretamente.
No Brasil, no início do século XX, o futebol era um esporte amplamente discriminado. Muitos o acusavam de ser uma prática bárbara e violenta, um estrangeirismo inoportuno e intelectuais - ditos "populares" – o rotulavam como elitista e segregador. Com genial clarividência, o tricolor Coelho Neto acolheu e incentivou a nova prática, não apenas por suas características esportivas, mas por antever seu imenso potencial na educação de jovens e na construção de exemplos positivos para a população. A necessidade do esforço coletivo, a vitória como produto do talento e do trabalho exaustivo, enfim, vários aspectos do futebol se apresentavam como oportunos elementos para a pedagogia de uma ética popular.
Ao longo do século passado, todos testemunhamos os usos e abusos ocorridos. Para tomar apenas um caso mais notório, há muito a seleção brasileira declinou da honrosa posição de "pátria de chuteiras" para se transformar em uma trupe mambembe, que disputa patrocínios e cachês milionários no mercado internacional. Um marco inicial dessa nova tendência pode ser encontrado na Copa de 1974, na Alemanha. Naquela competição, ao marcar um gol, os principais jogadores brasileiros corriam em direções divergentes, a fim de comemorá-lo à frente das placas de propaganda de seus respectivos patrocinadores.
No histórico dia de 23 de julho de 2010, a reunião do meu grupo retomou essas lembranças lamentáveis em função de um episódio singelo e exemplar, que determinou, ainda que provisoriamente, a vitória da ética sobre a arrogância. Acostumado aos paparicos interesseiros de certa parte da imprensa esportiva e ao beija-mão dos arrivistas costumeiros, a CBF protagonizou uma ligeira peça em dois atos, que deveria ser melhor explorada em todo o seu potencial revelador do que é e do que poderia ser o ambiente esportivo no Brasil.
Na primeira parte dessa tragicomédia, um profissional respeitado e vitorioso é chamado às escondidas, à revelia do seu empregador, para ser aliciado com uma proposta supostamente irrecusável, à qual todos se curvariam, pela qual vários venderiam a alma. Previamente a qualquer análise ou avaliação mais ampla, o resultado da conversa é divulgado de forma unilateral. De imediato, sem qualquer outra consideração, a imprensa alardeia a versão, como se fosse um fato. No segundo ato, vem o moral da história e, para a surpresa e incompreensão de muitos, os valores predominam sobre o preço. Para consagrar e resumir tudo o que o mundo do futebol e a sociedade brasileira têm a aprender com o episódio, talvez baste enunciar a única declaração do herói do dia: "Se o Flu não me liberar, o papo vai ser encerrado. Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos".
Com perdão do simplismo, sugiro a possibilidade de substituirmos a Constituição Federal, o Código Civil e todo o nosso moroso e ineficiente aparato legal pela nova Lei de Muricy: "Eu tenho que dar exemplo para os meus filhos". Ao invés de consultar complexos artigos e parágrafos, talvez bastasse a qualquer cidadão fazer essa singela reflexão: "essa minha decisão, esse meu gesto, será um exemplo para os meus filhos ou para os jovens, em geral?". No conto "Insônia", Graciliano Ramos relata a angústia de um sujeito que acorda, no meio da madrugada, atormentado pela seguinte questão: "Sim ou não?". Não há contexto, não há informações externas, e ele precisa ansiosamente decidir: "sim ou não?". Foi também baseado exclusivamente em seu referencial ético, que Muricy Ramalho decidiu. Aqui, à distância, Telê Santana há de ter sorrido, discretamente.
Comentários:
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Boa tarde Blogueiro
A moral pelo direito sucumbiria ante ao ativismo de intérpretes que, sob a argumentação da independência, da justiça e, se não sobrar mais nenhum, quem sabe da própria dignidade humana, acabariam "interpretando" a moral de uma forma diferente.
A questão vem da formação do ser humano, lá atrás. Lá onde a família tem um papel fundamental.
Aí o mérito do Muricyl, ainda que, no fundo, tenhamos que conviver, durante algumas rodadas, com a inevitável tristeza do comandante.
J. Cesar
A moral pelo direito sucumbiria ante ao ativismo de intérpretes que, sob a argumentação da independência, da justiça e, se não sobrar mais nenhum, quem sabe da própria dignidade humana, acabariam "interpretando" a moral de uma forma diferente.
A questão vem da formação do ser humano, lá atrás. Lá onde a família tem um papel fundamental.
Aí o mérito do Muricyl, ainda que, no fundo, tenhamos que conviver, durante algumas rodadas, com a inevitável tristeza do comandante.
J. Cesar
Sinceramente, meus amigos, não vi essa tristeza no Muricy.
Considerando essa entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=VcKutynI8WE&feature=player_embedded#!
parece que ele não tinha ilusões quanto a essa "grande honra".
Obrigado pelos comentários.
Saudações Tricolores.
Considerando essa entrevista: http://www.youtube.com/watch?v=VcKutynI8WE&feature=player_embedded#!
parece que ele não tinha ilusões quanto a essa "grande honra".
Obrigado pelos comentários.
Saudações Tricolores.
Pois é, Bia, quem sabe a nova "Lei de Muricy" substitui a "Lei de Gérson", aquela de levar vantagem em tudo?
(que, na verdade, deveria se chamar "Lei do Vila Rica", a marca do cigarro).
Um abraço,
JT
(que, na verdade, deveria se chamar "Lei do Vila Rica", a marca do cigarro).
Um abraço,
JT
Aliás, vale ressaltar: você fez o primeiro comentário feminino desse blog.
Bem vinda, escreva sempre.
Bem vinda, escreva sempre.
Num país, talves num mundo, onde a impunidade, a imoralidade e o desrespeito generalizado e a falta de carater das pessoas fazem parte do nosso dia-a-dia, a atitude do Muricy destoa completamente do pensamento coletivo. O deveria ser a regra se torna uma surpresa.
Que este exemplo nos sirva a todos, principalmente meus filhos também, para acreditarmos que é possível sim sermos homens descentes neste mundo de tantas perversidades...
Aproveitando minha enpolgação, fecho com uma breve resposta do Muricy ao ser perguntado por um reporter "...e se o Fluminense, ao entrar em maus resultados, vier a te despedir?"
Muricy: "Eu faço a minha parte."
DEUS ABENÇOE MURICY RAMALHO!
SAUDAÇÕES TRICOLORES DO CÉU E DA TERRA!!!
DOUGLAS
Que este exemplo nos sirva a todos, principalmente meus filhos também, para acreditarmos que é possível sim sermos homens descentes neste mundo de tantas perversidades...
Aproveitando minha enpolgação, fecho com uma breve resposta do Muricy ao ser perguntado por um reporter "...e se o Fluminense, ao entrar em maus resultados, vier a te despedir?"
Muricy: "Eu faço a minha parte."
DEUS ABENÇOE MURICY RAMALHO!
SAUDAÇÕES TRICOLORES DO CÉU E DA TERRA!!!
DOUGLAS
É isso mesmo, Douglas. A canalhice se incorporou ao senso comum. Quem age corretamente, tem que dar explicações, porque a princípio ninguém entende.
Com sua postura, creio que o Muricy se incorporou, definitivamente, à cultura e à História do Fluminense.
Grande abraço.
Com sua postura, creio que o Muricy se incorporou, definitivamente, à cultura e à História do Fluminense.
Grande abraço.
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