sexta-feira, 16 de julho de 2010

O Gênio da Folha Seca

Tricolores,

Confesso uma certa desmotivação do meu grupo com relação à recente Copa do Mundo. Acompanhamos os jogos na África do Sul, mas nossas preocupações não puderam se afastar de Álvaro Chaves. O João Paulo nos dispensou da tentativa de compreender o fenômeno: "Irmãos, no mundo, há coisas para entender e coisas para decorar. O Fluminense é nossa paixão maior e incontrastável. Esse fato dispensa explicações: eis o mistério da fé!". Nas raras vezes em que conversamos sobre o torneio mundial, surgiram lembranças sobre os grandes craques de antigas seleções e, dentre eles, Didi. Como devem estar a par, Waldir Pereira nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) - cidade que também nos deu Pinheiro, Evaldo e Denílson -, em 8 de outubro de 1928. Talvez poucos se recordem do início de sua carreira, em 1944, nos juvenis do São Cristóvão. Em 1945, voltou a Campos para jogar pelo Industrial e, a seguir, pelo Rio Branco, clube no qual se tornou jogador profissional.

Em 1948, se destacou atuando pelo Madureira e, no ano seguinte, já estava no Fluminense, onde se afirmou como um dos maiores craques do futebol brasileiro. Com a camisa tricolor, Didi foi Campeão Carioca em 1951, liderando o "timinho" de Zezé Moreira, ao lado de Castilho, Pinheiro e Telê. Na quinta rodada do turno desse campeonato, ganhamos do Bangu por 5 x 3 e Didi marcou o último gol da partida, segundo ele, o mais bonito de sua carreira. Em 1950, atuando pela seleção carioca fez o primeiro gol da história do Maracanã e, em 1952, ano do nosso Cinquentenário, nos ajudou a conquistar o título mundial interclubes, a II Taça Rio.

Em 1956, em um jogo contra o América, Didi lançou uma técnica inédita de cobrar faltas, sua contribuição mais original para o universo do futebol: a folha seca. O chute nasceu após uma contusão no pé direito, da qual custava a se recuperar. Diante da necessidade de permanecer no time, Didi criou um modo engenhoso de chutar, preservando a região machucada. Após ultrapassar a barreira, a bola descrevia uma curva e, de súbito, descaía nas redes adversárias. Ao perceber sua semelhança com uma folha de outono, vagando incerta ao sabor do vento, o tricolor Oduvaldo Cozzi - o maior locutor da época -, criou a poética expressão e ajudou a popularizar a jogada. A consagração internacional da folha seca ocorreu nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958, contra a Seleção do Peru, quando Didi marcou um gol de falta nesse estilo.

O "Príncipe Etíope", como Nelson Rodrigues o denominou, era um negro esguio, de passadas largas, cabeça erguida, estilo clássico e elegante. Tratava a bola – a quem se referia como "a criança" – com carinho e precisão. Em retribuição, ela o seguia docilmente, "quase a lhe lamber as chuteiras, como uma cadelinha amestrada", em mais uma citação do Profeta Tricolor. Porém, mais que tudo, Waldir Pereira mudou a história do futebol mundial pois, até a sua época, os grandes meias abasteciam os atacantes com passes em linha reta, à média e curta distâncias. Valendo-se de uma balística original, Didi vinculou o passe longo à essência do jogo.

Recordamos que Didi jogou 298 partidas pelo Fluminense e marcou 91 gols mas, em 1956, se transferiu para o Botafogo. Nesse ponto, fomos tomados por total perplexidade. Por que o gênio da folha seca nunca foi identificado como um herói tricolor? Por que nos desfizemos de um craque tão espetacular? A oferta foi irrecusável? Nosso adversário tinha uma situação financeira melhor do que a nossa? Houve algum problema entre o clube e o jogador? Nossa conversa ainda continuou por bastante tempo e prometo esclarecê-los desses detalhes na próxima semana.

Comentários:
Não tive a satisfação de vivenciar tais tempos de nosso Fluzão, mas sinto-me em tais épocas por esta excelente seção. Parabéns!
A história do Didi sempre me foi uma grande curiosidade, pois antigamente os ídolos não costumavam trair as torcidas que o veneravam. Assim, nunca entendi sua saída, ainda mais por ouvir falar que ele era tricolor.
E aí, o que tem a me dizer?
Abraços,
Júnior
 
Pois é, Junior, Didi nunca foi tricolor mas era um grande craque, que teve grandes momentos conosco.
O que terá havido? Na próxima sexta, continuo essa conversa e você vai poder avaliar a situação.
Obrigado pelo comentário e saudações tricolores!
 
Boa tarde Blogueiro
Há muito estou sem postar comentários em sua coluna, já que não consigo utilizar a minha URL e não gosot de assinar como "anônimo", mas uma vez venho agradecer-lhe pelo texto, e pela reflexão, talvez de inconsciente provocação: Afinal, o ídolo necessita ter a mesma paixão de quem o idolatra?
Didi também foi técnico de futebol no Fluminense e, aalvo engano, conseguir glória neste ofício.
Parabéns, outra vez.
J. Cesar
 
Olá, Julio Cesar, seus comentários têm feito falta.

No nosso caso, não há problema em postar como anônimo, já que temos uma identidade em comum: somos tricolores!

Na próximo sexta, concluirei nossa conversa sobre o Didi. Ela talvez aborde fatos de pouco conhecimento da torcida.

Saudações Tricolores.
 
Ah! Lembro-me que vc ficou mesmo de esclarecer algumas informações sobre meu conterrâneo Didi.
Bem, por ter uma familia de botafoguenses, salvando-se um tio que me iniciou na paixão tricolor, e sabendo da quantidade de torcedores do Botafogo em Campos, acredito que a era Didi no tricolor terminou por uma opção pessoal, um desejo do próprio jogador. Acertei?
Já anseio pela conclusão desta história!

Saudações Tricolores do Céu e da Terra!!!

Douglas
 
Olá, Douglas, seus comentários são sempre bem vindos.

Acho que você chegou bem perto.
Peço desculpas porque, em função do "Dia do Fico", tivemos uma reunião de última hora que achei importante relatar aos companheiros do blog e, assim, a segunda parte da conversa sobre o Didi vai ficar para a próxima 6a. feira.

Saudações Tricolores do Céu e da Terra.
 

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