sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Questão da Hegemonia

Tricolores,

Como sabem, em qualquer ambiente, um grupo de brasileiros discutindo futebol não consegue passar despercebido. Imaginem o que ocorre neste sítio paradisíaco em que meus amigos e eu nos encontramos para tratar dos memoráveis episódios da Mitologia Tricolor. Volta e meia, atraímos alguns curiosos, às vezes, por um simples mau entendido. Outro dia, comemorávamos o aniversário de oito anos da chegada do Mario Lago. Podem imaginar? Angenor ao violão, Antonio Carlos ao piano, o próprio Mario cantando seus grandes sucessos e, desfraldada por trás do grupo, a bandeira do Fluminense. Confundido por nossas três cores, um italianinho se aproximou para ver do que se tratava.

Antonio, era o seu nome. Baixinho, oclinhos redondo, nos disse ser natural da Sardenha e ter chegado aqui em 1937. Declarou-se torcedor do Cagliari e, apesar do tipo físico, alegou ter sido um ótimo extrema esquerda. Minto, meia esquerda. Segundo nos contou, sempre teve preocupação com os aspectos estratégicos do jogo e esclareceu alguns pontos do seu pensamento: “Nada de ataques frontais a defesas retrancadas. Tem que ‘comer o mingau quente pelas beiradas’, atacar pelas laterais e, progressivamente, infiltrar gente do seu quadro na área adversária”. Embora tenha ficado preso a uma instituição por dez anos, sua forma de atuar veio a ter grande influência na Europa.

Antonio ficou muito impressionado com tudo que lhe contamos sobre a trajetória do Fluminense, com os feitos de nossos heróis e, sobretudo, com o fato de os grandes momentos da nossa história sempre coincidirem com períodos de transformação e de progresso do Rio de Janeiro (ou do Distrito Federal) e da sociedade carioca. Como é natural, nos queixamos dos últimos 15 anos e de suas más consequências. O italianinho a tudo ouviu atentamente e, por fim, opinou: “Aparentemente, vocês têm vários problemas mas, a meu ver, todos eles se resumem a um só: mudança de mentalidade. O Fluminense”, disse, “me parece um vasto projeto cultural, no qual o futebol desempenha um papel fundamental. Então, a política do clube não pode ficar restrita a seus muros. Os tricolores precisam ocupar posições estratégicas e influir na formação das opiniões. Ganhar títulos em maior número é uma consequência, a verdadeira hegemonia se conquista fora de campo”.

E prosseguiu: “Uma boa gestão dos interesses do clube não se restringe às questões internas, é preciso atuar na sociedade, infuenciar o modo de ver as coisas. O poder se exerce pela força e pela capacidade de convencimento. Funciona assim: alguém pratica uma irregularidade ou inventa uma fantasia sem apoio nos fatos, a seguir, todos (aparentemente) concordam, elogiam. Quem denunciar estará errado, será tachado de “chorão”, mau perdedor etc.”.

Por longas horas conversamos com Antonio, o italiano. Ouvimos diversos pontos de vista interessantes e alguns surpreendentes. Em certo momento, ele afirmou que “todos os homens são intelectuais”, o que fez o Adionson sorrir, pigarrear e esboçar uma intervenção, mas o olhar severo do Stanislaw o deteve. Por fim, informamos ao inesperado parceiro que, no momento, as esperanças e sobressaltos eram ainda maiores, pois nosso clube se encontra em pleno ano eleitoral. Ele sorriu e finalizou a conversa: “Ah, já entendi. A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer."

Comentários:
Bom dia ao blogueiro
A ruptura é precedida de um dos maiores dilemas filosóficos da democracia: "o momento". Porque dele não se distingue o "como".
Fica pior no Fluminense, já que para esta conclusão se faz necessária a matemática.
Explico.
Quanto mais urgente se faz a mudança, mais lenta a faz a tradição. É o tal do "inversamente proporcional".
A chave do "negócio" é fazer a mudança sem perder a tradição. Quem tem este perfil?
Sucessos contínuos.
Julio Cesar
 
Antonio, além de ótimo meia esquerda e intelectual, é um sábio. Quem sabe não se dispõe a presentear nosso próximo presidente com um par de oclinhos redondos?

(Altamiro)
 
Julio Cesar e Altamiro, muito obrigado pelos inteligentes comentários.
Talvez, para fazer a mudança com preservação da inestimável tradição fosse necessário localizar um intelectual orgânico de nossas cores.
Mas é como diz o Julio Cesar: "Quem tem este perfl?".
Saudações Tricolores.
 
J.T., nunca me pronunciei aqui em seu espaço, mas dessa vez não me contive. Para além da finesse deste texto em específico (sinceramente, um dos melhores que já li pela internet), uma coincidência me chamou a atenção: Antonio, italiano, nascido na Sardenha, falando da ação intelectual e organização da cultura? Não tive como não pensar em Antonio Gramsci. Sinceramente, genial. A síntese do pensamento gramsciniano então, perfeita (dado o espaço diminuto de um blog). Para falar a verdade, sempre sugeri entre os torcedores que essa "vocação midiática" do Fluminense Football Club deveria ser retomada: não somos apenas um clube de futebol. Somos mais que isso, muito mais. Pena que só você, aqui com sua coluna, coloca o acento nesse termo. Mas a mudança chegará.

ST!
 
Acho que este Italiano é o Gravatinha disfarçado de intelectual:veio mostrar o caminho da vitória.
Sua observação é tão precisa que chega a ser obvia e ululante, aí nos lembramos de Nelson Rodrigues.
O Fluminense precisar ultrapassar seus muros e alçar novos voos!E isso já deveria ter acontecido há muito tempo, pois já faz anos que o Tricolor de verdade é uma Nação.
Mais um texto excelente ,primazia de tricolores ,e que demontra sem duvida o privilégio de ser tricolor....das laranjeiras.
Rafael Almeida
 
Carlos Henrique e Rafael, obrigado pelo incentivo.
A gloriosa História do Fluminense nos dá a oportunidade de ter conversas e escrever textos como o torcedor de nenhum outro clube poderia fazer.

Saudações Tricolores.
 
JT e Carlos Henrique, apesar dos oclinhos não havia pensado em Gramsci. Só que aí tenho uma ressalva a fazer, Gramsci destruiu o mito de que uma revolução só fosse possivel com a morte e sepultamento do passado. Em Gramsci (eu não sou especialista), tudo tem que acontecer simultaneamente.
Desculpem a minha ignorância em política, se eu estiver errado.
Saudações tricolores, acima de TUDO. Altamiro.
 
Concordo ccom você, Altamiro.
Uma legítima revolução tricolor terá que preservar nossa inestimável tradição, o "espírito de 1902".

Saudações Tricolores.
 
Me orgulho de ser tricolor e ler textos e comentários como estes. Me senti um analfabeto com muito ainda por aprender...eheheh

Saudações Tricolores do Céu e da Terra!

Douglas
 
Marco,

Ia te mandar email, mas resolvi deixar aqui mesmo o registro : Que maravilha de texto!
abração. andré
 
Altamiro,

Bem dito. De fato, em Gramsci a revolução não é o "sepultamento do passado", mas uma mudança social. O que grita em seu discurso é o caminho trilhado para o levante: a organização da cultura por parte dos intelectuais (de esqueda, no caso), visando construir uma ideologia que se tornaria hegemônica. Uma revolução cultural, nas mentes e corações, precisa vir antes da tal revolução armada. E essa nunca jogaria sete palmos de terra sobre o passado; mais que isso, preservaria tudo o que foi vivido e conquistado.

ST!
 

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