terça-feira, 8 de junho de 2010
O Último Grande Goleiro Tricolor
Tricolores,
Uma das repercussões mais frequentes e constrangedoras da aterosclerose sobre a mente humana é a dificuldade em dispor da memória recente. O sujeito é capaz de lembrar da roupa com a qual foi batizado ou do paladar da primeira mamadeira, mas não há como estar seguro se tomou o café da manhã. Esse alarmante quadro clínico se refere a uma discussão do meu grupo sobre a safra mais recente de arqueiros tricolores e à convicção de que o último grande nome terá sido o goleiro do tricampeonato da década de 80, Paulo Victor. Em meio à conversa, surgiram as seguintes questões: “Como o Fluminense descobriu Paulo Victor?”; “Como foi sua trajetória inicial no clube?”. A realidade é que não sabíamos, ou não lembrávamos – o que dava no mesmo. Nossa perplexidade foi resolvida pelo Adionson, o componente mais novo da turma, que orgulhosamente se prontificou a nos minimizar o vexame.
No final de 1980, após conquistarmos o título estadual, houve um jogo amistoso entre as seleções de juniores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na preliminar do clássico local Desportiva Ferroviária e Rio Branco. Na ponta-esquerda da nossa seleção estava o Paulinho (Carioca), que viria a fazer o gol de falta do título de 1985. Na delegação, seu tio e funcionário do Fluminense, Roberto Alvarenga, cuja presença tinha um caráter mais relevante do que simplesmente acompanhar o sobrinho: avaliar um promissor meia-esquerda do Desportiva Ferroviária, Geovani. Como se sabe, o objetivo inicial não foi bem sucedido, pois o jogador acabou se transferindo para o Vasco da Gama, mas o experiente Roberto Alvarenga voltou encantado com a atuação do goleiro da preliminar.
Dessa forma, em 1981, Paulo Victor cruzava os portões de Álvaro Chaves. Seu carisma pessoal e o imenso potencial técnico, amadurecido sob a orientação do Prof. João Carlos Travassos, viriam a transformá-lo em digno herdeiro da camisa número 1 e ídolo da torcida tricolor. No entanto, seu início no clube foi bastante difícil, pois passou quase um ano na reserva de Paulo Goulart. Não bastasse a longa espera, sua estréia - no Campeonato Brasileiro de 1982, contra a Portuguesa de Desportos –, envolveu-o em um episódio que poderia lhe marcar a carreira de forma negativa.
As intensas chuvas daquele dia deixaram o gramado do Estádio do Canindé cheio de poças, e uma delas deteve uma bola que, normalmente, sairia pela linha de fundos. Certo desse destino, Paulo Victor apenas acompanhava sua trajetória, de costas para o campo. Um atacante adversário antecipou-se e marcou um gol de difícil justificativa. No entanto, qualquer temor da torcida se desfez a partir da estréia no Maracanã, quando tivemos a clara demonstração dele já haver caído nas graças de nosso santo protetor. No jogo contra o Campinense tivemos duas bolas na trave e um pênalti chutado para fora. Não havia dúvida: São Castilho o abençoara.
A sucessão de atuações seguras, o tricampeonato estadual e o título nacional o levaram, com naturalidade, a ser convocado por Telê Santana para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1986. No ano seguinte, a grande decepção: um desentendimento com o treinador da Seleção Pré-Olímpica, Carlos Alberto Silva, inviabilizou sua permanência entre os convocados.
Entre as tantas alegrias proporcionadas por Paulo Victor, resolvemos registrar apenas uma, escolhida por consenso. O cenário é o seguinte: 1988, Fla- Flu do 1º. turno, 1 x 0 (gol do nosso lateral-direito, Cacau), fim de jogo, pênalti contra nós. A torcida rubro-negra se concentra atrás da baliza, acende uma cascata de fogos de artifício e faz um alarde ensurdecedor. Nosso goleiro demonstra uma concentração imperturbável, como se o estádio estivesse vazio, como se naquele momento só existissem ele, a bola e o cobrador. Andrade chuta forte, rasteiro, no canto esquerdo, Paulo Victor espalma para escanteio e, antes que se faça a cobrança, acena para a torcida adversária, como se agradecesse a comemoração antecipada da grande defesa.
Felizmente, tivemos a oportunidade de lhe reconhecer os bons serviços e oferecer uma consagração que raros ídolos mereceram. Em 1994, no final da carreira, Paulo Victor jogava pelo Volta Redonda e precisou enfrentar o Fluminense. Em declaração ao jornal Lance, ele mesmo revela o ocorrido: “Implorei para não jogar, não aguentaria. Mas fui obrigado e lá fui eu. Laranjeiras lotada. Pênalti para o Fluminense. Eu não sabia mais o que fazer. O Ézio bateu e eu defendi. Achei que seria linchado, mas ouvi o estádio inteiro gritando: “É Paulo Victor! É Paulo Victor!”.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Uma das repercussões mais frequentes e constrangedoras da aterosclerose sobre a mente humana é a dificuldade em dispor da memória recente. O sujeito é capaz de lembrar da roupa com a qual foi batizado ou do paladar da primeira mamadeira, mas não há como estar seguro se tomou o café da manhã. Esse alarmante quadro clínico se refere a uma discussão do meu grupo sobre a safra mais recente de arqueiros tricolores e à convicção de que o último grande nome terá sido o goleiro do tricampeonato da década de 80, Paulo Victor. Em meio à conversa, surgiram as seguintes questões: “Como o Fluminense descobriu Paulo Victor?”; “Como foi sua trajetória inicial no clube?”. A realidade é que não sabíamos, ou não lembrávamos – o que dava no mesmo. Nossa perplexidade foi resolvida pelo Adionson, o componente mais novo da turma, que orgulhosamente se prontificou a nos minimizar o vexame.
No final de 1980, após conquistarmos o título estadual, houve um jogo amistoso entre as seleções de juniores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, na preliminar do clássico local Desportiva Ferroviária e Rio Branco. Na ponta-esquerda da nossa seleção estava o Paulinho (Carioca), que viria a fazer o gol de falta do título de 1985. Na delegação, seu tio e funcionário do Fluminense, Roberto Alvarenga, cuja presença tinha um caráter mais relevante do que simplesmente acompanhar o sobrinho: avaliar um promissor meia-esquerda do Desportiva Ferroviária, Geovani. Como se sabe, o objetivo inicial não foi bem sucedido, pois o jogador acabou se transferindo para o Vasco da Gama, mas o experiente Roberto Alvarenga voltou encantado com a atuação do goleiro da preliminar.
Dessa forma, em 1981, Paulo Victor cruzava os portões de Álvaro Chaves. Seu carisma pessoal e o imenso potencial técnico, amadurecido sob a orientação do Prof. João Carlos Travassos, viriam a transformá-lo em digno herdeiro da camisa número 1 e ídolo da torcida tricolor. No entanto, seu início no clube foi bastante difícil, pois passou quase um ano na reserva de Paulo Goulart. Não bastasse a longa espera, sua estréia - no Campeonato Brasileiro de 1982, contra a Portuguesa de Desportos –, envolveu-o em um episódio que poderia lhe marcar a carreira de forma negativa.
As intensas chuvas daquele dia deixaram o gramado do Estádio do Canindé cheio de poças, e uma delas deteve uma bola que, normalmente, sairia pela linha de fundos. Certo desse destino, Paulo Victor apenas acompanhava sua trajetória, de costas para o campo. Um atacante adversário antecipou-se e marcou um gol de difícil justificativa. No entanto, qualquer temor da torcida se desfez a partir da estréia no Maracanã, quando tivemos a clara demonstração dele já haver caído nas graças de nosso santo protetor. No jogo contra o Campinense tivemos duas bolas na trave e um pênalti chutado para fora. Não havia dúvida: São Castilho o abençoara.
A sucessão de atuações seguras, o tricampeonato estadual e o título nacional o levaram, com naturalidade, a ser convocado por Telê Santana para a Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1986. No ano seguinte, a grande decepção: um desentendimento com o treinador da Seleção Pré-Olímpica, Carlos Alberto Silva, inviabilizou sua permanência entre os convocados.
Entre as tantas alegrias proporcionadas por Paulo Victor, resolvemos registrar apenas uma, escolhida por consenso. O cenário é o seguinte: 1988, Fla- Flu do 1º. turno, 1 x 0 (gol do nosso lateral-direito, Cacau), fim de jogo, pênalti contra nós. A torcida rubro-negra se concentra atrás da baliza, acende uma cascata de fogos de artifício e faz um alarde ensurdecedor. Nosso goleiro demonstra uma concentração imperturbável, como se o estádio estivesse vazio, como se naquele momento só existissem ele, a bola e o cobrador. Andrade chuta forte, rasteiro, no canto esquerdo, Paulo Victor espalma para escanteio e, antes que se faça a cobrança, acena para a torcida adversária, como se agradecesse a comemoração antecipada da grande defesa.
Felizmente, tivemos a oportunidade de lhe reconhecer os bons serviços e oferecer uma consagração que raros ídolos mereceram. Em 1994, no final da carreira, Paulo Victor jogava pelo Volta Redonda e precisou enfrentar o Fluminense. Em declaração ao jornal Lance, ele mesmo revela o ocorrido: “Implorei para não jogar, não aguentaria. Mas fui obrigado e lá fui eu. Laranjeiras lotada. Pênalti para o Fluminense. Eu não sabia mais o que fazer. O Ézio bateu e eu defendi. Achei que seria linchado, mas ouvi o estádio inteiro gritando: “É Paulo Victor! É Paulo Victor!”.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Comentários:
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Quando comecei a, realmente, entender e acompanhar futebol, mais ou menos nesta época, eu e um grande amigo, Leonardo, sempre brincávamos de disputas de penaltes. Quando eu cobrava o penal, era o "Washington" contra "Acácio"(meu amigo é vascaíno e o Acácio meu conterraneo, de Campos). Quando eu ia pro gol, sem dúvidas, eu era o grande "Paulo Victor", a defender as cobranças de "Roberto Dinamite"...
Se algumas vezes na vida sonhei em ser goleiro, o responsável foi ele!
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
Se algumas vezes na vida sonhei em ser goleiro, o responsável foi ele!
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
Só pra constar neste texto belíssimo o grande goleiro(o maior que vi jogar em toda a minha vida e tive oportunidade de dizer isso para o mesmo) jogava na época no Vitória F.C. e dali ja mostrava ser o imenso goleiro que foi.
Bom dia
Uma das razões de me sentir feliz pela idade que tenho, é ter assitido, com maturidade suficiente, Paulo Victor defendendo o arco tricolor. Nenhum goleiro é infalível, mas inegavelmente a presença dele no gol transmitia muita, mas muita segurança mesmo.
Parabéns pela qualidade de todos os artigos postados. São excelentes.
Julio Cesar
Uma das razões de me sentir feliz pela idade que tenho, é ter assitido, com maturidade suficiente, Paulo Victor defendendo o arco tricolor. Nenhum goleiro é infalível, mas inegavelmente a presença dele no gol transmitia muita, mas muita segurança mesmo.
Parabéns pela qualidade de todos os artigos postados. São excelentes.
Julio Cesar
Douglas, na época a que você se refere era muito comum, em qualquer pelada ou linha de passe, um menino torcedor de qualquer clube, ao fazer uma defesa que lhe parecesse especial, gritar: "Agaaaaaarra, Paulo Vitor!!!".
Raphael, obrigado pelo comentário e pela informação do clube inicial do nosso herói da camisa 1.
Saudações Tricolores.
Raphael, obrigado pelo comentário e pela informação do clube inicial do nosso herói da camisa 1.
Saudações Tricolores.
Julio Cesar, muito obrigado pelo incentivo.
Tenho certeza de que muitos meninos se tornaram tricolores por causa do Paulo Vitor. Uma torcida precisa tanto de títulos como de ídolos e o nosso goleiro contribuiu muito nos dois sentidos.
Saudações Tricolores.
Tenho certeza de que muitos meninos se tornaram tricolores por causa do Paulo Vitor. Uma torcida precisa tanto de títulos como de ídolos e o nosso goleiro contribuiu muito nos dois sentidos.
Saudações Tricolores.
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