terça-feira, 15 de junho de 2010
Nelson Rodrigues, fundador do FFC
Tricolores,
Estou ciente de que o Fluminense Football Club foi fundado em 21 de julho de 1902, em reunião com vinte participantes, ocorrida na Rua Marquês de Abrantes, nº 51. A seguir, em 25 de julho, deu-se a eleição da Diretoria, que consagrou Oscar Cox, aos 22 anos de idade, como nosso primeiro Presidente.
Também estou informado de que Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Trata-se de evidente impossibilidade cronológica supor que Nelson Rodrigues estivesse reunido na Rua Marquês de Abrantes, com os vinte jovens que tiveram a ousadia e a clarividência histórica de fundar o Fluminense. Sem dúvida, seria essa a análise perfeita e irretocável de um idiota da objetividade. Em contraposição, defendo meu ponto essencial: para a alma tricolor, Nelson Rodrigues e Oscar Cox são parceiros e contemporâneos. Embora nascido a milhares de quilômetros de distância do Rio de Janeiro e dez anos após o ato de fundação, Nelson Rodrigues está legitimamente investido da condição de fundador, criador ou inventor do Fluminense.
Se Oscar Cox e os primeiros tricolores nos providenciaram indispensáveis elementos físicos - estatuto, sede, uniforme, bandeira etc.-, Nelson elaborou a metafísica que esclarece a essência e expressa a magia de ser tricolor. Para ele, mais do que fundamentos técnicos ou esquemas táticos, a sustentação do futebol está na epopéia que incendeia paixões, cria mitos, heróis, glórias e tragédias. Como esclareceu, "por tudo que o futebol tem de misterioso e de patético, a mais sórdida pelada de subúrbio é de uma complexidade shakespeareana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural." Sua conclusão é que, "no futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola". Permanente observador da alma humana, Nelson Rodrigues não subestimava a importância das fantasias na composição de nosso enigma existencial ou a importância dos mitos no complexo enredo das nações. Com essas convicções, se outorgou a missão de traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão popular brasileira do século XX: o futebol.
Em especial, dedicou-se à Seleção Brasileira – a pátria de chuteiras -, lutando para expurgar-lhe o complexo de vira-latas, que nos impunha derrotas prévias ao apito inicial. Ainda com maior paixão, dedicou-se ao Fluminense, do qual cada partida continha uma revelação mágica e cada craque ou perna-de-pau era um ser mitológico. Morto em dezembro de 1980, seu nome e sua obra têm a atualidade e a concretude de uma presença física. Mesmo para jovens tricolores que jamais o conheceram, Nelson Rodrigues existe, vive!
A crônica esportiva surgiu para Nelson já na maturidade. Na segunda metade da década de 1950, consagrado como dramaturgo e escritor, ele começou a redigir textos semanais para a revista Manchete Esportiva. A partir de 1960, iniciou uma participação na Grande Resenha Esportiva Facit, programa esportivo da TV Rio. Em 1966, se mudou para a TV Globo e, no programa Noite de Gala, apresentava o quadro A Cabra Vadia, no qual entrevistava personalidades do futebol. Nessa época, a TV Globo era a última colocada em audiência, o cenário de terreno baldio fazia juz ao nome, a voz lenta e a dicção de Nelson não atendiam às necessidades da televisão. Surpreendentemente, a repercussão foi imensa: nas esquinas e nos botecos, citava-se com familiaridade seus deliciosos personagens, bordões e frases de efeito. No final de 1967, ele voltou a escrever no jornal O Globo e passou a publicar as crônicas À Sombra das Chuteiras Imortais, que lhe ajudaram a consolidar a obra futebolística.
Seduzidos por Nelson, tenho a impressão de que muitos escolheram torcer pelo Fluminense. Mas estou seguro de que – mesmo sem ser possível aumentar em nada a nossa paixão -, todos nos tornamos mais tricolores, porque as palavras do Profeta ampliaram esse significado. Com Nelson, o Fluminense extrapolou as quatro linhas do gramado, saltou os muros das Laranjeiras, transpôs as fronteiras geográficas do Rio de Janeiro e do Brasil e os próprios limites de nossa frágil e transitória existência terrena. Nelson tornou possível ser tricolor para além da vida e da morte.
É só.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Estou ciente de que o Fluminense Football Club foi fundado em 21 de julho de 1902, em reunião com vinte participantes, ocorrida na Rua Marquês de Abrantes, nº 51. A seguir, em 25 de julho, deu-se a eleição da Diretoria, que consagrou Oscar Cox, aos 22 anos de idade, como nosso primeiro Presidente.
Também estou informado de que Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife (PE), em 23 de agosto de 1912. Trata-se de evidente impossibilidade cronológica supor que Nelson Rodrigues estivesse reunido na Rua Marquês de Abrantes, com os vinte jovens que tiveram a ousadia e a clarividência histórica de fundar o Fluminense. Sem dúvida, seria essa a análise perfeita e irretocável de um idiota da objetividade. Em contraposição, defendo meu ponto essencial: para a alma tricolor, Nelson Rodrigues e Oscar Cox são parceiros e contemporâneos. Embora nascido a milhares de quilômetros de distância do Rio de Janeiro e dez anos após o ato de fundação, Nelson Rodrigues está legitimamente investido da condição de fundador, criador ou inventor do Fluminense.
Se Oscar Cox e os primeiros tricolores nos providenciaram indispensáveis elementos físicos - estatuto, sede, uniforme, bandeira etc.-, Nelson elaborou a metafísica que esclarece a essência e expressa a magia de ser tricolor. Para ele, mais do que fundamentos técnicos ou esquemas táticos, a sustentação do futebol está na epopéia que incendeia paixões, cria mitos, heróis, glórias e tragédias. Como esclareceu, "por tudo que o futebol tem de misterioso e de patético, a mais sórdida pelada de subúrbio é de uma complexidade shakespeareana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural." Sua conclusão é que, "no futebol, o pior cego é aquele que só vê a bola". Permanente observador da alma humana, Nelson Rodrigues não subestimava a importância das fantasias na composição de nosso enigma existencial ou a importância dos mitos no complexo enredo das nações. Com essas convicções, se outorgou a missão de traduzir em palavras a dimensão épica da maior paixão popular brasileira do século XX: o futebol.
Em especial, dedicou-se à Seleção Brasileira – a pátria de chuteiras -, lutando para expurgar-lhe o complexo de vira-latas, que nos impunha derrotas prévias ao apito inicial. Ainda com maior paixão, dedicou-se ao Fluminense, do qual cada partida continha uma revelação mágica e cada craque ou perna-de-pau era um ser mitológico. Morto em dezembro de 1980, seu nome e sua obra têm a atualidade e a concretude de uma presença física. Mesmo para jovens tricolores que jamais o conheceram, Nelson Rodrigues existe, vive!
A crônica esportiva surgiu para Nelson já na maturidade. Na segunda metade da década de 1950, consagrado como dramaturgo e escritor, ele começou a redigir textos semanais para a revista Manchete Esportiva. A partir de 1960, iniciou uma participação na Grande Resenha Esportiva Facit, programa esportivo da TV Rio. Em 1966, se mudou para a TV Globo e, no programa Noite de Gala, apresentava o quadro A Cabra Vadia, no qual entrevistava personalidades do futebol. Nessa época, a TV Globo era a última colocada em audiência, o cenário de terreno baldio fazia juz ao nome, a voz lenta e a dicção de Nelson não atendiam às necessidades da televisão. Surpreendentemente, a repercussão foi imensa: nas esquinas e nos botecos, citava-se com familiaridade seus deliciosos personagens, bordões e frases de efeito. No final de 1967, ele voltou a escrever no jornal O Globo e passou a publicar as crônicas À Sombra das Chuteiras Imortais, que lhe ajudaram a consolidar a obra futebolística.
Seduzidos por Nelson, tenho a impressão de que muitos escolheram torcer pelo Fluminense. Mas estou seguro de que – mesmo sem ser possível aumentar em nada a nossa paixão -, todos nos tornamos mais tricolores, porque as palavras do Profeta ampliaram esse significado. Com Nelson, o Fluminense extrapolou as quatro linhas do gramado, saltou os muros das Laranjeiras, transpôs as fronteiras geográficas do Rio de Janeiro e do Brasil e os próprios limites de nossa frágil e transitória existência terrena. Nelson tornou possível ser tricolor para além da vida e da morte.
É só.
Este post é baseado em um texto do livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", publicado por J.T. de Carvalho pela Editora Corifeu.
Comentários:
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Boa tarde Blogueiro
Acredite. Ainda menor de idade, bem jovem mesmo, lia os artigos do Nelson Rodrigues, principalmente após as vitórias do Fluminense e me deliciava com aquela linguagem, incomum ao restante do jornal. Claro! Eu lia a parte de esportes. Melhor, eu lia o Nélson Rodrigues.
Obrigado pelo texto.
Julio Cesar
Acredite. Ainda menor de idade, bem jovem mesmo, lia os artigos do Nelson Rodrigues, principalmente após as vitórias do Fluminense e me deliciava com aquela linguagem, incomum ao restante do jornal. Claro! Eu lia a parte de esportes. Melhor, eu lia o Nélson Rodrigues.
Obrigado pelo texto.
Julio Cesar
Julio Cesar, Marcel e Altamiro, obrigado pelos comentários.
Além de sua genialidade como escritor, Nelson nos prestou um serviço inestimável: difundir a cultura tricolor.
Vitórias e títulos são fundamentais para qualquer clube de futebol mas, para o Fluminense, não são suficientes.
Existe um modo tricolor de ser, de ver o mundo, de estar na vida. Trata-se da uma complexa "alfabetização", como nos diz o Altamiro. E Nelson, como ninguém mais, soube esclarecê-lo para todos nós.
Saudações Tricolores.
Além de sua genialidade como escritor, Nelson nos prestou um serviço inestimável: difundir a cultura tricolor.
Vitórias e títulos são fundamentais para qualquer clube de futebol mas, para o Fluminense, não são suficientes.
Existe um modo tricolor de ser, de ver o mundo, de estar na vida. Trata-se da uma complexa "alfabetização", como nos diz o Altamiro. E Nelson, como ninguém mais, soube esclarecê-lo para todos nós.
Saudações Tricolores.
"do qual cada partida continha uma revelação mágica e cada craque ou perna-de-pau era um ser mitológico."
Tricolor cercado de framenguistas na escola, no dia seguinte a um domingo de derrota era depois de ler Nélson q eu enfrentava as gozações e respondia as provocações. Sobrenatural de Almeida, sandálias da humildade, etc... as suas palavras em a "À sombra das chuteiras imortais" explicavam e ensinavam muita coisa,
Tricolor cercado de framenguistas na escola, no dia seguinte a um domingo de derrota era depois de ler Nélson q eu enfrentava as gozações e respondia as provocações. Sobrenatural de Almeida, sandálias da humildade, etc... as suas palavras em a "À sombra das chuteiras imortais" explicavam e ensinavam muita coisa,
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