sábado, 1 de maio de 2010

A Tradição Tricolor

Tricolores,

Muito se fala e se especula sobre a Tradição Tricolor. Será que todos que a ela se referem têm exata consciência do que se trata? Será que todos se referem ao mesmo conjunto de princípios e valores? Meus amigos Stanislaw e Angenor se propuseram a esclarecê-los sobre a visão do nosso grupo sobre alguns fatos, circunstâncias e personagens que contribuíram para esta construção histórica. Trata-se não apenas de destacar sua relevância para o atual momento do clube, mas de reconhecer sua capacidade de expressar várias características do que foi e sempre deveria ser o Fluminense Football Club. Dito isso, passo-lhes a palavra.

"No final de 1901, Oscar Cox tentou fundar o Rio Football Club, mas não conseguiu reunir entusiastas em número suficiente. Em 1902, quando finalmente obteve êxito na criação de um clube de futebol um outro grupo - apenas nove dias antes! - já havia lhe tomado o nome. Nossos fundadores, firmes na vontade de representar não apenas uma localidade, mas toda a cidade do Rio de Janeiro, se recordaram de que, quando iam disputar partidas amistosas em São Paulo, eram anunciados como "uns jovens fluminenses". E assim tomaram a decisão. Cabe esclarecer quem eram esses "jovens fluminenses": príncipes, condes, barões, herdeiros da elite do Império? Em desacordo com outras agremiações, o Fluminense não era formado pela aristocracia agrária, por ex-proprietários de escravos nem, tampouco, era um clube exclusivo de imigrantes. Os primeiros tricolores integravam um moderno segmento da sociedade, formado por entusiastas do abolicionismo, da industrialização e dos ideais democráticos e republicanos. Compunham um novo conceito de elite, baseado no empreendedorismo e na valorização da cultura.

Por isso, enquanto a elite presa ao passado e ao capital financeiro agrário habitava as extensas chácaras de São Cristóvão, do Andaraí e da Tijuca, esse novo contingente populacional buscou situar-se em uma ampla região denominada Vale do Rio Carioca, que se estendia do Largo do Machado ao Cosme Velho. Nesta região, não casualmente, Oscar Cox e seus companheiros escolheram um local denominado Baixo Laranjeiras para praticar um esporte mal visto pela elite conservadora. Desde o Império, um pouco mais acima da nossa sede, se situavam grandes quilombos, que deram contribuição decisiva para o samba e foram o berço de uma série de iniciativas carnavalescas, como o Rancho Arrepiados, cujas cores se assemelhavam às do Fluminense. Somando-se a esse contexto, a instalação da Fábrica Aliança ajudou a traçar o perfil do bairro, estimulando a abertura de armazéns e botequins para a classe operária.

Em contraste, vizinhos ao campo alugado, estavam a antiga residência da Princesa Isabel e do Conde D'Eu - atual Palácio Guanabara - , e o majestoso Palácio das Laranjeiras, construído pela família Guinle, de importância central para a nossa história. Desse diversificado amálgama social emergiu uma igualmente variada vida cultural. No Club Laranjeiras, encontravam-se poetas e músicos eruditos, enquanto no Restaurante Lamas (onde foi comemorada nossa fundação) juntavam-se literatos, jornalistas e boêmios em geral.

Ao mesmo tempo em que nosso clube era fundado, o Rio de Janeiro passava a ser administrado pelo prefeito Pereira Passos que, em quatro anos, transformou a aparência da cidade: os cortiços e as ruas estreitas e escurasm foram substituídos por largas avenidas. Em 1904, o maranhense Coelho Netto se mudou com a família para a Rua do Roso que, após a sua morte, passaria a ter o seu nome. Era um dos maiores literatos brasileiros, um membro fundador da Academia Brasileira de Letras, e um apaixonado pelo futebol, pelo Fluminense e, já se pode considerar uma redundância, pelo Rio de Janeiro. Em 1908, nas páginas do jornal A Notícia, Coelho Netto cunhou a expressão com a qual o Rio se tornaria mundialmente conhecido: Cidade Maravilhosa. Mais tarde, também se mudaram para a região novos personagens da vanguarda intelectual, como o próprio Pereira Passos, Machado de Assis, as famílias do jurista Sobral Pinto e do arquiteto Oscar Niemeyer que, ainda menino, jogou bola no gramado tricolor.

Ao longo de muitos anos, as histórias do bairro, da cidade e do Fluminense, se confundiram, se entrelaçaram, e não se pode considerar obra do acaso que o clube chamado Fluminense - e que se chamaria Rio - , tivesse sua primeira e única sede na esquina das Ruas Guanabara e Retiro da Guanabara, em pleno Vale do Rio Carioca. No início do século XX, Laranjeiras era a perfeita expressão de uma cidade em profunda transformação política, urbanística e sociocultural, e o Vale do Rio Carioca, berço da cultura tricolor, estava muito à frente do seu tempo, permitindo de forma pioneira a integração de diferentes classes sociais da cidade.

Tais elementos históricos nos pareceram fundamentais para a compreensão do que se pode - verdadeiramente, já que datam de nossa origem - considerar a tradição tricolor: pioneirismo, organização, empreendedorismo, ousadia para correr risco e superar obstáculos. Características iniciais de seus fundadores, progressivamente, esses valores e ideais avançaram sobre as convencionais fronteiras geográficas e se instalaram nos corações e mentes de um imenso contingente de brasileiros, que vibram e sofrem de paixão pelas três cores que traduzem tradição!"
Stanislaw e Angenor
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Este post é baseado em um texto escrito em maio de 2009, publicado no livro "Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor", Editora Corifeu.

Comentários:
Este é o espírito tricolor! Não me canso de elogiar este blog justamente por essa possibilidade de reconhecermos a nós mesmos tricolores, nas mais profundas tradições!!! Orgulho de ser tricolor!

Saudações Tricolores do Céu e da Terra!!!

Douglas
 
É isso Douglas, a missão de ser tricolor vai muito além de torcer pelo glorioso time de futebol que, aliás, o quanto antes, precisamos ter de volta.
ST
 
Acabei de ter uma aula de Hitória, parabens pelo artigo, por isso que eu canto e visto esse manto. ORGULHO DE SER TRICOLOR.

SDS
VLADIMIR
 
Vladimir, obrigado pelo comentário.

O autor - não da aula, mas da História - se chama Fluminense Football Club.
É impossível contar a trajetória da cidade do Rio de Janeiro no século XX ou do futebol brasileiro sem atribuir ao nosso clube um papel de destaque e pioneirismo.

Isso é parte fundamental da tradição que precisamos honrar.

Saudações Tricolores
 
Excelente! Para mim é mais ainda: Emocionante.
Parabéns.
 

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