terça-feira, 13 de abril de 2010
O último herói trágico
"Sou goleiro há onze anos e tenho dez como titular do Fluminense, mas o curioso é que tenho sofrido acidentes nos treinos. Esse do dedo, para não fugir à regra, sofri quando batia bola há nove anos. Depois de curado, sofri mais três fraturas no mesmo local. O Fluminense promoveu uma junta de cinco médicos... Estudaram o caso e resolveram que um enxerto ou correção do eixo seriam medidas aconselháveis. Mas, o fato concreto é que, no meu entendimento, meu dedo continuaria imóvel, e isso me roubava a autoconfiança. Foi quando pensei na amputação parcial... Ficou então determinado que eu teria de assinar um termo de responsabilidade. Vivi um drama durante 48 horas... Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco: se não houver a operação, não poderei mais defender o meu clube, não confio mais em mim. No dia seguinte, dei entrada na Casa de Saúde". (Manchete Esportiva, 1957).
Tricolores,
Com facilidade, se pode reconhecer o personagem central do longo texto, parcialmente transcrito acima: Carlos José Castilho. O recorte da antiga publicação nos foi trazido pelo Antonio Carlos, e vou relatar, em síntese, o que conversamos sobre o maior goleiro do Período Moderno da História do Fluminense. Castilho nasceu no dia 27 de novembro de 1927 e, aos 11 anos de idade, já frequentava o campo do Bonsucesso, na Rua Teixeira de Castro. Filho de família humilde, aos 12 anos de idade começou a trabalhar em uma carvoaria e, aos 13 anos - irônica premonição?! -, em uma leiteria. Seu primeiro clube foi o Tupã, uma instituição amadora de Brás de Pina, onde atuava como atacante. Casualmente, pela ausência inesperada do titular da posição, Castilho foi improvisado no gol: a opção foi imediata e definitiva. Em 1944, foi levado para os juvenís do Olaria, onde voltaram a escalá-lo no ataque, mas ele insistia em ser goleiro.
Em 1946, chegou ao Fluminense. Sua estréia ocorreu em 6 de outubro, em um jogo amistoso: vencemos de 4 x 0 e Castilho defendeu um pênalti. Em 1947, estreou na equipe de aspirantes e se sagrou vice-campeão. Em 48, o jovem e desconhecido goleiro foi a grande surpresa do do Torneio Municipal, que abria a temporada de futebol no Rio de Janeiro, e foi vencido pelo Fluminense. Em 49, a renovação do elenco permitiu a formação da Trindade Tricolor, que protegeu nosso gol na década de 50, tornando-a a menos vazada por 5 campeonatos consecutivos: Castilho, Píndaro e Pinheiro.
Em 1950, Castilho teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. No ano seguinte, sob o comando de Zezé Moreira, junto aos companheiros da nossa Trindade, garantiu as vitórias de 1 x 0 do "timinho". Aos 24 anos, já era considerado o melhor goleiro do Brasil, um paredão intransponível, dando início a sua mística de defesas milagrosas. Em 1952, conquistou dois títulos internacionais muito importantes: pelo Brasil, o Pan-Americano, realizado no Chile – primeiro título de uma Seleção Brasileira no exterior -, pelo Fluminense, a II Copa Rio, torneio que reunia os principais clubes campeões da América e da Europa, o Campeonato Mundial Inter-Clubes da época. Logo na estréia, contra o Sporting de Lisboa, Castilho apresentou suas credenciais: garantiu o empate defendendo um pênalti aos 39 minutos do segundo tempo. A imprensa estrangeira começou a também lhe reconhecer os méritos: os jornais chilenos o chamaram "Cortina Metálica".
A partir de 1954, iniciou-se o drama das frequentes lesões que o perseguiram até o final da carreira. Em 55, teve um longo período de inatividade e, em 57, deu-se o episódio da amputação parcial de um dos dedos. Decisão correta ou não, em duas semanas ele estava de volta aos gramados. Carlos José Castilho vestiu a camisa número 1 do Fluminense por quase vinte anos, disputou 696 partidas e não sofreu gols em 255 delas. Conquistou os Campeonatos Cariocas de 1951, 1959 e 1964 e foi campeão do Torneio Rio-São Paulo, em 1957. Pela Seleção Brasileira foi campeão sul-americano em 1949 e participou de quatro Copas dos Mundo: 1950, 1954, 1958 e 1962, quando se sagrou bi-campeão. Com doses certas de técnica, sorte, coragem e estoicismo, Castilho se tornou um dos ídolos inesquecíveis do futebol brasileiro mas, curiosamente, não fazia defesas acrobáticas, porque estava sempre bem colocado.
A crônica esportiva o apelidou de "Rei do Pênalti" - no campeonato carioca de 1952, defendeu seis penalidades máximas -; os tricolores o chamavam de “São Castilho”; os adversários, de "Leiteria", atribuindo-lhe os feitos apenas à sorte, em analogia a um leiteiro da cidade, que se notabilizara por haver ganho duas vezes na loteria federal. Num Fla-Flu de 1953, os rubro-negros acertaram seu travessão por cinco vezes, e vencemos pelo placar mínimo; em 58, o América acertou quatro vezes nossa baliza. Para essa eficiência sobrenatural, Castilho tinha uma explicação tão humilde quanto surpreendente: era daltônico e, as antigas bolas de couro marrons e alaranjadas, para ele eram todas de um vermelho muito vivo. No dia 01 junho de 2002, como parte das comemorações pelo Centenário do Clube – no intervalo de um jogo de veteranos -, o Fluminense inaugurou o vestiário Castilho.
Sabe-se que os deuses enlouquecem os heróis para, só assim, vencê-los. Em 1966, após encerrar a vitoriosa carreira de jogador no Fluminense, Castilho começou a de treinador. Trabalhou na Arábia Saudita, treinou vários clubes brasileiros e foi campeão paulista de 1984, com o Santos. Vítima de crises de depressão, no dia 2 de fevereiro de 1987, pela janela do seu apartamento, Castilho deu seu último salto: para o vazio e a eternidade. Que outros clubes tenham grandes astros e personalidades internacionais; o Fluminense tem heróis de uma dimensão épica e a grandeza do clube e da torcida serão tão maiores quanto sua capacidade de reconhecê-los e honrá-los. Stanislaw que, até então, pouco falara, aproveitou o silêncio que se seguiu e fez uso da sua erudição filosófica: "A tarefa consiste em trazer à luz o que devemos amar sempre e venerar sempre e que não nos pode ser roubado por nenhum conhecimento posterior: o grande homem".
Tricolores,
Com facilidade, se pode reconhecer o personagem central do longo texto, parcialmente transcrito acima: Carlos José Castilho. O recorte da antiga publicação nos foi trazido pelo Antonio Carlos, e vou relatar, em síntese, o que conversamos sobre o maior goleiro do Período Moderno da História do Fluminense. Castilho nasceu no dia 27 de novembro de 1927 e, aos 11 anos de idade, já frequentava o campo do Bonsucesso, na Rua Teixeira de Castro. Filho de família humilde, aos 12 anos de idade começou a trabalhar em uma carvoaria e, aos 13 anos - irônica premonição?! -, em uma leiteria. Seu primeiro clube foi o Tupã, uma instituição amadora de Brás de Pina, onde atuava como atacante. Casualmente, pela ausência inesperada do titular da posição, Castilho foi improvisado no gol: a opção foi imediata e definitiva. Em 1944, foi levado para os juvenís do Olaria, onde voltaram a escalá-lo no ataque, mas ele insistia em ser goleiro.
Em 1946, chegou ao Fluminense. Sua estréia ocorreu em 6 de outubro, em um jogo amistoso: vencemos de 4 x 0 e Castilho defendeu um pênalti. Em 1947, estreou na equipe de aspirantes e se sagrou vice-campeão. Em 48, o jovem e desconhecido goleiro foi a grande surpresa do do Torneio Municipal, que abria a temporada de futebol no Rio de Janeiro, e foi vencido pelo Fluminense. Em 49, a renovação do elenco permitiu a formação da Trindade Tricolor, que protegeu nosso gol na década de 50, tornando-a a menos vazada por 5 campeonatos consecutivos: Castilho, Píndaro e Pinheiro.
Em 1950, Castilho teve sua primeira convocação para a Seleção Brasileira. No ano seguinte, sob o comando de Zezé Moreira, junto aos companheiros da nossa Trindade, garantiu as vitórias de 1 x 0 do "timinho". Aos 24 anos, já era considerado o melhor goleiro do Brasil, um paredão intransponível, dando início a sua mística de defesas milagrosas. Em 1952, conquistou dois títulos internacionais muito importantes: pelo Brasil, o Pan-Americano, realizado no Chile – primeiro título de uma Seleção Brasileira no exterior -, pelo Fluminense, a II Copa Rio, torneio que reunia os principais clubes campeões da América e da Europa, o Campeonato Mundial Inter-Clubes da época. Logo na estréia, contra o Sporting de Lisboa, Castilho apresentou suas credenciais: garantiu o empate defendendo um pênalti aos 39 minutos do segundo tempo. A imprensa estrangeira começou a também lhe reconhecer os méritos: os jornais chilenos o chamaram "Cortina Metálica".
A partir de 1954, iniciou-se o drama das frequentes lesões que o perseguiram até o final da carreira. Em 55, teve um longo período de inatividade e, em 57, deu-se o episódio da amputação parcial de um dos dedos. Decisão correta ou não, em duas semanas ele estava de volta aos gramados. Carlos José Castilho vestiu a camisa número 1 do Fluminense por quase vinte anos, disputou 696 partidas e não sofreu gols em 255 delas. Conquistou os Campeonatos Cariocas de 1951, 1959 e 1964 e foi campeão do Torneio Rio-São Paulo, em 1957. Pela Seleção Brasileira foi campeão sul-americano em 1949 e participou de quatro Copas dos Mundo: 1950, 1954, 1958 e 1962, quando se sagrou bi-campeão. Com doses certas de técnica, sorte, coragem e estoicismo, Castilho se tornou um dos ídolos inesquecíveis do futebol brasileiro mas, curiosamente, não fazia defesas acrobáticas, porque estava sempre bem colocado.
A crônica esportiva o apelidou de "Rei do Pênalti" - no campeonato carioca de 1952, defendeu seis penalidades máximas -; os tricolores o chamavam de “São Castilho”; os adversários, de "Leiteria", atribuindo-lhe os feitos apenas à sorte, em analogia a um leiteiro da cidade, que se notabilizara por haver ganho duas vezes na loteria federal. Num Fla-Flu de 1953, os rubro-negros acertaram seu travessão por cinco vezes, e vencemos pelo placar mínimo; em 58, o América acertou quatro vezes nossa baliza. Para essa eficiência sobrenatural, Castilho tinha uma explicação tão humilde quanto surpreendente: era daltônico e, as antigas bolas de couro marrons e alaranjadas, para ele eram todas de um vermelho muito vivo. No dia 01 junho de 2002, como parte das comemorações pelo Centenário do Clube – no intervalo de um jogo de veteranos -, o Fluminense inaugurou o vestiário Castilho.
Sabe-se que os deuses enlouquecem os heróis para, só assim, vencê-los. Em 1966, após encerrar a vitoriosa carreira de jogador no Fluminense, Castilho começou a de treinador. Trabalhou na Arábia Saudita, treinou vários clubes brasileiros e foi campeão paulista de 1984, com o Santos. Vítima de crises de depressão, no dia 2 de fevereiro de 1987, pela janela do seu apartamento, Castilho deu seu último salto: para o vazio e a eternidade. Que outros clubes tenham grandes astros e personalidades internacionais; o Fluminense tem heróis de uma dimensão épica e a grandeza do clube e da torcida serão tão maiores quanto sua capacidade de reconhecê-los e honrá-los. Stanislaw que, até então, pouco falara, aproveitou o silêncio que se seguiu e fez uso da sua erudição filosófica: "A tarefa consiste em trazer à luz o que devemos amar sempre e venerar sempre e que não nos pode ser roubado por nenhum conhecimento posterior: o grande homem".
Comentários:
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Jt e amigos, não sei se vocês se ligam nos nossos papos mas, numa hora dessa que alguns torcedores desesperados pedem FH voces falarem em Castilho, é brincadeira.
Saudações!
Saudações!
Eu entendo o que é falar em Castilho. O que se quer dizer e da necessidade que se tem de os jogadores jogarem com amor ao clube, que pensem no que representa uma vitória no campeonato para quem paga os seus salários, que são os torcedores.
Falar em FH é uma piada, tão ruim quanto Rafael. A culpa não é deles. É do seu treinador. Quem é Victor Hugo (nosso treinador de goleiros)? Vejo nos dois exatamento os mesmos erros de posicionamento, de advinhação, de saltos espetaculares, de falta de defesas em bolas consideradas fáceis...No meu tempo (fui goleiro tambem por muito tempo), o goleiro (no salão) era meio time e no campo era alguém que sempre dá segurança para que a defesa possa jogar em paz.
Não temos goleiro há muito tempo e nos contentamos com Rafaeis e Fernandos Henriques (Deus me livre!).
Grande abraço.
Manoel Pacheco
Falar em FH é uma piada, tão ruim quanto Rafael. A culpa não é deles. É do seu treinador. Quem é Victor Hugo (nosso treinador de goleiros)? Vejo nos dois exatamento os mesmos erros de posicionamento, de advinhação, de saltos espetaculares, de falta de defesas em bolas consideradas fáceis...No meu tempo (fui goleiro tambem por muito tempo), o goleiro (no salão) era meio time e no campo era alguém que sempre dá segurança para que a defesa possa jogar em paz.
Não temos goleiro há muito tempo e nos contentamos com Rafaeis e Fernandos Henriques (Deus me livre!).
Grande abraço.
Manoel Pacheco
Estou a cada dia mais maravilhado com este blog...
J.T., por onde anda o Telê?
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
J.T., por onde anda o Telê?
Saudações Tricolores do Céu e da Terra!
Douglas
Prezados tricolores Antonio e Manoel Pacheco, obrigado por seus comentários.
Falar sobre Castilho e, aliás, sobre todos os grandes heróis da jornada mais que centenária do nosso Fluminense serve para enaltecê-los e para recordar que, apesar de tantas mudanças no mundo do futebol, precisamos preservar valores históricos na hora de definir quem pode ser chamado de ídolo, quem pode ser considerado um goleiro à altura do clube etc.
Saudações Tricolores.
Falar sobre Castilho e, aliás, sobre todos os grandes heróis da jornada mais que centenária do nosso Fluminense serve para enaltecê-los e para recordar que, apesar de tantas mudanças no mundo do futebol, precisamos preservar valores históricos na hora de definir quem pode ser chamado de ídolo, quem pode ser considerado um goleiro à altura do clube etc.
Saudações Tricolores.
Caro Douglas, que bela lembrança!
Se acreditamos que ainda nos resta um "fio de esperança", é preciso falar no Telê. Assim que puder, vou puxar este assunto com os amigos.
Saudações Tricolores do Céu e da Terra.
Se acreditamos que ainda nos resta um "fio de esperança", é preciso falar no Telê. Assim que puder, vou puxar este assunto com os amigos.
Saudações Tricolores do Céu e da Terra.
é claro que gostaria de ver vários jogadores tão dedicados no Flu mas acredito que o futebol como um todo precisa de profissionais que não meçam suas carreiras somente pelo dinheiro que levam mas também por seus feitos dentro de um clube e pelo carinho que aquela torcida terá por ele eternamente...
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