sexta-feira, 9 de abril de 2010

Meio século de Fair Play

Tricolores,

Ao longo do século passado, o futebol evoluiu de um divertimento entre amigos e familiares para um esporte e, a seguir, uma ferrenha competição. Do amadorismo mais despojado e idealista, jogar bola passou a ser um meio de vida, uma profissão e, depois, um comércio internacional sem muitos escrúpulos. É inevitável que nesta trajetória vários de seus princípios e constrangimentos iniciais se tenham perdido, ou que apenas sejam seguidos às custas da severa aplicação das regras do jogo. O Antonio Carlos, aqui do meu grupo, sempre nos lembra que entre entre 1855 – quando o futebol foi organizado na Inglaterra - e 1891 não existia pênalti, e que houve forte resistência de alguns clubes ingleses à criação de tal punição. Entendiam que alguma irregularidade dentro da grande área apenas ocorreria de maneira involuntária, pois era inconcebível que cavalheiros interceptassem a bola com as mãos ou cometessem faltas propositais para impedir os gols adversários. Em um sábado recente, estávamos relembrando esta época romântica, quando nos ocorreu ser a data exata dos 50 anos da invenção do fair play. Vou tentar resumir.

No dia 27 de março de 1960, Fluminense e Botafogo se enfrentavam no Maracanã pelo Torneio Rio-São Paulo, do qual acabaríamos campeões. Aos 3 minutos do segundo tempo, Pinheiro entra em uma disputa com Quarentinha mas, com um grito, cai ao gramado. A bola sobra limpa nos pés de Garrincha, que tem campo aberto para progredir mas, surpreendentemente, apenas dá um leve toque pela lateral, e possibilita o atendimento médico ao nosso zagueiro. Há meio século, esta atitude era absolutamente original e impensável. As duas torcidas ficam atônitas com a cena que acabam de testemunhar. Alguns consultam o torcedor ao lado, para confirmar a autenticidade do que viram. Na tribuna de imprensa, Mário Filho exalta Garrincha: "É o Gandhi do futebol!". Seu Mané dera um drible desconcertante no senso comum, como se usasse seu improviso genial para abrir um parênteses inédito em uma partida de futebol.

Pinheiro foi retirado de campo, mas aos vinte demais jogadores já não seria possível retomar simplesmente a mera sucessão de chutes e caneladas. Haveria que providenciar um gesto de originalidade equivalente ao de Garrincha, capaz de encerrar o episódio e trazer a competição de volta ao seu necessário pragmatismo.

O juiz ordena o reinício do jogo, Altair se apresenta para a cobrança do lateral. Altair Gomes de Figueiredo chegou às Laranjeiras aos 15 anos de idade, e por 17 anos e 551 jogos defendeu nossas cores. Foi campeão carioca em 1959, 1964 e 1969; campeão da Taça Guanabara em 1966 e 1969; campeão do Rio-São Paulo em 1957 e 1960. Em 1962, foi campeão mundial no Chile e, em 1966, esteve na Copa da Inglaterra. Tendo iniciado e encerrado a carreira na quarta-zaga, durante longos anos atuou na lateral-esquerda, sendo por muitos considerado o melhor jogador desta posição a vestir nossa camisa. À boa técnica, Altair aliava marcação implacável, precisão absoluta no uso do carrinho e, apesar do tipo físico franzino, raramente perdia uma dividida.

Pois coube a um jogador com tal perfil, a sensibilidade, a inspiração para produzir a cena final deste momento histórico: propositadamente, Altair erra o arremeço manual e faz a bola quicar para fora do gramado, devolvendo sua posse ao Botafogo. O círculo se fechava, o enredo estava completo. Garrincha e Altair, protagonistas de duelos que já haviam produzido tantos dribles e desarmes antológicos, eram agora os co-autores de uma tradição que, a seguir, correu o mundo e, progressivamente, sofreu as distorções conhecidas. Os deuses dos gramados perceberam haver um único resultado adequado a uma partida na qual não caberiam perdedores: empate, 2 x 2.

Comentários:
Muito foda!!!
Parabéns, onde quer que estejam!
 
Felipe, em nome do grupo, agradeço o comentário e o entusiasmo!
Desejamos que amanhã, à noite, você esteja especialmente feliz.
Saudações Tricolores.
 
Nos tempos de hoje sería imcabivel tal atitude,porque o futebol mundial se tornou-se mercenário(tudo por dinheiro),e a cada dia perde-se mais o encanto de acompanhar o futebol.
 
o futebol fica muito mais bonito de se ver quando é levado a sério e quando há respeito entre os adversários. Não vivi essa época de "cavalheiros" em campo, mas posso dizer que sinto falta...
 

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