sexta-feira, 16 de abril de 2010
Guttenberg traído
Tricolores,
Como sabem, a imprensa moderna nasceu por volta de 1540, a partir de uma invenção do alemão Johannes Guttenberg: a composição de palavras com tipos móveis. Sua grande inovação foi descobrir uma forma de produzir uma massa de letras numa liga de metal reutilizável e, assim, publicar mais livros e jornais, com maior agilidade. Esta invenção é considerada o evento mais importante da Idade Moderna, pois foi um instrumento fundamental para o desenvolvimento da Renascença, da Revolução Científica e para a construção de bases objetivas da sociedade moderna: o conhecimento e o ensino de massa. Para não aborrecer o amigo, o Stanislaw começou com este longínquo rodeio histórico para, finalmente, abordar um mistério que nos vinha intrigando: depois que se atribuiu a condição de repórter, o Adionson resolveu alardear uma incondicional admiração pela imprensa esportiva brasileira.
Desconfiados desta veneração deslumbrada, resolvemos conferir até que ponto ele estava bem informado e pedimos que apontasse o jornal, o programa de televisão ou os jornalistas que justificavam tantos e tão repetidos elogios. A resposta foi imediata e bastante esclarecedora: “A Grande Resenha Esportiva Facit! Adoro o Saldanha e o Scassa. O Nélson - nosso Profeta - é genial!”. Compreendemos que o problema do Adionson não era falta de capacidade crítica, mas uma total desatualização. A ‘Grande Resenha’ era uma mesa-redonda dominical da TV Rio, canal 13, que nos anos 60 do século passado enriquecia o futebol brasileiro com o brilhantismo de seus jornalistas. Todos tinham um assumido clube de coração – “ninguém era filho de chocadeira”, como esclarecia o Saldanha – e, portanto, caminhavam em paralelo a informação, a análise e a paixão clubística. Neste contexto, os eventuais conflitos de interesse não causavam qualquer dano à compreensão do torcedor, porque estavam absolutamente explícitos e equilibrados pelas diferentes opiniões.
Em épocas recentes - mais fortemente do final da década de 80 em diante -, a imprensa deixou de ser uma analista de futebol e passou a ser parte do negócio. Este movimento chegou a um requinte de perfeição: o monopólio, que tem a possibilidade de substituir a opinião pública pela opinião publicada. Pode parecer inofensivo, mas o repetido endosso a um erro de arbitagem, a legitimação de “vitórias” fora do campo de jogo e até à revelia do regulamento da competição, a orquestração de determinadas versões em diferentes veículos – que, de fato, são um só –, os textos tendenciosos, as declarações pinçadas do contexto (sem que se saiba a que pergunta se referiam), têm a capacidade de influenciar federações e tribunais, intimidar árbitros e, por vezes, acabam por convencer até parte dos próprios prejudicados.
Nossa conversa foi longa, talvez volte a ela outro dia. Por hora, cito apenas nossa apreensão quando o Stanislaw declarou o seguinte: “Conheço companheiros de rádio e televisão que assumem ser torcedores de clubes pelos quais não torcem realmente. O fazem por conveniência comercial ou, simplesmente, para cortejar a popularidade. Quem ‘correta’ anúncio – a maior fonte para se ganhar dinheiro nas funções de radialista – se disser que é vascaíno, por exemplo, tem meio caminho andado para angariar a publicidade dos comerciantes e industriais da grande colônia portuguesa... Agora, torcer pelo Flamengo, fora de dúvida, é uma perfeita conotação com a maioria dos torcedores... Para os donos de rádio e televisão, o ideal seria que seus narradores e comentaristas puxassem sempre a brasa para o lado do Flamengo. Eles pensam que isso aumenta a audiência e ajuda na tarefa de vender o patrocínio, as cotas de publicidade das transmissões de futebol... No rádio e na televisão, às vezes enfrentamos pressões, visando a favorecer essas questões íntimas”.
Diante da advertência de que tais afirmações não deveriam ser reproduzidas em qualquer ambiente, o Stanislaw nos tranquilizou: “A única coisa de minha autoria são as aspas. Quem disse isso - aliás, escreveu - há mais de 10 anos, foi o experiente jornalista Luiz Mendes, no livro ‘7 Mil Horas de Futebol’. Podem procurar, está lá na página 83”. Claro, não se pode restringir o futebol a uma visão simplista e conspiratória, restrita aos conchavos empresariais e à manipulação publicitária, mas também não é possível deixar sem constatação o triste momento de uma invenção com vocação revolucionária: a criação da imprensa moderna permitiu a livre circulação de idéias e ajudou a libertar a Humanidade das trevas e do atraso. Hoje, o futebol brasileiro caminha para ser um típico produto do oligopólio TV–rádio–jornal, que determina onde, quando, como se joga e, quem sabe, até quem ganha o jogo.
Como sabem, a imprensa moderna nasceu por volta de 1540, a partir de uma invenção do alemão Johannes Guttenberg: a composição de palavras com tipos móveis. Sua grande inovação foi descobrir uma forma de produzir uma massa de letras numa liga de metal reutilizável e, assim, publicar mais livros e jornais, com maior agilidade. Esta invenção é considerada o evento mais importante da Idade Moderna, pois foi um instrumento fundamental para o desenvolvimento da Renascença, da Revolução Científica e para a construção de bases objetivas da sociedade moderna: o conhecimento e o ensino de massa. Para não aborrecer o amigo, o Stanislaw começou com este longínquo rodeio histórico para, finalmente, abordar um mistério que nos vinha intrigando: depois que se atribuiu a condição de repórter, o Adionson resolveu alardear uma incondicional admiração pela imprensa esportiva brasileira.
Desconfiados desta veneração deslumbrada, resolvemos conferir até que ponto ele estava bem informado e pedimos que apontasse o jornal, o programa de televisão ou os jornalistas que justificavam tantos e tão repetidos elogios. A resposta foi imediata e bastante esclarecedora: “A Grande Resenha Esportiva Facit! Adoro o Saldanha e o Scassa. O Nélson - nosso Profeta - é genial!”. Compreendemos que o problema do Adionson não era falta de capacidade crítica, mas uma total desatualização. A ‘Grande Resenha’ era uma mesa-redonda dominical da TV Rio, canal 13, que nos anos 60 do século passado enriquecia o futebol brasileiro com o brilhantismo de seus jornalistas. Todos tinham um assumido clube de coração – “ninguém era filho de chocadeira”, como esclarecia o Saldanha – e, portanto, caminhavam em paralelo a informação, a análise e a paixão clubística. Neste contexto, os eventuais conflitos de interesse não causavam qualquer dano à compreensão do torcedor, porque estavam absolutamente explícitos e equilibrados pelas diferentes opiniões.
Em épocas recentes - mais fortemente do final da década de 80 em diante -, a imprensa deixou de ser uma analista de futebol e passou a ser parte do negócio. Este movimento chegou a um requinte de perfeição: o monopólio, que tem a possibilidade de substituir a opinião pública pela opinião publicada. Pode parecer inofensivo, mas o repetido endosso a um erro de arbitagem, a legitimação de “vitórias” fora do campo de jogo e até à revelia do regulamento da competição, a orquestração de determinadas versões em diferentes veículos – que, de fato, são um só –, os textos tendenciosos, as declarações pinçadas do contexto (sem que se saiba a que pergunta se referiam), têm a capacidade de influenciar federações e tribunais, intimidar árbitros e, por vezes, acabam por convencer até parte dos próprios prejudicados.
Nossa conversa foi longa, talvez volte a ela outro dia. Por hora, cito apenas nossa apreensão quando o Stanislaw declarou o seguinte: “Conheço companheiros de rádio e televisão que assumem ser torcedores de clubes pelos quais não torcem realmente. O fazem por conveniência comercial ou, simplesmente, para cortejar a popularidade. Quem ‘correta’ anúncio – a maior fonte para se ganhar dinheiro nas funções de radialista – se disser que é vascaíno, por exemplo, tem meio caminho andado para angariar a publicidade dos comerciantes e industriais da grande colônia portuguesa... Agora, torcer pelo Flamengo, fora de dúvida, é uma perfeita conotação com a maioria dos torcedores... Para os donos de rádio e televisão, o ideal seria que seus narradores e comentaristas puxassem sempre a brasa para o lado do Flamengo. Eles pensam que isso aumenta a audiência e ajuda na tarefa de vender o patrocínio, as cotas de publicidade das transmissões de futebol... No rádio e na televisão, às vezes enfrentamos pressões, visando a favorecer essas questões íntimas”.
Diante da advertência de que tais afirmações não deveriam ser reproduzidas em qualquer ambiente, o Stanislaw nos tranquilizou: “A única coisa de minha autoria são as aspas. Quem disse isso - aliás, escreveu - há mais de 10 anos, foi o experiente jornalista Luiz Mendes, no livro ‘7 Mil Horas de Futebol’. Podem procurar, está lá na página 83”. Claro, não se pode restringir o futebol a uma visão simplista e conspiratória, restrita aos conchavos empresariais e à manipulação publicitária, mas também não é possível deixar sem constatação o triste momento de uma invenção com vocação revolucionária: a criação da imprensa moderna permitiu a livre circulação de idéias e ajudou a libertar a Humanidade das trevas e do atraso. Hoje, o futebol brasileiro caminha para ser um típico produto do oligopólio TV–rádio–jornal, que determina onde, quando, como se joga e, quem sabe, até quem ganha o jogo.
Comentários:
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Aquela antiga máxima nos serve muito bem aqui:
"Entre amigos e amigos, negócios à parte"
A imprensa enquanto um meio é uma.
Hoje em dia, não é mais um meio, virou negócio, e o negócio mais rentável que existe atualmente, depois da igreja: A imagem.
Gostei muito do post, escrevi um também, mas me foco mais nesse disse-me-disse que basicamente confunde, e abre espaço pra muita coisa errada e também na questão dessa arbitragem "confusa" atualmente.
mas se puder, da uma conferida:
http://www.lanceactivo.com.br/Blog/Post/ListPosts.activo?profileID=101974
"Entre amigos e amigos, negócios à parte"
A imprensa enquanto um meio é uma.
Hoje em dia, não é mais um meio, virou negócio, e o negócio mais rentável que existe atualmente, depois da igreja: A imagem.
Gostei muito do post, escrevi um também, mas me foco mais nesse disse-me-disse que basicamente confunde, e abre espaço pra muita coisa errada e também na questão dessa arbitragem "confusa" atualmente.
mas se puder, da uma conferida:
http://www.lanceactivo.com.br/Blog/Post/ListPosts.activo?profileID=101974
Obrigado por seu comentário, Lula.
Li o seu blog e, como é natural, temos perspectivas diferentes sobre o tema.
Por exemplo, tenho bastante resistência à tecnologia no futebol. Coisa de gente que já morreu e não sabe.
Saudações Tricolores.
Li o seu blog e, como é natural, temos perspectivas diferentes sobre o tema.
Por exemplo, tenho bastante resistência à tecnologia no futebol. Coisa de gente que já morreu e não sabe.
Saudações Tricolores.
Caro Douglas, no início levamos na brincadeira, mas parece que ele está mesmo empolgado, o que é muito preocupante.
Veja só, prometeu para breve uma matéria internacional e um flagrante de sequestro (?!). O chefe do João Paulo que nos proteja...
Saudações.
Veja só, prometeu para breve uma matéria internacional e um flagrante de sequestro (?!). O chefe do João Paulo que nos proteja...
Saudações.
o que mais me cansa quando assisto aos jogos pela televisão são os narradores e comentaristas que deixam passar "em branco" lances escandalosos de arbitragem ou outros erros quaisquer dando a impressão de que não são profissionais confiáveis e, principalmente, que não sabem fazer jornalismo... muitas vezes não avaliam a notícia antes de passá-la ou até, realmente, não sabem o que está se passando e não são capazes de dar notícia alguma
Pois é, Ciça, e agora, além de tudo isso, temos o Adionson!
Vejamos o que nos espera...
Saudações Tricolores.
Vejamos o que nos espera...
Saudações Tricolores.
Digo isso desde quando lia seus escritos no Pavilhão Tricolor: de longe, quem melhor escreve sobre futebol no Brasil nos dias de hoje!
Grato por mais um belo texto.
Ian Alencar.
Grato por mais um belo texto.
Ian Alencar.
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