sexta-feira, 26 de março de 2010
O Expresso, a Bicicleta e o Bonde
Tenho aqui um grupo de amigos com os quais compartilho prolongadissimas conversas que, literalmente, podem durar uma eternidade. Nossos temas são os mais diversos e inusitados, recorremos a fatos e argumentos situados nas mais diferentes épocas mas, por fim, com infalível regularidade, somos conduzidos à nossa paixão comum: o Fluminense. Esta semana, por exemplo, discutíamos a situação caótica dos transportes públicos no Rio de Janeiro e a impressionante decadência do metrô, quando Adionson, nosso personal frasista, resumiu o pensamento geral: “E assim, evoluímos do expresso para o bonde”. Prontamente, ocorreu uma curiosa associação de idéias que fez o Stanislaw nos indagar: “Lembram-se do Expresso da Vitória?”. Ora, às vésperas de um clássico com o Vasco da Gama, a recordação pareceu inteiramente inoportuna.
Explico. Em 1945, o Vasco organizou um poderoso time que se sagrou campeão e recebeu o apelido de Expresso da Vitória porque, segundo seus torcedores, atropelava os adversários. Na verdade, a peça mais decisiva desta equipe era o centroavante Ademir Menezes pois, no ano seguinte, quando ele esteve conosco, fomos nós os campeões e o Vasco se resignou a um quinto lugar. A partir de 1947, no entanto, não apenas Ademir retornou a São Januário, como o clube contratou jogadores em número suficiente para montar duas boas equipes: o Expresso e o Expressinho. Eis a razão dos protestos contra a inconveniente lembrança do Stanislaw, justamente a poucos dias de um novo confronto com o Vasco. Mas ele já tinha sua jogada preparada: “Esqueceram-se do Torneio Municipal de 48?”. Satisfeito com o sucesso da estratégia, passou a nos recordar as páginas iniciais de uma das maiores epopéias da História do Fluminense.
Em 1948, o Torneio Municipal (uma espécie de Taça Guanabara, no modelo original) era disputado em turno único, pelos mesmos clubes que, a seguir, jogariam o Campeonato Carioca. O fabuloso Expresso da Vitória exibia-se numa prolongada excursão pela América do Sul, colecionando vitórias e taças. Na avaliação do comando vascaíno, o Expressinho seria suficiente para vencer os adversários locais e, de fato, segundo a imprensa, iniciou o Torneio como franco favorito. Nem mesmo o fato do Fluminense chegar invicto à rodada final e, assim, habilitar-se a uma melhor de três com o Vasco foi suficiente para abalar as previsões unânimes. No primeiro jogo, em General Severiano, surpreendemos o Expressinho por 4 x 0. No segundo jogo, na Gávea, o time vascaíno nos venceu por 2 x 1.
No jogo decisivo, apesar da vitória anterior ter recolocado a disputa em sua “ordem natural”, o Vasco não quis correr o risco de perder o título e mandou a campo sua força máxima: o Expresso da Vitória. A partir deste ponto, Stanislaw aumentou a carga de emoção com que nos relatava suas recordações. O Fluminense venceu a partida por 1 x 0, com um belíssimo gol de bicicleta de Orlando, e tornou-se campeão! Nesta competição, Orlando recebeu o apelido que o acompanharia por toda a carreira. Após a vitória de 4 x 1 sobre o Bonsucesso (com três gols dele), em jogo realizado sob intenso temporal, o jornalista José Araújo escreveu em sua coluna que Orlando - por sua baixa estatura e porque, tal como a chuva, estava em todos os lugares do gramado - mais parecia um pingo d’água. No entanto, pela brilhante atuação, não podia ser considerado um pingo comum, mas um Pingo de Ouro.
Ocorre que o golaço de Orlando Pingo de Ouro fora marcado logo no início do jogo. O adversário tinha tempo e qualidade técnica suficientes para nos impor a virada no placar. De fato, até o apito final, o Vasco executou um ininterrupto bombardeio contra nossa meta sem, no entanto, obter sucesso. Os anos seguintes trouxeram lógica a este episódio, pois esclareceram que os deuses do futebol o haviam escolhido para inaugurar um dos mais belos capítulos da nossa História. Nas partidas iniciais do Torneio, nosso camisa 1 fora o Tarzan. Para este jogo, optamos por escalar um jovem e inexperiente goleiro, contratado ao Olaria, e que fora vice campeão do ano anterior no time de aspirantes. Tal como na clássica cena em que o Super Homem detém o avanço de uma locomotiva, Carlos José Castilho parou o poderoso Expresso da Vitória e iniciou a gloriosa trajetória que o consagraria como um dos maiores heróis da Mitologia Tricolor e, como tal, o conduziria à imortalidade.
Stanislaw lembra ainda, divertido, que a torcida vascaína deixou o estádio atônita, sem compreender como perdera um título que esperava ser ganho até por seu time reserva. Ainda por cima, a torcida tricolor ironizava o Expresso da Vitória recordando uma velha paródia carnavalesca: “Lá vai o bonde / de São Januário / levando mais um otário / pra ver o Vasco apanhar”.
J.T de Carvalho escrever às terças e sextas.
Explico. Em 1945, o Vasco organizou um poderoso time que se sagrou campeão e recebeu o apelido de Expresso da Vitória porque, segundo seus torcedores, atropelava os adversários. Na verdade, a peça mais decisiva desta equipe era o centroavante Ademir Menezes pois, no ano seguinte, quando ele esteve conosco, fomos nós os campeões e o Vasco se resignou a um quinto lugar. A partir de 1947, no entanto, não apenas Ademir retornou a São Januário, como o clube contratou jogadores em número suficiente para montar duas boas equipes: o Expresso e o Expressinho. Eis a razão dos protestos contra a inconveniente lembrança do Stanislaw, justamente a poucos dias de um novo confronto com o Vasco. Mas ele já tinha sua jogada preparada: “Esqueceram-se do Torneio Municipal de 48?”. Satisfeito com o sucesso da estratégia, passou a nos recordar as páginas iniciais de uma das maiores epopéias da História do Fluminense.
Em 1948, o Torneio Municipal (uma espécie de Taça Guanabara, no modelo original) era disputado em turno único, pelos mesmos clubes que, a seguir, jogariam o Campeonato Carioca. O fabuloso Expresso da Vitória exibia-se numa prolongada excursão pela América do Sul, colecionando vitórias e taças. Na avaliação do comando vascaíno, o Expressinho seria suficiente para vencer os adversários locais e, de fato, segundo a imprensa, iniciou o Torneio como franco favorito. Nem mesmo o fato do Fluminense chegar invicto à rodada final e, assim, habilitar-se a uma melhor de três com o Vasco foi suficiente para abalar as previsões unânimes. No primeiro jogo, em General Severiano, surpreendemos o Expressinho por 4 x 0. No segundo jogo, na Gávea, o time vascaíno nos venceu por 2 x 1.
No jogo decisivo, apesar da vitória anterior ter recolocado a disputa em sua “ordem natural”, o Vasco não quis correr o risco de perder o título e mandou a campo sua força máxima: o Expresso da Vitória. A partir deste ponto, Stanislaw aumentou a carga de emoção com que nos relatava suas recordações. O Fluminense venceu a partida por 1 x 0, com um belíssimo gol de bicicleta de Orlando, e tornou-se campeão! Nesta competição, Orlando recebeu o apelido que o acompanharia por toda a carreira. Após a vitória de 4 x 1 sobre o Bonsucesso (com três gols dele), em jogo realizado sob intenso temporal, o jornalista José Araújo escreveu em sua coluna que Orlando - por sua baixa estatura e porque, tal como a chuva, estava em todos os lugares do gramado - mais parecia um pingo d’água. No entanto, pela brilhante atuação, não podia ser considerado um pingo comum, mas um Pingo de Ouro.
Ocorre que o golaço de Orlando Pingo de Ouro fora marcado logo no início do jogo. O adversário tinha tempo e qualidade técnica suficientes para nos impor a virada no placar. De fato, até o apito final, o Vasco executou um ininterrupto bombardeio contra nossa meta sem, no entanto, obter sucesso. Os anos seguintes trouxeram lógica a este episódio, pois esclareceram que os deuses do futebol o haviam escolhido para inaugurar um dos mais belos capítulos da nossa História. Nas partidas iniciais do Torneio, nosso camisa 1 fora o Tarzan. Para este jogo, optamos por escalar um jovem e inexperiente goleiro, contratado ao Olaria, e que fora vice campeão do ano anterior no time de aspirantes. Tal como na clássica cena em que o Super Homem detém o avanço de uma locomotiva, Carlos José Castilho parou o poderoso Expresso da Vitória e iniciou a gloriosa trajetória que o consagraria como um dos maiores heróis da Mitologia Tricolor e, como tal, o conduziria à imortalidade.
Stanislaw lembra ainda, divertido, que a torcida vascaína deixou o estádio atônita, sem compreender como perdera um título que esperava ser ganho até por seu time reserva. Ainda por cima, a torcida tricolor ironizava o Expresso da Vitória recordando uma velha paródia carnavalesca: “Lá vai o bonde / de São Januário / levando mais um otário / pra ver o Vasco apanhar”.
J.T de Carvalho escrever às terças e sextas.
Comentários:
<< Página inicial
hahahah Ganhamos dos tão falados Expresso e Expressinho. Recordar é viver. Gostei muito desse blog. Adeeeeus Vascô! Adeeeeeus Vascô!
Fernando, no domingo, espero ouvir a torcida tricolor repetindo o seu grito.
Obrigado pelo comentário.
J. T.
Obrigado pelo comentário.
J. T.
Olá, Diego. Obrigado pelo comentário.
Não sou um historiador e a memória, às vezes, funciona bem. Às vezes, não! Mas consultei os amigos e chegamos ao seguinte consenso:
Fluminense: Castilho, Guálter e Haroldo. Pascoal, Pé-de-Valsa e Bigode. Pedro Amorim, Rubinho, Juvenal, Orlando e Rodrigues.
Vasco: Barbosa, Augusto e Rafanelli. Eli, Danilo e Jorge. Djalma, Dimas, Friaça, Lelé e Chico.
Quanto ao nosso time, temos dúvida, por exemplo, se quem formou o trio final foi Haroldo ou Hélvio. E, no meio de campo, se jogou Pascoal ou Berascochea.
Saudações Tricolores.
Não sou um historiador e a memória, às vezes, funciona bem. Às vezes, não! Mas consultei os amigos e chegamos ao seguinte consenso:
Fluminense: Castilho, Guálter e Haroldo. Pascoal, Pé-de-Valsa e Bigode. Pedro Amorim, Rubinho, Juvenal, Orlando e Rodrigues.
Vasco: Barbosa, Augusto e Rafanelli. Eli, Danilo e Jorge. Djalma, Dimas, Friaça, Lelé e Chico.
Quanto ao nosso time, temos dúvida, por exemplo, se quem formou o trio final foi Haroldo ou Hélvio. E, no meio de campo, se jogou Pascoal ou Berascochea.
Saudações Tricolores.
Diego, o Adionson (um amigo, aqui do grupo, que pretendo apresentar melhor na próxima 3a. feira) tem uma discordância no ataque do Vasco. Segundo ele, jogaram: Friaça, Maneca, Ademir, Lelé e Chico. Ele pode estar certo.
J. T.
J. T.
O time do Flu, pelo o que eu já ouvi falar, também tinha umas feras: Castilho, Pedro Amorim, Bigode, Rodrigues... Obrigado pela informação.
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial
Assinar Comentários [Atom]



Postar um comentário